Cantautoria, Jazz e um curso em Ciências Sociais e Humanas

0

São jovens, bem-humorados e possuem o talento para a música. Uns ainda a tentar uma carreira na área, outros já com créditos firmados. Da Sociologia à Filosofia, de Luís Severo a Júlio Resende, esta é a estória sobre os músicos que estudaram, ou estudam, na NOVA FCSH.

É de noite e a sala está iluminada pelos candeeiros e pela luz tépida que chega da janela. Num sofá branco de tom encardido, perto da mesa de som que ali se encontra, repousa Luís Severo. Chegou ao estúdio de Alvalade há quase dois anos através do amigo Diogo Rodrigues, que é também técnico de som dos Capitão Fausto, a quem pertence o espaço. Além da música, Luís, Diogo e Manuel Palha (guitarrista dos Capitão Fausto) têm em comum uma coisa. Os três estudaram na NOVA FCSH. Luís fez Sociologia. Diogo e Manuel tiraram Ciências Musicais.

Os Capitão Fausto estão no Brasil a gravar o seu novo disco, por isso esta noite o estúdio está por conta de Luís Severo. A seguir à entrevista vão chegar Vaiapraia e as Rainhas do Baile para fazerem gravações. Vaiapraia, ou Rodrigo Soromenho Marques, também foi aluno na NOVA FCSH. Estudou História da Arte e lançou há pouco mais de um ano, juntamente com as Rainhas do Baile, o primeiro álbum, 1755.

Luís Severo entrou na universidade em 2010. Optou por uma área onde tinha maior facilidade e que lhe permitisse continuar a fazer música. Fez o curso em cinco anos e, como não tinha aulas de manhã, saía à noite regularmente. “Saía mesmo que não fosse para ficar bêbedo e às vezes ia tocar com malta até às tantas”, recorda. Passava também bastante tempo na esplanada da faculdade onde conheceu muita gente e experimentou o ambiente “estupidamente relaxado” da NOVA FCSH

Para se manter ligado à música, dedicou-se à produção musical e continuou a fazer canções: “Escrevi muitas letras na faculdade! Nos intervalos ou mesmo quando estava numa aula e lá para o meio começava a ser mais chata, dava por mim noutra”. Luís esclarece que o seu bloco de notas é uma constante, pelo que faz e refaz as letras ao longo de imenso tempo. Mesmo assim, tem a certeza que as músicas Ainda é Cedo e Canto Diferente do álbum Cara D’Anjo passaram por lá.

Cara D’Anjo, o seu primeiro álbum, começa a ser feito no final do curso. Luís Severo queria fazer um disco que fosse audível por um maior número de pessoas, mas sem fugir à sua identidade. Até então estava inserido num circuito associado à música mais experimental e underground e admite que estava um bocado farto de ser “só um miudinho desse mundo”. Então decidiu: “vou fazer um disco que bombe, que bata”.

O disco acabou por correr como esperado e por isso Luís não procurou mais nada além da música para o ocupar a seguir à licenciatura. Passou a dedicar-se a 100% às suas produções e nunca chegou a exercer sociologia. “Nem paguei o diploma. Apesar de ter concluído o curso, nunca fui buscá-lo. Portanto, não sei. Será que sou sociólogo?”, interroga-se.

Luís Severo é cantautor e faz parte do leque de bandas e músicos portugueses que optaram por cantar na língua materna, desbravando assim o seu caminho até ao sucesso. Outros dois nomes que se inserem nesse movimento e estudaram na NOVA FCSH são Janeiro (um dos compositores do Festival da Canção 2018) e B Fachada.

Janeiro estudou Ciências Musicais e Ciências da Comunicação. Bernardo Fachada fez o curso em Estudos Portugueses. Antes disso, esteve dois anos e meio no Instituto Superior Técnico a estudar Química. Numa entrevista em 2010 à revista Aula Magna, revela que escolheu a NOVA FCSH por causa do poeta e ensaísta Alberto Pimenta, um homem que admira e que dava aulas no curso. À semelhança de Luís Severo, para B Fachada a passagem pela universidade nunca teve em vista uma profissão. Apenas queria “passar uns anos a estudar e esticar esse período o mais possível”.

Ir à faculdade para se “alimentar”

Noutro âmbito musical, do Jazz e do Fado (e mais recentemente do rock, com a banda Alexander Search), está Júlio Resende, pianista que estudou Filosofia na NOVA FCSH. Júlio é fã do trabalho de B Fachada: “Tem coisas muito bem-feitas e arrojadas. Às vezes até à frente do seu tempo, muitas vezes experimentais. É um grande músico e artista”.

Terminou a licenciatura em 2006. Confessando ter uma pequena paixão pela Filosofia, escolheu o curso para que pudesse conciliar a área com a paixão de sempre, a música (que estudou paralelamente toda a sua vida): “acabei também por vir para Lisboa para poder estar perto do jazz, do Hot Clube e dos concertos, que eram muitos”.

Júlio Resende (Fotografia de Pedro Cláudio)

A carreira musical começa aos 27 anos com o seu primeiro disco, Da Alma. Apesar disso, já compunha enquanto estudava, aproveitando para desenvolver a sua estética. A experiência em Filosofia acabou por influenciar os álbuns que compôs. “O meu primeiro disco tem o nome de um livro de Aristóteles. O segundo chama-se Assim Falava Jazzatustra. Um trocadilho horrível com Zaratustra.”

A cantina encontra-se repleta. Júlio Resende confunde-se no meio da multidão sentado numa das mesas a almoçar com um amigo. Continua a vir regularmente à faculdade de que gosta tanto para se encontrar com as pessoas e, quando possível, assistir a aulas de diferentes cursos. Aulas de Filosofia, Estudos Portugueses, História da Arte e Ciências da Comunicação. Fá-lo para “alimentar a imaginação”, que depois aplica na música.

Júlio não estranha por isso que tantos músicos optem por estudar Ciências Sociais e Humanas. Diz que a música e a arte não vêm só delas mesmas. Para traduzir algo em música considera importante o conhecimento e a experiência pessoal, daí que “fazer um curso de Estudos Portugueses ou Sociologia crie matéria que pode ser traduzida em música, às vezes mais facilmente do que ouvir a própria música”.

A chegada à universidade e a influência no processo criativo

Bernardo de Melo e Ricardo Barroso entraram este ano em Ciências da Comunicação. Têm uma banda, os Odeon, composta por seis elementos. Bernardo é o teclista e Ricardo o vocalista. Lançaram o seu primeiro EP em setembro de 2017 com cinco músicas que alia uma mistura entre jazz e rock progressivo a letras em português.

O primeiro semestre está a chegar ao fim e a esplanada encontra-se vazia, talvez pelo céu nublado e pela temperatura pouco convidativa. Ricardo e Bernardo ocupam uma das mesas. Lamentam não ter tido o tempo que desejariam para se dedicarem à música durante as aulas. Mas entendem que isso aconteceu apenas por uma questão de adaptação. A partir de agora esperam conseguir aproveitar melhor: “Aqui temos bastante liberdade e conseguimos ter o contacto com muitas realidades, há muita partilha, várias pessoas dedicam-se às artes. Tudo isso é propício a novas criações”, observa Ricardo.

Os Odeon (fotografia de Pedro Cláudio)

Bernardo toca piano desde os 11 anos e Ricardo guitarra desde os 14. Conheceram-se na Escola de Música Moderna de Monte Abraão. Ambos optaram por um curso que lhes desse conhecimento além da música, mas que ao mesmo tempo os mantivesse próximos da área artística. “É algo que nos faz sentir mais completos. Quero ser um pouco mais do que um músico, uma pessoa informada e que compreende o que se passa em seu redor”, justifica Ricardo.

Bernardo ainda não tem a certeza, mas Ricardo gostaria de se dedicar à música a tempo inteiro. Conscientes das dificuldades que uma decisão dessas acarreta, para já querem viver o presente. Estão satisfeitos com o primeiro EP: “acho que provámos que tínhamos alguma personalidade, algo diferente para oferecer”, defende Ricardo. Agora pretendem continuar a explorar novas musicalidades e contam com a experiência na faculdade para isso.

Ricardo e Bernardo notam que cresceram muito nesta nova fase e estão entusiasmados por poderem voltar a juntar a banda nas férias. “Tivemos todos experiências muito distintas, experiências que nos afetaram bastante e que podem ser traduzidas em ideias musicais”, explica Bernardo. Ricardo acrescenta: “Acho que vai contribuir e estou ansioso por arranjarmos um novo espaço para ensaiarmos!”. “Já temos espaço”, diz Bernardo. “Temos? Olha, tenho novidades!” (risos).

 

Partilhe.

Sobre o/a autor/a

Até aos 14 anos quis ser engenheiro, porém sempre que ligava a televisão sintonizava nos canais noticiosos. Agora que quero mesmo ser jornalista, algumas das pessoas que me conhecem estranham, pois dizem que não sou de muitas palavras. Por outro lado, há quem refira que, quando falo, falo para dizer o mais assertado. Com o jornalismo acredito que vá ser parecido. Primeiro porque o jornalista não tem voz, mas sim dá voz. Depois porque é preciso saber comunicar o essencial, contribuindo para informar verdadeiramente o público.

Envie uma resposta

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.