Projeto de investigação faz germinar alternativas para a intervenção na infância

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Até que ponto é possível transformar através da arte? Afinal, pode ou não a música ter alguma influência no desenvolvimento das crianças? O projeto GermInArte, que resulta de uma parceria entre a Companhia de Música Teatral e o Laboratório de Música e Comunicação na Infância do CESEM, da NOVA FCSH, veio dar resposta a estas (e outras) questões.

É uma combinação de arte com educação. Mas com a singularidade de lançar um olhar renovado sobre as questões artísticas e relacionais. O GermInArte – Transformação Artística para o Desenvolvimento Social e Humano desenvolve formações para músicos, artistas e educadores que lidam com as crianças, sensibilizando para a importância da música na primeira infância.

Nasceu em 2015, na sequência de um outro projeto, o Opus Tutti. Helena Rodrigues, coordenadora do GermInArte e docente do departamento de Ciências Musicais da FCSH, explica que a iniciativa pretende “vir dar resposta às necessidades identificadas ao nível da formação de profissionais que contactam com a infância.” A ideia é que quem trabalha com as crianças consiga fazê-lo de uma maneira eclética, utilizando linguagens diferentes, mais concretamente a linguagem musical.

“As crianças aprendem vendo bons modelos. Mas, para que isso aconteça, há que mudar as práticas de formação que tradicionalmente se centram quase exclusivamente na aquisição de competências de ordem cognitiva”, afirma a coordenadora. “Queremos ir mais longe – educar é um processo de desenvolvimento pessoal com alcance num projeto social”, acrescenta.

TransFormar através da arte

Nesta lógica, a iniciativa do CESEM e da Companhia de Música Teatral, financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, oferece duas modalidades de formação direcionadas à primeira infância – a imersiva e a transitiva. São processos formativos que têm um caráter artístico e musical e que envolvem equipas multidisciplinares, quer ao nível dos formandos, quer ao nível dos formadores. “Queremos um público diversificado que tenha formação, passando por educadores de infância, músicos e pessoas das artes plásticas”, conta o coordenador executivo, Paulo Ferreira Rodrigues.

Mas há diferenças entre os dois modelos. A formação transitiva é prática e sobretudo vivencial. Corresponde a três módulos de três horas cada – “Colos de Música”, “SuperSonics” e “BebéPlimPlim” – onde as pessoas exploram como se pode trabalhar várias vertentes artísticas, como o cantar, fazer música através de objetos sonoros e a audição musical. Existe ainda espaço para levar estes módulos a outras pessoas e outras cidades de Portugal. Até agora, “já conseguimos chegar a uma grande diversidade de sítios, desde o Minho ao Algarve, passando inclusive pelos Açores”, relata Paulo Rodrigues.

Já a formação imersiva tem muito de exploratório e de construção. Tratam-se de sessões que ocorrem ao longo de uma semana de 40 horas, nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian, e onde os participantes trabalham aspetos ligados ao movimento, à voz e às emoções. O objetivo é que “através do corpo, se descubra a voz e, através da voz, o corpo entre em ação”, explica o coordenador executivo. O trabalho realizado durante essa semana culmina num momento festivo, onde se proporciona uma experiência artística – que foi sendo construída ao longo da semana – para pais e bebés.

A música enquanto instrumento de desenvolvimento humano

Além do propósito educativo, as formações que integram este projeto visam proporcionar vivências musicais que possam contribuir para o desenvolvimento pessoal e enriquecer a relação com bebés e crianças. Elas são, dessa forma, “oportunidades de fruição artística e interação social de elevada qualidade”, diz Ana Isabel Pereira, formadora do projeto e membro do Grupo de Educação e Desenvolvimento Humano do CESEM.

A coordenadora Helena Rodrigues mostra-se assertiva quanto ao papel da arte na transformação individual. “Desenvolver as capacidades musicais de base contribui para desenvolver outras capacidades do ser humano, nomeadamente no que se refere ao nível psicológico e ao alicerçar de vínculos afetivos e sociais”, refere.

Mais do que um objetivo artístico, a música “é um objeto mediador capaz de construir pontes e estreitar laços entre as crianças e aqueles que a rodeiam”, criando conexões a que “nenhuma outra experiência humana dá acesso”, diz Ana Isabel Pereira. Intervir ao nível da primeira infância utilizando ferramentas musicais tem, desse modo, um papel “insubstituível” na construção de uma comunidade.

O projeto GermInArte termina este ano e o balanço que se faz é bastante positivo. Paulo Rodrigues realça que a adesão tem sido muito boa e que já “centenas de pessoas contactaram com o projeto e receberam formação.” São pessoas que, na ótica de Ana Isabel Pereira, estão “genuinamente interessadas em aprender mais e levar novas experiências às crianças, passando por uma nova forma de fazer música e de se relacionarem com elas.”

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