Comunidade LGBTI na NOVA: entre o “armário” e a luz dos holofotes

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Dividem-se por áreas de estudo que vão desde as Engenharias ao Direito, mas têm uma coisa que os une: todos eles pertencem à comunidade LGBTI. De que forma os estudantes da NOVA assumem a sua orientação e identidade sexual?

“Sou uma mistura de hemissexual com pansexual”, afirma Mariana (nome fictício), estudante da Faculdade de Direito da Universidade NOVA de Lisboa e cuja orientação sexual se caracteriza por envolver “o lado da hemissexualidade, que se prende com o desejo por uma pessoa em específico e apenas aquela pessoa”, mas também o da pansexualidade, que se relaciona com a atração sentida por outro indivíduo, independentemente do seu sexo ou identidade de género.

Natural de uma cidade pequena, “onde as pessoas têm uma mente muito fechada” e onde foi olhada de lado devido à sua orientação sexual, Mariana pensou que ao ingressar numa faculdade onde pairam “ideologias de direita” como a sua, iria novamente ser alvo de atitudes discriminatórias.

Mas isso não aconteceu. Na verdade, a postura de aceitação face à comunidade LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexuais) na Faculdade de Direito é uma realidade. “Se chegar à faculdade e apresentar aos meus colegas o meu namorado ou a minha namorada, a reação será exatamente a mesma.” Isto numa faculdade onde os indivíduos assumidamente LGBTI são uma clara minoria, entre 10 e 15.

E esse ambiente de consentimento contribui para que os estudantes se sintam à vontade para expressar a sua identidade ou orientação sexual, até mesmo em contexto de praxe. A dux do seu curso é assumidamente homossexual e nunca foi feito qualquer comentário discriminatório nesse sentido, conta Mariana, ao mesmo tempo que a sua figura se perde entre o fumo do seu cigarro.

Apesar de nunca ter assumido explicitamente a sua orientação sexual em contexto académico, não haveria grande problema caso o tivesse feito: “Não é uma questão de não saberem que sou LGBTI. Penso que nunca ninguém me perguntou, portanto eu também nunca tive a necessidade de o dizer. Mas as minhas amigas mais próximas sabem e penso que quase toda a gente com quem eu falo tem essa noção, e nunca houve problemas com isso”.

Mas esta realidade nem sempre foi assim. Foi apenas após a instauração da democracia em Portugal que o movimento LGBTI começa a desenvolver-se, dentro de certas fações políticas de esquerda, enquanto movimento organizado e com preocupações ao nível dos direitos desta comunidade. Tendo alcançado como um dos seus primeiros feitos a descriminalização da homossexualidade, que acabaria por ser conseguida em 1982, este movimento tem lutado desde o seu surgimento pela integração e direitos igualitários dos indivíduos LGBTI.

E tal esforço tem sido recompensado, tendo o movimento obtido nos últimos anos algumas conquistas ao nível da legislação. Após a aprovação, em Assembleia da República, do casamento civil entre pessoas do mesmo género em 2010, também a adoção conjunta por parte de casais compostos por pessoas do mesmo sexo passou a ser possível desde 2015. Por outro lado, o Código do Trabalho, ao introduzir em 2016 a proibição da discriminação por motivos relacionados com a identidade de género, tem também proporcionado uma maior integração da comunidade LGBTI.

Uma faculdade que acolhe a cultura LGBTI

Já passa um pouco das seis da tarde e a luz suave e amarelada do crepúsculo ilumina a pequena esplanada anexa à cantina da NOVA FCSH. É precisamente aí que se encontra Mónica Ventura, acompanhada por dois amigos do seu curso. Os três, que repousam em cadeiras circundantes a uma das muitas mesas que podemos encontrar nesse espaço, estão perdidos entre ruidosas gargalhadas.

Mónica entrou este ano letivo em Ciências da Comunicação, é bissexual e desde os seus primeiros dias na referida faculdade que se sentiu “em casa”. Refere que a comunidade LGBTI na NOVA FCSH é bastante expressiva em termos numéricos e que tem dificuldade em pensar noutra faculdade que acolhesse a mesma tão bem.

De facto, esta trata-se de uma faculdade com uma “extrema abertura” em relação a questões relacionadas com a identidade de género e orientação sexual: “Entras na faculdade e vês pessoas que estão abertamente a ser quem são, tu consegues ver a comunidade LGBTI a expressar-se enquanto tal, sem medo nenhum de que alguém chegue lá e diga alguma coisa menos bonita ou olhe de lado, porque isso muito raramente acontece”, comenta Mónica.

Para além da aceitação generalizada de que são alvo nesta faculdade, existem também algumas iniciativas desenvolvidas em contexto académico que são mais direcionadas para esse público específico. A lista que esteve responsável pela Associação de Estudantes da NOVA FCSH até ao passado mês de fevereiro levou a cabo algumas atividades nesse sentido. “Não são todas as Associações de Estudantes que, como a nossa, organizaram uma Semana Queer“, menciona Mónica, na qual tiveram lugar festas temáticas, debates e exposição de filmes, tudo relacionado com as questões LGBTI.

O próprio movimento AlternAtiva, que tem como principal função a receção dos novos alunos da faculdade de uma forma distinta da praxe tradicional, também foi responsável pela organização de atividades nesse sentido, das quais se destaca uma sessão de poesia intitulada “Não sou homem nem mulher e leio o que eu quiser”, que se realizou em fevereiro de 2017 e versou sobre as questões da sexualidade e da identidade de género.

No entanto, essas iniciativas são apenas fruto da grande expressividade de indivíduos LGBTI na faculdade. “Se a comunidade não fosse tão forte aqui, talvez se criasse a necessidade de fazer com que essas pessoas se sentissem bem-vindas. Mas como é uma coisa tão normal, não é necessário fazer eventos específicos com essa finalidade.” E é por isso que Mónica acrescenta: “É por estas razões que digo às minhas amigas, em tom de brincadeira, que o nome da minha faculdade não deveria ser NOVA FCSH, mas sim LGBTI NOVA. Conheço pessoas de outras faculdades e a realidade é completamente diferente”.

No entanto, há ainda um longo caminho a percorrer para se chegar a um nível de plena aceitação dos indivíduos LGBTI. “Houve alterações importantes na lei, como o casamento ou a adoção por parte de pessoas do mesmo sexo e uma maior abertura da sociedade que também vem permitir uma maior visibilidade das pessoas LGBTI. No entanto, basta ver alguns comentários homofóbicos nas redes sociais para perceber que o trabalho a fazer não está de todo concluído”, refere Rui Lopes Pedro, Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta.

E tal trabalho deverá ser feito arduamente nas faculdades, ressalva o especialista, porque mesmo havendo atualmente muitos estudantes que não sentem a necessidade de esconder a sua identidade sexual, continuam a existir episódios discriminatórios: “A integração em meio académico pode oferecer dificuldades a algumas pessoas, independentemente da sua orientação sexual. Porém, estas dificuldades serão acrescidas se uma pessoa sentir necessidade de esconder a sua identidade sexual ou se sofrer discriminação em função desta”.

E até ao nível das famílias, aponta Rui Lopes Pedro, há ainda espaço para evoluir, visto que muitos indivíduos da comunidade são ainda alvo de dificuldades de aceitação por parte dos seus familiares. Na verdade, muitos indivíduos LGBTI que procuram apoio psicológico fazem-no devido a essa mesma razão: “De facto, o principal fator de dificuldade para algumas pessoas LGBTI prende-se com a falta de apoio por parte do seu círculo familiar no que diz respeito a este assunto”.

“Aceita-se, mas comenta-se”

“Ora bem, tenho uma história interessante para contar. Mal entrei na faculdade, comecei logo por ter uma cadeira de Álgebra e o professor era assumidamente homossexual, sem ter qualquer intenção de o esconder.” A situação descrita é semelhante à sua. João Afonso, aluno na NOVA SBE, tem tentado desde que entrou na faculdade ser transparente quanto à sua orientação sexual, embora isso tenha sido difícil nos primeiros tempos.

Mal chegou à licenciatura em Economia, João não sabia se seria boa ideia revelar a sua orientação sexual aos seus colegas. “Saber que existiam pessoas no meio académico que não tinham qualquer problema em exprimirem quem são foi algo bastante encorajador, mas depois, nas outras aulas ou nos corredores, ouviam-se muitos comentários a respeito desse professor.”

E tais comentários não eram proferidos apenas a respeito do pessoal docente, mas sim em relação à comunidade LGBTI em geral. João ouviu, certo dia, colegas da faculdade a referirem que as pessoas apenas são homossexuais porque escolhem sê-lo. No entanto, tirando estas frases soltas que vai escutando pelos corredores da faculdade, nunca se sentiu diretamente discriminado devido ao facto de ser gay.

Esta é, diz João, uma das razões que faz com que muitos estudantes da NOVA SBE possam sentir a necessidade de esconder a sua orientação sexual. Existindo um núcleo de pessoas na faculdade que se assumem como LGBTI, estas são representadas por um número bastante reduzido, havendo “ainda muita gente no armário”, aponta.

De facto, o apoio à comunidade LGBTI, bem como a sua integração, em contexto académico, ainda tem muito por onde evoluir. “Temos que perceber que pessoas que pertencem à comunidade LGBTI podem ter a necessidade de receber apoio psicológico específico e especializado, podendo até ter mais dificuldades em conseguir chegar ao ensino superior”, menciona Daniel Cardoso, professor na NOVA FCSH e investigador que se debruça sobre questões relacionadas com o género e a sexualidade, que realça ainda ser necessário pensar em medidas que compensem estas lacunas.

No entanto, a investigação académica respeitante à comunidade LGBTI tem ganho cada vez mais expressão nos últimos anos, tendo havido “um aumento do financiamento, da legitimidade epistemológica e da visibilidade do trabalho com pessoas não heterossexuais e não conformantes em termos de género”, refere Daniel Cardoso. Mas embora haja esta maior institucionalização dos estudos LGBTI ao nível da academia, estes acabam sempre por ter um papel secundário, não tendo qualquer impacto nas práticas quotidianas das faculdades: “Apesar de podermos falar de uma maior abertura, continuamos a utilizar casas de banho distintas para homens e para mulheres, portanto trata-se de uma abertura que fica apenas dentro do reino do conceptual”, constata o investigador da NOVA FCSH.

“Preconceito internalizado” vs. aceitação própria

Na margem a sul do rio Tejo estuda Bernardo Maciel. Num pequeno café situado em Alcântara, freguesia que cruza sempre no seu vaivém diário necessário para frequentar a FCT NOVA, Bernardo ocupa uma das mesas. Enquanto vai bebendo o seu café e apanhando as migalhas que aí já se encontravam pousadas, o seu olhar perde-se entre a enorme agitação citadina que se evidencia no exterior do estabelecimento.

Foi em setembro de 2015 que ingressou no curso de Engenharia Biomédica e, desde então, nunca foi discriminado nem sofreu problemas de integração devido à sua orientação sexual. “O ambiente geral, pelo menos no meu curso, é de aceitação, mas continua a ser um assunto tabu e acho que as pessoas gostam de guardar isso para a sua intimidade.” Pelo menos é isso que acontece com Bernardo que, apesar disso, não sente qualquer problema em revelar o facto de ser LGBTI caso lhe perguntem diretamente.

Mas existem ainda muitas pessoas que se esforçam por esconder totalmente a sua orientação sexual: “Sinto que isso é uma questão global e não penso que seja o ambiente específico da faculdade que contribua para isso mais do que o ambiente da nossa sociedade”, refere Bernardo Maciel, enquanto brinca com a pequena argola que se encontra na sua orelha esquerda.

Apesar de ter aprendido a lidar com o facto de ser gay desde o nono ano de escolaridade e ter aprendido a aceitar-se enquanto tal, Bernardo sente que há muita gente que não é capaz de o fazer. Olha à sua volta e repara em pessoas que, graças ao “preconceito internalizado” que é inerente a cada indivíduo, estão em negação em relação a si próprias, em situações de conflito interno e que têm dificuldade em aceitar a sua identidade de género ou orientação sexual. Acabando por recalcar a sua verdadeira identidade, justifica Bernardo, estão assim a cometer o seu maior erro, porque “essa aceitação própria é totalmente libertadora”.

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Sobre o/a autor/a

Tinha 8 anos de idade quando descobri que era possível fazer magia com uma raquete na mão e uma bola de ténis. Desde então, surgiu em mim a vontade de estar sempre a par de tudo o que acontecia no mundo do ténis e do desporto em geral. Foi esse meu interesse pela descoberta da novidade que foi despertando em mim a certeza de querer ser jornalista. Atualmente, pretendo tirar partido do meu conhecimento sobre a atualidade desportiva para contribuir para a construção de uma sociedade mais informada e consciente do que se passa ao seu redor.

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