Gabriela Galveia, a encantadora de livros

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Entrou para o curso de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH, em 2014, com média de 19,8 valores, a duas décimas do 20. Porém, um ano depois, mudou para a licenciatura em História porque precisava de alargar os horizontes. Mas Gabriela Galveia não vai parar por aqui.

Numa altura em que o smartphone, o tablet ou o YouTube imperam entre o consumo dos jovens, Gabriela Galveia, de 23 anos, não consegue viver sem livros. Entrou na NOVA FCSH em Ciências da Comunicação com a maior média daquele ano: 19,8 valores. Um tempo depois, já estava na licenciatura em História onde conseguiu satisfazer melhor a sua sede de conhecimento. Prestes a terminá-la, falou à NOVA Magazine sobre o futuro, que não passa pelo país.

A tua relação com os livros nasceu em que idade?

Aprendi a ler aos três anos, sozinha. Antes mesmo de conseguir ler as palavras e frases inteiras, começava a tentar desenhar as letras. Uma vez eu e a minha mãe íamos para o Algarve e eu comecei a ler os anúncios publicitários que pas­savamm nos cartazes na estrada. A minha mãe assustou-se imenso, ia perden­do o contro­lo do carro, mas pensou que eu já tivesse ouvido aquela publicidade, por isso quando via um cartaz dizia: “Oh Gabriela, lê aquilo”.

Depois, com cinco ou seis anos anos, o momento mais fe­liz da minha semana era quando chegava a pessoa que trazia os pedidos que eu tinha feito para o Círculo de Leitores. Nunca gos­tei de olhar para os bonecos, eu queria era ler. Quando os livros chegavam, até parava de comer para ficar deitada a ler até de madrugada, de tal forma excitada que a minha mãe não me conseguia fazer dormir.

Mais tarde, quando tinha sete, oito anos, a minha mãe deu-me aquela que considero a me­lhor prenda da minha vida: uma máqui­na de escrever que ainda hoje guardo, apesar de não utilizar. Usei-a tanto que algumas teclas caíram. As minhas brincadeiras nessa idade eram pegar num livro, ver uma passagem que gostasse muito e escrevê-la. Primeiro copiava poemas, nomeadamente da Sophia de Melo Breyner, que foi a minha grande referência, depois comecei a ler poetas americanos e franceses, o que também me fez desenvolver o gosto pelas línguas e pela comunicação. Mas houve uma altura em que isso já não chegava e comecei a perceber como é que as palavras se encadeavam para criar uma certa elegância e harmonia e escrevi poemas meus também.

A partir dos 10 anos, comecei a distanciar-me da ficção e a interessar-me pelo realismo. Entre outros autores li José Saramago que se tornou o meu escritor preferido, queria coisas que tivessem a ver com a sociedade, com as desigualdades. Gostava de ler enciclopédias, mas por volta dos 15 anos comecei a achar que estas tinham informação muito simplifi­cada, então procurei alternativas e li outros livros, como a Fundação da Metafísica e dos Costumes, de Kant. Pensei que não ia perceber mas comprei um dicionário de filosofia e consegui entender.

Já pensaste em escrever um livro?

Escrevi um quando tinha oito ou nove anos, aquelas aventuras de fantasia. A partir do sexto ano participei em vários concursos lite­rários e ganhei alguns prémios. Ainda hoje escrevo, mas tenho algumas reticências em publicar porque elevei muito a minha exi­gência ao nível das leituras e acho que ainda me falta ler muito para chegar ao nível em que colo­co grandes escritores da Humani­dade, co­mo Aristóteles, Platão e também nomes da literatura que não se apagam. Sinto-me re­duzida ao pé deles e penso que muitos li­vros que hoje se publicam servem para en­cher estantes, são lixo provocado por uma indústria, e eu não quero ser escritora ape­nas para alimentá-la.

Entraste para o ensino superior com média de 19,8. Como foi o teu secundário?

Procurei uma escola com as disci­plinas op­ci­­o­nais que queria ter. Quando somos apai­xonados pelo que fazemos as coisas correm bem, e eu era, foram os anos mais felizes da minha vida, apesar de alguns problemas com professores de que não gostava. Até em conversas informais com os meus ami­gos eu queria falar sobre a matéria mas não por ser “ratinho de biblio­teca”. Sempre gostei muito de sair à noite.

Havia uma biblioteca na minha es­cola secundária, na qual eu passava horas e horas, além de requisitar livros e ter de pe­dir aos meus colegas para requisitarem por mim, porque eu ultrapassava o limite de 5 livros por aluno. Lembro-me de levar sacos de plástico grandes para a escola para con­se­­guir entregar os livros que requisitava! Também compro imensos livros e não me lembro de estar numa aula sem fazer algo que me desse prazer. Quando o discurso dos pro­fes­sores se tornava repetitivo eu ocupava o tempo a fazer outras pesquisas. Assim, es­tudar era o melhor tempo para mim por­que podia aprofundar mais.

Alguma vez te sentiste descriminada?

Sim, várias vezes. Em criança, no intervalo, eu gostava de ler enquanto as outras crianças gostavam de brincar e as conver­sas que tinha não eram compreen­didas por elas. Eu desvalorizava muito os problemas próprios da minha idade de que as minhas amigas falavam, como namora­dos. Sabia que havia problemas muito mais graves como haver pouco dinheiro para pagar as contas em casa. Senti uma maior discrimi­na­ção ao nível dos colegas até ao 9º ano por gostar mais de falar com os professores e com as empregadas.

No secundário senti-me descrimi­nada mais pelos professores que não que­riam esforçar-se para responder às minhas questões, pelo que deixei de colocá-las e procurei as respostas sozinha. No início do 10º ano foi um pouco complicado porque não sabia bem onde procurá-las mas acabei por conseguir. Senti-me muitas vezes de­sam­parada porque, quando eu colocava uma questão, ou estava a avançar dema­siado na matéria relativamente ao que se pedia ou então só tinham respostas muito vagas para me dar.

Estiveste dois anos afastada da escola antes de entrares para o 10.º ano do ensino secundário. Porquê?

Senti que precisava de tempo para ler muito. Não concordo com o ensino ‘normal’ e precisava de procurar mais informação. Sabia que não ia ficar afastada do sistema de ensino para sempre, mas naquela idade acreditava que podia aprender por mim própria, ser quase autodidata. Depois percebi que não podia ser assim. Por outro lado, ainda me insurjo contra pessoas que tiram um curso e parecem não ter os conhecimentos correspondentes a esse nível de ensino, o que vejo com alguma frequência porque existe muito a mentalidade do “desenrascar” e deixar tudo para amanhã. Muitos professores parecem desmotivados, possivelmente devido à questão do salário e, por vezes, “vingam-se” não preparando as aulas, o que revela desinteresse que, por sua vez, reduz também o interesse dos alunos que não veem motivo para se esforçarem e vão, assim, mal preparados para serem os possíveis professores do futuro.

E na faculdade, o que te levou a mudar de Ciências da Comunicação para História?

Optei por Comunicação para compreender melhor o mundo à minha volta, mas não gostei. O curso não satisfazia a minha curiosidade intelectual, acho que alguém que se questiona não procura estudar por uma sebenta para dizer o que outros dizem ser correto. Senti que estudávamos apenas autores muito específicos sem questionar, para sumarizar os textos, assim como aquilo que os professores dizem nas aulas e depois escrever tudo na frequência. Também aprendi, mas para mim o método de ensino era limitativo e senti-me bastan­te frustrada e vazia. Falei com outros cole­gas que disseram estar na mesma situação.

Sabia que não queria estar três anos assim, por isso tive de mudar. De qualquer forma, sei que vou estar sempre a fazer alguma coisa ligada à escrita. Agora estou em História e sinto-me bem porque temos um método de ensino diferente: os profes­sores estão abertos a que procuremos ou­tros autores, recebem as nossas propostas.

Sei que gostas de moda. Como é que ela entra na tua vida?

A moda sempre foi uma grande paixão também. Desde pequena que me fascina e remete para um mundo de fantasia por estar envolvida numa atmosfera de sonho: os penteados, a maquilhagem, uma oposição à realidade cinzenta. Acho que a moda propõe uma evasão do dia-a-dia. Quando tinha cerca de 15 anos estive numa agência de moda e fiz algumas produções para a Modalfa, mas coisas pequenas. Depois vi que a ideia que tinha em relação à moda era completamente errada porque esta é uma indústria que não está nada virada para a fantasia, isso é tudo uma fachada porque afinal ela é muito pragmática, realista e calculista: pensa tudo até ao último detalhe para gerar a atenção do consumidor, vive da publicidade e procura a maximização do lucro, sem grande preocupação pelas pessoas. Tive um grande desencantamento com a moda e revalorizei ainda mais o estudo. Lá há demasiados cânones para entrar, o que dá uma ideia de exclusividade. Só um tipo de pessoa pode entrar e isso influencia muito as pessoas “normais” que não são perfeitas a tentar perseguir esse ideal impossível e fabricado, através do consumismo.

Também o desporto tem lugar na tua vida…

Tenho muita dificuldade em desligar-me dos livros e o meu pensamento começava a ficar demasiado tempo preso a um tema, não conseguia pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. A certa altura percebi que precisava de criar um distanciamento, até como método para estudar melhor, porque quando estamos demasiado fechados numa questão não conseguimos ver outras que estão relacionadas e podem ajudar a resolvê-la. Assim, o desporto veio como um escape, uma fuga àquela obsessão. Mas também quando estou a fazer desporto, que adoro, tenho ideias sobre assuntos que tenho de trabalhar, nomeadamente porque oiço conversas à minha volta, no caminho para o ginásio, etc. Creio que temos sempre de alargar o campo do nosso estudo, eu sou um pouco crítica da especialização excessiva da academia.

Como é que te tornaste vegetariana?

Sempre tive muitas preocupações sociais e, talvez por ter dificuldade em comunicar com as pessoas da minha idade, sentia uma ligação emocional aos animais. Desde pequena que tive muitos animais, cães, gatos, hamsters… Como passava muito tempo sozinha (até aos 14/15 anos era difícil encontrar pessoas da minha idade que tivessem as mesmas preocupações e ideias que eu), estava muito tempo com os animais e além disso também lia sobre a natureza. À medida que me informava, comecei a não me sentir bem e deixar de estar tranquila com a minha consciência por comer animais, o que também é estranho porque a cadeia alimentar funciona muito assim. Mas eu sentia que animais serem mortos para me alimentar era violência e egoísmo. Sabia que havia alternativas alimentares para não comer animais e, tal como sou contra a pena de morte nos humanos por achar que ninguém é suficientemente justo para decidir se outro vive ou morre, também acho que os animais devem ter uma morte natural. No início tive alguns problemas como falta de ferro e introduzi alguns produtos de origem animal, que ainda mantenho, mas agora todos os anos vou a uma nutricionista, que também é vegetariana, para vigiar a alimentação e avaliar se preciso ou não de tomar suplementos. Acho que é isso que falta a muitos vegetarianos e pessoas que querem ser vegetarianas.

Já tens planos para o futuro?

Vou para a Suécia, em setembro, porque quero fazer um mestrado em Estudos Europeus. A minha tia vive lá e isso, aliado à dificuldade de conseguir um bom salário em Portugal, motivou a minha decisão. Escolhi a Universidade de Gotemburgo por causa da qualidade do ensino e estou contente por poder conhecer o modo de vida de outro país.

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Sobre o/a autor/a

Desde que me lembro que adoro superar desafios e fazer várias coisas ao mesmo tempo. Sou, por isso, muito enérgica e organizada. Neste momento pratico atletismo e estudo ciências da comunicação para dar continuidade às minhas duas paixões: o desporto e o jornalismo. A minha curiosidade faz-me querer saber cada vez mais e é com o jornalismo que quero conhecer e dar a conhecer o mundo.

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