Investigadores da NOVA Medical School estudam a relação entre exercício físico e doença coronária

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Será que o exercício físico é um “gatilho” para o enfarte e morte súbita? Quatro investigadores querem comprovar a eficácia de dois exames inovadores que ajudariam a detetar doença coronária em atletas veteranos. Esta doença é responsável por 80% dos casos de morte súbita em desportistas mais velhos. 

Apesar de ser parte da prevenção de doenças cardiovasculares, o exercício físico em atletas veteranos pode desencadear eventos cardiovasculares graves em pessoas com doença coronária. É o paradoxo que uma equipa de investigadores da NOVA propõe através de um artigo já publicado e de uma investigação a decorrer, que poderá trazer novos dados sobre esta matéria.

Helder Dores, Pedro Gonçalves, Nuno Cardim e Nuno Neuparth são os autores do artigo científico “Doença coronária em atletas: «efeito adverso do exercício físico intenso?»”, publicado na Revista Portuguesa de Cardiologia em janeiro. Este artigo serve de introdução a uma investigação em que 105 atletas veteranos são avaliados com uma TAC às coronárias e um score de cálcio, um exame que mede o nível de placas de cálcio no sangue. Há apenas quatro ou cinco artigos originais a nível mundial que tratam este tema e em Portugal não havia nada publicado, segundo Helder Dores.

Quanto maior a idade, maior a suscetibilidade à doença coronária

As causas de morte súbita em atletas jovens, por norma mais mediáticas, são em grande maioria de ordem hereditária, como miocardiopatias, e se estas forem avaliadas por médicos com experiência acabam por ser fáceis de detetar. Mas os atletas veteranos são os mais suscetíveis à doença coronária, responsável por 80% da morte súbita nestes atletas, e também os menos acompanhados por médicos.

A doença coronária corresponde à acumulação de gordura nas artérias, a chamada aterosclerose, existindo vários fatores de risco associados, como a idade, género e historial familiar. Para além destes fatores não modificáveis, existem outros que dependem do estilo de vida como a alimentação, tensão arterial, hábitos de tabagismo e inatividade física. Os últimos são os mais relevantes para Helder Dores, investigador principal do artigo. “Ninguém pode alterar o género ou a idade, mas podemos deixar de ser gordos, parar de fumar ou baixar o colesterol”, afirmou.

Para o médico cardiologista não é o exercício físico que está em questão, nem um desporto em particular, mas sim a maior incidência de enfartes ou morte súbita em atletas com risco acrescido. “O exercício físico não leva ao enfarte agudo do miocárdio ou morte súbita, é o gatilho. Mas numa pessoa com risco aumentado ou com doença coronária que não conhecia ou não valorizou, o exercício físico extremo despoleta uma série de alterações que podem predispor a ocorrência de um evento grave durante o exercício”, explica Helder Dores.

Nem muito, nem pouco: praticar desporto de forma moderada

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal e no mundo ocidental, sendo do domínio comum que o desporto é uma forma de as combater. Mas pelo menos nos atletas veteranos pode-se considerar uma “curva em u” no que diz respeito à intensidade do desporto. Ou seja, quem não pratica regularmente desporto está mais exposto não só a obesidade ou diabetes como também doença coronária; quem pratica moderadamente está melhor protegido; e quem faz exercício muito intenso aumenta a probabilidade de desenvolver arritmias, nomeadamente fibriação muscular (cinco vezes mais frequente em atletas do que não-atletas), disfunção do ventríloquo direito ou formação de placas nas artérias.

Quanto a doses de exercício, o que se recomenda são “150 minutos por semana de exercício de uma intensidade moderada ou 75 minutos por semana de exercício de intensidade elevada. A partir daí, não sabemos quanto mais é demais”, refere o investigador da NOVA Medical School e do CEDOC (Centro de Estudos de Doenças Crónicas).

A deteção de doença coronária nos atletas veteranos na avaliação pré-competitiva é uma das peças-chave para evitar enfarte ou morte súbita, ainda que muitos destes atletas não sejam acompanhados por médicos, ao contrário dos atletas mais jovens (a nível federado) que fazem exames anualmente. Mas até aí surge controvérsia porque os exames feitos normalmente podem não ser eficazes, segundo o investigador principal deste artigo. Atualmente, a avaliação normal é feita através de um eletrocardiograma, prova de esforço e historial clínico, que geralmente não conseguem identificar doenças coronárias na sua totalidade. Por outro lado, um TAC às coronárias ou um score de cálcio são dois exames que permitem detetar claramente essas doenças, algo que a investigação pode provar, sendo que já foi identificada doença coronária em 40% dos atletas investigados com ajuda do referido TAC.

Helder Dores remete para a investigação, que se prolonga há um ano, a maior importância do seu trabalho pois irá trazer novos dados científicos. “Iremos comparar a avaliação habitual com o score de cálcio e o TAC às coronárias, para perceber se estes exames acrescentam capacidade diagnóstica, e tentar compreender qual é a relação da dose do exercício com tudo isto”, concluiu.

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Sobre o/a autor/a

Toxofalense, membro do maior grupo de sonhadores frustrados do mundo: sempre quis ser futebolista. As oportunidades e os pés não deixaram. Prefiro agora agarrar com as mãos as oportunidades que me são dadas, e o jornalismo é a maior e mais satisfatória dessas oportunidades. Razão, curiosidade, humor e imparcialidade é o que me define. O lado lunar fica para depois.

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