Arqueólogos estudam barcos encontrados na zona de Santos

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O Centro de História d’Aquém e d’Além Mar é responsável pela organização e preservação dos espólios arqueológicos encontrados na zona ribeirinha de Lisboa em 2013.

De luvas postas, José Bettencourt vai buscar a primeira caixa de materiais. “Vamos montar o local de trabalho aqui”, aponta para o espaço vazio de maior iluminação entre os tanques de água que comportam dois navios de construção pós-medieval. É mais uma tarde de trabalhos que incide sobre os objetos e materiais encontrados aquando da descoberta dos navios Boa Vista 1 e Boa Vista 2, durante as escavações realizadas para a construção da Sede da EDP na Avenida 24 de Julho, em Santos.

Os trabalhos demoram a iniciar-se, é necessário comprar um adaptador para que se possa encaixar a mangueira na torneira que fornece a água necessária. José e Joana, alunos do curso de Arqueologia, cumprem horas necessárias para completar tempo de estágio em laboratório. José Bettencourt informa-os do trabalho que vai ser realizado: “Ali têm os materiais que apareceram na intervenção arqueológica à volta dos navios”, dá as respetivas informações relativas à tipificação e origem dos materiais.

A falta de instalações não é impedimento para o uso de uma roupa mais prática, é improvisado um vestiário por entre as montanhas de caixas de espólios que ali se encontram. Os trabalhos estão a decorrer no depósito que pertence à Câmara Municipal de Lisboa e está localizado no Bairro do Rego. Não é mais do que um parque de estacionamento: “As condições não são as ideais” para se realizar trabalhos desta natureza, afirma Gonçalo Lopes.

Aqui ficam depositadas todas as descobertas arqueológicas feitas na área do município. A equipa de investigadores e arqueólogos responsáveis por projetos e investigações ligadas à Arqueologia Subaquática é constituída por José Bettencourt (investigador responsável), Tiago Silva, Cristóvão Fonseca e Gonçalo Lopes. Pertencem ao Centro de História d’Aquém e d’Além Mar (CHAM), cuja sede está situada no Edifício ID da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Cristóvão Fonseca e Gonçalo Lopes começam por retirar os materiais, da primeira caixa, dos respetivos sacos com o objetivo de fazer um inventário. As etiquetas originais encontram-se degradadas devido ao contacto com a água. Todo o cuidado é necessário para que não ocorra perda da informação. Não havendo etiquetas de plástico, são improvisadas outras, as quais estão a ser numeradas por Gonçalo, enquanto José escreve em papel a informação de cada peça. “Têm que ir rapidamente para dentro de água”, informa José Bettencourt, referindo a urgência de se preservar os materiais, enquanto escreve as informações numa folha de papel. Os objetos vão desde fragmentos de ânforas, por vezes vidradas, a pratos de cerâmica e de loiça. É posta uma nova etiqueta em cada uma das peças e também são fotografadas, de um lado e de outro, para se adicionar ao arquivo fotográfico do CHAM.

Ao mesmo tempo, os alunos apoderam-se de uma outra caixa. “Já aprenderam a triar materiais?”, pergunta José Bettencourt. É retirada cada uma das peças, são passadas por água e organizadas consoante o género e origem. Está tudo a ser feito no próprio chão do depósito. A falta de condições torna-se evidente, não há sacos de plástico, as peças são armazenadas todas juntas. A caixa é lavada e identificada, as peças são colocadas de novo lá dentro e por fim enche-se com água. Cerâmicas italianas, alguidares verdes de Sevilha, cerâmica de Aveiro, uma possível peça asiática e até pesos de rede. É grande a variedade de objetos. “É a maior coleção de cerâmica italiana em Portugal”, afirma José Bettencourt, arrumando uma das várias caixas inventariadas.

Na dinâmica da equipa salta à vista a animação e a nostalgia que se vive. “Já tinha saudades disto”, afirma Cristóvão Fonseca. Os últimos registos feitos aos materiais datam de 2013, no entanto, com os novos inventários abrem-se novas possibilidades. “Alguém quer fazer uma tese sobre isto?”, pergunta José Bettencourt.

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