Os cientistas engenhosos nas Artes

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Na Caparica, a ciência não é o limite. Desde 2000 que um grupo de cientistas apaixonados pelas artes quebra as barreiras entre os dois mundos num projeto a que chamaram Artes e Engenhos.

“Eu apago-me polidamente enquanto falo com alguém, ao mesmo tempo que me mantenho altiva onde quer que esteja”, lança Jackie Kennedy ao público, com um sorriso consternado. Momentos depois, sucede-a em palco uma Bela Adormecida que não sabe quem é o homem que a beija ao acordar, mas que não se importa porque ele diz que é príncipe e até é capaz de ser. O importante é deixarem-se fotografar a fazer ski, e que as “queridas câmaras de televisão” estejam lá no dia em que se casarem.

Branca de Neve, Rosamunda e Diana de Gales são outras das figuras que também se encontram em “Dramas de Princesas. A Morte e a Donzela”. A peça de teatro é a mais recente produção da associação cultural Artes e Engenhos, sediada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. O texto dramático, da autora austríaca Elfriede Jelinek, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2004, explora os estereótipos dos “cânones da feminilidade” nas histórias de princesas do universo da fantasia ou da vida real.

Desde dezembro, quando se estreou no Espaço Alkantara, que o espetáculo tem circulado um pouco por todo o país, passando por cidades como Évora, Torres Vedras, Santarém e Almada. Mas o trabalho de dinamização começou a ser feito logo em junho do ano passado. “Envolveu a realização de três residências de criação”, conta Alexandre Pieroni Calado, encenador e ator na peça, “a realização de uma ação de formação na Latoaria e colóquios no Instituto Alemão e na Cinemateca Portuguesa”.

“Há esta preocupação de não mostrar uma coisa acabada logo e abrir o processo de criação ao público antes da estreia”, explica Luísa Sousa, uma das cofundadoras da Artes e Engenhos. No palco, teatro, música e vídeo cruzam-se num só. A componente audiovisual, para além de característica tanto do trabalho da autora do texto e do encenador Rogério de Carvalho, a quem os atores dedicaram a peça, marca a presença do traço distintivo desta associação cultural: o contacto entre as Artes e as Ciências e Tecnologias.

Do Laboratório para os Palcos

Alexandre Pieroni Calado sempre teve um grande interesse pelas artes performativas. Quando chegou a altura de escolher um curso de ensino superior, candidatou-se a várias escolas no estrangeiro, mas foi rejeitado. Como vinha da área das ciências no ensino secundário, acabou por escolher estudar Engenharia do Ambiente, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova. Foi lá que conheceu Luísa Sousa, que também já tinha um passado no mundo do teatro amador. Corria o ano de 1994.

“Nessa altura, formámos um grupo de teatro universitário na faculdade, que ainda hoje existe, para alguma alegria nossa”, diz Alexandre. O Novo Núcleo de Teatro foi o escape criativo dos jovens estudantes de ciências, durante cinco anos, até que chegou a altura de “passar o testemunho”. Mas não queriam ficar por ali. “Tínhamos necessidade de continuar a fazer qualquer coisa”, esclarece Luísa. Assim, alguns membros do grupo como Luísa, Alexandre, Sandra Hung, Filipa Santana e Frederico Figueiredo, entre outros, avançaram com a criação de um “spin-off” do Núcleo de Teatro, de acordo com Alexandre.

A Artes e Engenhos nasceu também muito pela vontade de desafiar a ideia de que as fronteiras entre a ciência e a cultura humanista são intransponíveis. Alexandre explica: “Sendo pessoas que tinham uma paixão pelas práticas artísticas, por um lado, e, por outro, uma vivência do contexto académico da ciência, sentíamos que havia uma necessidade de promover a criação de pontes entre essas duas aventuras de enfrentamento do caos”, uma área que era “relativamente virgem no país, na altura”.

A componente científica do trabalho da Artes e Engenhos está não só nas temáticas que aborda – temas tão diversos como: a História da Ciência, a aquisição da linguagem ao longo do desenvolvimento da espécie humana ou a imputabilidade jurídica por questões médicas –, mas também no próprio processo de conceção de cada projeto. “Fazemos um trabalho de criação orientado pela pesquisa e investigação”, expõe Alexandre. Isto significa que, na criação de um novo projeto, todos os procedimentos são equiparados aos de uma investigação científica.

Não só de espetáculos de teatro se faz a Arte e Engenhos. Desde a sua formação, no ano 2000, a associação tem dinamizado atividades como laboratórios de programação e fotografia, leituras encenadas, exposições de artes visuais, formação de públicos, colóquios e ciclos de tertúlias. Para tal, em muito contribui a equipa marcadamente transdisciplinar que colabora com a Artes e Engenhos. “Atualmente somos 12 associados”, informa Luísa. “Temos estes engenheiros tornados atores profissionais, temos professores da área da Físico-Química, pessoas que trabalham na área da realização e edição de vídeo, da programação, da arquitetura, do design, da fotografia, da contabilidade e estatística”.

Investigadora no Departamento de Ciências Sociais Aplicadas da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Luísa Sousa sublinha que esta é uma associação sem fins lucrativos. “O meu tipo de voluntariado é este, sou voluntária absoluta nisto”, admite. Para manter o seu trabalho ativo, a Artes e Engenhos conta com o apoio institucional da Faculdade de Ciências e Tecnologia, que lhes cede uma sala de produção, e submete os projetos a concursos para financiamento de entidades como a Direção Geral das Artes, a Câmara Municipal de Almada ou a Fundação Calouste Gulbenkian.

A colaboração e o apoio de outras companhias artísticas, como a Latoaria, Oficinas do Convento, Companhia Olga Roriz e Teatro O Bando, é também recorrente, assim como a parceria estabelecida com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O próximo projeto em incubação, uma “investigação em torno da figura do ponto de teatro”, vai resultar naquilo a que chamam “espetáculo de auto-teatro”. “Assenta numa relação direta do espetador entre meios audiovisuais e instruções”, clarificam.

A Ciência e a Arte no Ensino Superior

Do campus da Faculdade de Ciências e Tecnologia, a Artes e Engenhos estabelece um contacto direto com a realidade atual do ensino superior que, Alexandre sente, está a comprometer o crescimento dos estudantes, tanto nas artes como na ciência. “Cada um sabe cada vez mais, mas sobre cada vez menos”, argumenta, “a dimensão de formação integral que está no cerne da ideia de ensino universitário, a compreensão do lugar de cada um de nós no universo, fica de parte”. “Estás a reduzir a agência dos alunos”, avisa-o Luísa, “os alunos podem ser muito criativos na forma como gerem o seu percurso universitário”.

A equipa expressa a vontade de aumentar ainda mais a sua rede de colaborações e levar projetos a outras unidades orgânicas da Universidade Nova, onde a ciência e as artes se intercetam. “As relações entre Arte e Medicina, Arte e Direito, Arte e Ciências da Comunicação ou Arte e Economia são relações da maior atualidade”, constata Alexandre Pieroni Calado, “talvez infindáveis porque, a cada tempo, colocam novos desafios”.

Alexandre finaliza: “Talvez seja a hora de refletir sobre o que queremos colocar dentro da arca. E se a Arte é uma das dimensões mais específicas da aventura humana. Eu diria que a sua potência para enfrentar o nosso presente está francamente por esgotar.”

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Sobre o/a autor/a

Rita Mata-Seta é uma apaixonada do Jornalismo. Não consegue conceber melhor forma de existência que a de encontrar estórias, observar o mundo e partilhar com ele essa visão. Estuda Ciências da Comunicação na FCSH-NOVA. Tem por aspiração viver a escrever e acredita religiosamente que a Arte é a razão de estarmos vivos.

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