O sino mais antigo de Portugal voltou a tocar

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Está no museu de Coruche e é o sino mais antigo de Portugal. Investigadores da Universidade NOVA envolveram-se num projecto multidisciplinar para o trazer à vida.

As salas coloridas e interactivas do Museu de Coruche contrastam com a serenidade que se faz sentir na rua. É precisamente no centro de uma destas salas, em que o laranja é a cor que impera, que se encontra exposto o sino mais antigo de Portugal, encontrado há 15 anos naquela mesma vila. Apesar de ter sido reconstruído e conservado, o sino medieval permaneceu mudo até há bem pouco tempo. Graças aos esforços conjuntos de um grupo de investigadores da Universidade NOVA de Lisboa e da Universidade de Lisboa, podemos agora ouvir virtualmente o som que ressoava em Coruche no séc. XIII.

Datado de 1287 e descoberto ao acaso numa escavação arqueológica, o sino de Coruche é uma rara e tangível evidência da fundição sineira da época medieval, marcada por uma grande transição e evolução das características físicas e acústicas dos sinos. O sino da Igreja de São Pedro de Coruche recuperou, quase na totalidade, a sua forma original, mas o seu verdadeiro som julgava-se perdido. “O som original era impossível de ouvir. Havia partes em falta e os fragmentos foram colados. Tudo isso modificou as características vibratórias do sino e ao modificar a vibração, modifica-se o som”, esclarece Vincent Debut, investigador do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos de Música e Dança, e um dos cinco membros da equipa responsável pela reconstrução virtual do som deste sino.

Uma das motivações iniciais deste projecto que durou um ano foi perceber qual a afinação do sino de Coruche, fundido quatro séculos antes da arte da fundição sineira ter chegado à forma ideal que os sinos apresentam hoje em dia. “Se estivesse afinado no séc. XIII era fantástico relativamente ao conhecimento da época”, revela Vincent. Para explorar a acústica do sino foi necessário sintetizar virtualmente o seu som, combinando técnicas experimentais e numéricas da ciência dos materiais e da acústica musical.

Um projecto multi-disciplinar

Para reconstruir o som original do sino de Coruche da forma mais fiel possível, o primeiro passo foi identificar e analisar as suas propriedades materiais e mecânicas. Esta parte do trabalho foi da responsabilidade de dois investigadores do CENIMAT/I3N – Centro de investigação do Departamento de Ciências dos Materiais da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNL. “Nós [investigadores da FCSH]utilizámos dados sobre a constituição do sino, que seríamos incapazes de obter sozinhos. Essencialmente, desenvolvemos as nossas técnicas usando os dados deles sobre o bronze”, explica Vincent.

Feito o estudo detalhado do bronze – material que compõe, essencialmente, o sino de Coruche –, seguiu-se a parte mais complexa: “O mais difícil neste trabalho foi medir os fragmentos do sino. Perdemos muitos dias e noites nisso”, desabafa Vincent. Por se tratar de uma peça histórica e muito delicada, havia uma espécie de protocolo, estabelecido pelo Museu de Coruche, para mexer no sino. “Um dos problemas na medição do sino teve a ver com o facto de não podermos utilizar ferramentas que pudessem danificá-lo”, revela Miguel Carvalho, responsável pelo trabalho de medição, que, tal como Vincent, é investigador do INET-MD.

Para saber que técnicas aplicar no frágil sino de Coruche, parte do trabalho foi feito em colaboração com o Laboratório de Dinâmica Aplicada do Instituto Tecnológico e Nuclear, onde existe um exemplar de um sino, que foi utilizado para experimentar diferentes processos de medição. “Pode parecer fácil medir um sino, mas na verdade ninguém o sabe fazer. Houve muitos problemas, tentámos várias vezes até conseguirmos”, diz Vincent. “Há muito trabalho real que não se vê quando publicamos um artigo, mas está lá e é fundamental”, acrescenta. Os investigadores chegaram mesmo a passar noites sem dormir no Museu de Coruche, cuja equipa responsável colaborou activamente com o projecto: “Foram muito simpáticos connosco, facilmente tínhamos acesso ao sino e até nos deixavam sozinhos no museu”, reconhece Vincent.

O grande nível de exigência e de atenção prestada aos pormenores neste projecto justifica-se com a influência que os pequenos detalhes têm na qualidade do som produzido por um sino, tal como qualquer outro instrumento de percussão. “Conseguimos obter detalhes da forma e da geometria do sino de Coruche que ninguém até agora tinha conseguido e isso deve-se à minúcia do nosso trabalho”, adianta Miguel.

Terminadas todas as medições, os dados foram colocados num programa de computador, que gerou um modelo tridimensional do sino. A partir daí, foram feitos inúmeros cálculos para chegar àquele que seria o som original do Sino de Coruche.

Um dos factores que dificultou este processo foi o facto de o badalo do sino não ter sido encontrado, desconhecendo-se, portanto, as suas propriedades. Na ausência destes dados, e com o objectivo de reduzir as incertezas, a equipa teve que considerar nos seus cálculos diferentes hipóteses sobre a massa, o tamanho da cabeça e o material do badalo, bem como a altura a que este estaria no interior do sino. No final, “o trabalho de um ano resume-se a alguns sons de cinco segundos”, comenta Vincent.

Quanto à pergunta inicial que motivou os investigadores a dedicarem-se a este projecto, a resposta é clara: “Infelizmente, o Sino de Coruche não estava afinado considerando o modelo ideal que conhecemos hoje, mas enquadra-se muito bem nos padrões dos sinos da época”, conclui Vincent.

Feito um balanço de todo o trabalho, para os investigadores não restam dúvidas: “Hoje em dia fala-se muito em multidisciplinaridade. Este é um verdadeiro projecto multidisciplinar”, diz Vincent. Foi precisamente a junção de áreas que raramente se cruzam – a ciência dos materiais e a acústica musical –, que permitiu que a equipa chegasse a “dados concretos relativamente à evolução da fundação sineira em Portugal, do ponto de vista histórico, que de outra forma não era possível”, adianta Miguel.

Tudo isto se reflectiu na forma como a comunidade científica recebeu o trabalho dos cinco investigadores: “Sinceramente, nunca tinha recebido comentários tão bons como recebi com este artigo”, comenta Vincent. O projecto não foi apenas bem recebido pela comunidade académica, mas também pelo Museu de Coruche, que contribuiu activamente durante todo o processo e, no final, integrou na sua exposição a reconstrução dos possíveis sons originais do Sino de São Pedro. “O museu de Coruche é muito dinâmico e percebeu que o nosso projecto poderia trazer muito conhecimento útil e importante para a comunidade”, realça Vincent.

Questionados sobre planos para novos projectos, os investigadores garantem que a mesma equipa que trabalhou no sino de Coruche se vai juntar para trabalhar novamente com sinos. “Os sinos estão de volta”, afirma Vincent com entusiasmo.

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