Previsão da qualidade do ar online

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Um grupo de investigadores da Universidade NOVA é responsável pela manutenção do site do projeto que, diariamente, nos fornece previsões da qualidade do ar em Portugal – PrevQualar.

De manhã, o telefone do gabinete 230, do Edifício Departamental do Campus da Caparica, toca insistentemente. Apenas Joana Monjardino, uma investigadora do grupo da qualidade do ar, licenciada em Engenharia do Ambiente, se encontra no gabinete. Do outro lado do auscultador, está alguém muito indignado por não poder consultar as previsões da qualidade do ar: “Oh menina, isto assim não pode ser. Dizem lá que serão breves e isto já dura há meses. Para isso, mudem aquilo”.

Depois de lhe ser explicada a razão pela qual o site estava indisponível, o senhor, já de alguma idade, informa que ele e a irmã sofrem de uma doença pulmonar obstrutiva crónica. Ao que parece, costumava consultar regularmente o site porque sentia logo a diferença quando as previsões alertavam para níveis mais elevados de concentrações de poluentes.

“Descobrimos que tínhamos um fã”, brinca Joana. Foi curioso, pois dias antes deste inesperado telefonema, já se estava a trabalhar na atualização do site, suspenso por falta de verbas. “Por vezes, estamos um bocado afastados do mundo e não pensamos na importância da informação que podemos prestar a pessoas que estão do outro lado”, acrescenta.

Depois de atravessar períodos conturbados, o inovador projeto PrevQualar, criado, sustentado e fomentado pelo Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente (DCEA), da Faculdade de Ciências e Tecnologia, celebra dez anos de vida. O site do projecto, que nasceu em 2006, disponibiliza, diariamente, dados atualizados dos índices previstos da qualidade do ar, à escala nacional. Porém, como conta Francisco Ferreira, “foi no início de 2000 que tudo começou”. A entrada no século XXI presenteou Portugal com uma lufada de ar fresco ao reunir um conjunto de fatores favoráveis à emergência de uma iniciativa deste cariz.

Francisco, investigador e professor, já licenciado em Engenharia do Ambiente na FCT, com um mestrado estadunidense em qualidade do ar e doutorado em poluição do ar na faculdade em que se formou, decidiu ir com uns colegas a uma conferência nos EUA. Entre as várias apresentações às quais assistiu, a que o fascinou mais foi a do professor Joe Massey, colaborador da South Coast Air Quality Management District, uma agência de controlo da poluição do ar que cobre uma área dos EUA semelhante à Grande Lisboa.

Massey apresentava uma inovadora forma de monitorizar as concentrações dos poluentes do ar, distinta de um outro modelo matemático numérico-determinístico já comummente utilizado, inclusive em Portugal, pela Universidade de Aveiro. Ao contrário desse modo complexo de previsão, que envolvia muitos dados e fórmulas que não estão ao alcance de qualquer um operacionalizar, era sugerido um modelo estatístico ousado, “capaz de correr quase em qualquer computador”, sublinha Joana Monjardino.

Tratava-se de um sistema de previsão muito mais simples em termos de informação e procedimentos necessários, mas não menos rigoroso. Em poucas palavras, o que Massey descobriu foi que episódios de poluição atmosférica costumam estar associados a condições meteorológicas particulares e, desta forma, através de uma abordagem estatística, poder-se-iam efetuar previsões com base nestas duas variáveis primordiais.

Com o regresso de Francisco Ferreira a Portugal, aterrou também a sua intenção de replicar a ideia de Joe Massey em território nacional. Apesar de não existir formalmente o grupo da qualidade do ar na FCT, Francisco já havia desenvolvido alguns trabalhos com o grupo de investigadores agregados pela unidade departamental de Ciências e Engenharia do Ambiente. Portanto, logo à partida, o DCEA mostrou-se disposto a colaborar a 100 por cento.

Regulamentação europeia

A semente trazida do outro lado do Atlântico encontrou uma extraordinária fertilidade em solo comunitário, pois as crescentes preocupações da UE relativamente à qualidade do ar só catapultaram o PrevQualar. De facto, após uma fase de consciencialização dos efeitos extremamente nocivos da poluição atmosférica na saúde humana (doenças de pele,  respiratórias, cardiovasculares e reacções alérgicas) e no meio ambiente (degradação de ecossistemas), a primeira década do séc. XXI ficou marcada por uma grande aposta europeia num ar mais limpo.

Consequentemente, todos os estados-membros tiveram de incorporar as diretivas europeias no seu direito nacional, havendo procedimentos exigentes a definir, para garantir uma avaliação fidedigna e padronizada à escala europeia; critérios referentes à localização das estações de monitorização a respeitar e, por fim, populações a informar e aconselhar. Estabeleceram-se valores limite, margens de tolerância e limiares de alerta a fim de garantir que as concentrações dos poluentes atmosféricos cumpriam os objetivos comunitários da qualidade do ar.

O projeto PrevQualar dava os primeiros passos quando a FCT estabeleceu uma parceria com o Instituto da Meteorologia (atual Instituto Português do Mar e da Atmosfera – IPMA), que forneceria os dados meteorológicos, e com o Instituto do Ambiente (atual Agência Portuguesa do Ambiente – APA), entidade financiadora das bolsas dos investigadores envolvidos e responsável pela disponibilização de uma base de dados online das concentrações de poluentes – QualAr. Os dados reunidos pela APA são medidos, diariamente, nas estações de monitorização distribuídas pelas CCDR (Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional) do país – Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo, Algarve, Madeira e Açores.

Em 2004, com a colaboração do South Coast Air Quality Management District e apoio do IPMA, da APA e das CCDR, iniciou-se uma fase de experimentação em que se procurou testar a validade dos modelos estatísticos. Caminhava-se, progressivamente, para a racionalização e otimização da rede nacional de monitorização da qualidade do ar (RMQAr). Desde modo, com estações de monitorização mais numerosas e representativas em cada região, dois anos mais tarde, construiu-se o site e emergiu oficialmente o PrevQualar. Desta forma, constitui-se como uma ferramenta fundamental para o adequado controlo e prevenção dos problemas associados à poluição atmosférica, permitindo a implementação de políticas e medidas de prevenção/minimização dos danos causados.

As previsões estatísticas efetuadas pelo PrevQualar, embora considerem principalmente as condições meteorológicas (temperatura, humidade, vento…) e as concentrações de poluentes dos dias anteriores, ainda têm em conta factores como, por exemplo, a estação de monitorização em causa, dados de estabilidade da atmosfera, condições de dispersão ou a indicação se se trata de um dia útil ou fim-de-semana, visto que os níveis tendem a ser mais elevados durante a semana.

Desde 2009, a investigadora Luísa Mendes, licenciada em Ciências Geofísicas – Meteorologia/Oceanografia e pós-graduada em Ciências Geofísicas, é a responsável pelos modelos de previsão, contando com o auxílio dos restantes membros do grupo, sempre que necessário. Apesar do crescente automatismo dos procedimentos, ainda ocorre uma intervenção “manual” no que diz respeito à verificação dos dados não validados, que saem diretamente das estações. Na verdade, é diariamente confirmado se irá ocorrer algum fenómeno atmosférico extraordinário, ao averiguar-se se existe algum valor estranho isolado (por vezes, causado por erros do próprio equipamento).

As substâncias químicas lançadas na atmosfera podem ter um maior ou menor impacte na qualidade do ar. “No dia a dia, e dependendo da época do ano e de outras circunstâncias, há vários poluentes que vão sendo protagonistas”, comenta Francisco. Através de numa análise histórica, concluiu-se que os poluentes mais perigosos para a saúde humana e que costumam apresentar concentrações mais elevadas (“Médio”, “Fraco” ou “Mau”) são o Ozono (O3) e as partículas em suspensão/inaláveis com diâmetro aerodinâmico inferior a 10 µm (PM10). Enquanto que as maiores concentrações de ozono tendem a registar-se na Primavera e no Verão, devido à maior intensidade de radiação solar e calor, favoráveis para a sua formação, os níveis elevados de partículas em suspensão podem verificar-se a qualquer altura do ano, dado que a sua origem é mais difusa.

As fontes poluentes podem ser antropogénicas (da responsabilidade do ser humano) ou naturais e, ainda que as primeiras sejam as mais nocivas e as principais responsáveis pela poluição atmosférica, de vez em quando, ocorrem fenómenos naturais que podem fazer disparar o alarme, como foi o caso do registado no dia 22 de fevereiro deste ano. Desde a fundação do PrevQualar, a equipa nunca testemunhara nada assim – valores quatro vezes acima dos níveis normais. Tal ocorrência foi provocada pelo vento do sul, que arrastou uma nuvem de poeira do norte de África para o sul da Europa, afetando particularmente a Península Ibérica.

 

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Sobre o/a autor/a

Todos os dias são novas páginas da vida, prontas a serem escritas e permanentemente reescritas pela recordação e imaginação. A curiosidade e o sorriso são uma constante e a paixão pela natureza algo inato. Na busca de um amanhã mais sustentável, apresento-me como aspirante a jornalista ambiental que ambiciona dar voz e visibilidade a causas.

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