A bordo da Caravela Vera Cruz

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Construída em 2000, no âmbito da comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil, a Caravela Vera Cruz conta já com mais de 200.000 visitantes, estando aberta ao público desde novembro de 2014.

O relógio marca as 14h30, momento em que o sol de Inverno se ergue bem alto no céu lisboeta, quando um grupo de 39 alunas chega a Alcântara para visitar a Caravela Vera Cruz. A doca é invadida por um desfile de expressões animadas e juvenis, ansiosas por visitar aquela que é a réplica fiel de uma caravela quinhentista portuguesa. Propriedade da Aporvela – Associação Portuguesa de Treino de Vela –, a Vera Cruz fornece diversas experiências no mar, tais como treinos de vela e a oportunidade de participar em provas e outros eventos náuticos.

Para além de se encontrar em perfeitas condições de navegação, a Caravela recebe com frequência a visita de grupos escolares, sendo o seu público-alvo constituído por jovens estudantes entre o primeiro ciclo e o ensino secundário. O Instituto de História Contemporânea (IHC), centro de investigação da FCSH/NOVA, é o responsável pelo programa educativo e cultural e pela dinamização das atividades da Caravela. O objetivo deste projeto é dar a conhecer um pouco mais da aventura marítima portuguesa, mostrando de que forma se navegava há 500 anos e como a vida a bordo era tão díspar, comparativamente aos dias de hoje.

Durante aproximadamente uma hora e meia, a monitora Susana Domingues guia o grupo do primeiro ciclo desde a proa até à popa, dando a conhecer não só as aventuras da expansão marítima portuguesa como também a história contemporânea nacional. O primeiro local visitado é a casa do leme, onde a ondulação se faz sentir de forma mais intensa, factor que parece entusiasmar as visitantes. Aí, a monitora inicia a narração das aventuras dos marinheiros dos séculos XV e XVI, que só foram possíveis graças ao avanço exponencial de instrumentos e técnicas de navegação.

No quadro destas inovações destaca-se o bolinar, isto é, a capacidade de navegar em ziguezague contra o vento, o que permitiu passar em zonas onde o vento não era favorável. Mas o que permite navegar à bolina? Susana informa que são as velas da caravela e a sua forma geométrica específica – triangular – que permitem bolinar. Este foi um segredo bem guardado em confraria, durante a expansão portuguesa.

“Tal como sabemos”, avança Susana, “foi este avanço técnico que possibilitou a aventura no mar e aquele que foi o período mais áureo da História nacional – os Descobrimentos”. A monitora relata algumas das muitas aventuras dos marinheiros portugueses, desde a passagem pelo Cabo Bojador até à chegada à Índia. As alunas seguem o percurso que Susana descreve através de um globo terrestre, demonstrando conhecimento e respondendo acertadamente às questões que lhes são colocadas. Esta complementaridade entre a educação formal dada nas escolas e a educação não-formal proporcionada pelos monitores da Caravela foi um dos principais objetivos estipulados pelo IHC. “Pretende-se conjugar o melhor de dois mundos”, explica Susana, “através deste cruzar de leituras torna-se mais fácil compreender a relação entre o passado e o presente assim como entre a física, a química, a biologia e a matemática”.

Para além da temática das viagens, outra questão muito aprofundada na visita é o dia-a-dia da tripulação. Afinal, o que se comia a bordo da caravela, há 500 anos? “Peixe cru”, aposta uma das meninas. “Sopa”, diz outra, provocando o riso das colegas. Para esclarecer as visitantes, Susana retira vários alimentos de um baú, entre os quais peixe cru e carne seca, que integravam a rotina alimentar dos marinheiros portugueses. A monitora apresenta também outras especiarias que marcaram a passagem pelos vários continentes – cacau, canela, espiga de milho, açafrão, baunilha e anises estrelado. As alunas têm a oportunidade de cheirar e tocar nos alimentos, demonstrando especial interesse pelo cacau, considerada a “bebida dos deuses” pelos Incas. Também a canela desperta curiosidade. Uma das estudantes é desafiada a experimentar a especiaria de nariz tapado, comprovando que não consegue identificá-la sem o sentido do olfato. Segundo a monitora, a canela não tem qualquer sabor e só conseguimos reconhecê-la através do seu cheiro. É por isso conhecida como “a especiaria mentirosa”.

A visita prossegue e o grupo é agora encaminhado para a proa da caravela. No convés encontramos uma ampulheta, um astrolábio náutico, um quadrante e uma bússola magnética. As alunas dividem-se em grupos mais pequenos para, à vez, puderem observar o funcionamento do astrolábio que necessita da luz solar para determinar a latitude. A monitora salienta também a importância da ampulheta e conta que se algum marinheiro interferisse com os seus cálculos era atirado ao mar.

Instrumentos

“Mas essa não era a única coisa a ir borda fora”, sugere Susana para de seguida exibir o balde de serviço, utilizado pelos marinheiros para fazer as suas necessidades. O grupo irrompe imediatamente em questões: “Todos utilizavam o mesmo balde? Onde é que se limpavam? E como lavavam o balde?”. A estas perguntas juntam-se inúmeros dedos no ar à espera de atenção. “Calma”, pede Susana e apressa-se a mostrar o pincel, instrumento utilizado pelos marinheiros para efetivamente se limparem. “Então e como lavavam o pincel?”, pergunta outra aluna preocupada. “Tal como lavavam o balde”, esclarece a monitora, “no mar”. O pincel era também utilizado para salvar quem caísse à água, daí a famosa expressão: «Agarra-te ao pincel». “Que horror”, sussurra uma menina ao ouvido da amiga. E assim se encerra o delicado assunto.

De facto, os cuidados de higiene a bordo das caravelas no século XV e XVI em nada se comparam aos dos nossos dias. Os banhos eram tomados no mar e a única roupa que os marinheiros possuíam era, normalmente, aquela que traziam no corpo no dia do embarque. Atualmente, a Vera Cruz possui casa de banho, várias camas e uma cozinha totalmente equipada de forma a garantir uma estadia confortável e sem privações. A Caravela continua a realizar viagens, tanto dentro como fora do país, e tem capacidade para 23 marinheiros.

Apesar do entusiasmo que o debate anterior provocou, a questão que mais sensibilizou as jovens prende-se com o papel da mulher. Estas estavam expressamente proibidas de entrar nas caravelas, pois dizia-se que traziam azar às viagens. “Isso é desigualdade social”, comenta de forma perspicaz uma menina. Pensa-se que este mito começou por ser um mero boato, inventado por alguém com o intuito de evitar o maltrato das mulheres a bordo. De facto, não é difícil imaginar a reação que os homens teriam à presença de uma mulher, depois de meses a fio fechados numa caravela em pleno mar. Por serem extremamente supersticiosos, os marinheiros passaram a encarar o boato como regra e seguiram-na à risca. Ainda assim, muitas mulheres tinham o gosto pela navegação e faziam-se passar por homens para conseguir embarcar e realizar o seu sonho.

Após esta explicação, as alunas têm a oportunidade de passear livremente pela proa, sendo depois encaminhadas para a parte superior da caravela – o castelo. Aí, o vento faz-se sentir de forma mais intensa e podemos contemplar a serenidade do rio Tejo, que nos rodeia, assim como a familiar ponte 25 de Abril que nos saúda a poucos metros de distância. É com esta paisagem como fundo que Susana informa que a visita terminou. “O quê?! Já?”, perguntam descontentes algumas estudantes. Em privado, a monitora confessa que são estas as reações que a fazem sentir profissionalmente realizada. “O tempo passa rápido para os jovens, o que é extremamente positivo pois significa que se divertem”, comenta.

As 39 visitantes encaminham-se para a saída, descendo uma de cada vez as oscilantes escadas que conduzem à doca. A monitora despede-se do grupo e das professoras que as acompanham, recebendo feedback muito positivo relativamente à visita. “O feedback dos professores é o mais valorizado”, explica, “são eles os responsáveis por trazer os estudantes e é importante que se sintam satisfeitos com o nosso trabalho”. O pôr-do-sol aproxima-se e a Caravela Vera Cruz permanece à nossa frente, ondulando calmamente nas margens do rio ao mesmo tempo que as jovens desaparecem no horizonte, sem nunca perder o sorriso com que chegaram.

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Sobre o/a autor/a

Inês Rocha é estudante do 2º ano do curso de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL. O seu sonho é ser jornalista na área da investigação. Desde tenra idade que desenvolveu um interesse especial pela música, em particular por dois instrumentos que a fascinam: violino e piano. Adora viajar e conhecer diferentes culturas pelo que, no futuro, gostaria de conciliar esta paixão com a sua vida profissional.

3 comentários

  1. Paula Pereira on

    Muitos parabéns, Inês. O texto está muitíssimo bem escrito. Continua assim que os teus sonhos serão certamente concretizados!

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