Um ensaio geral à velocidade de “Galgo”

0

Passam uns minutos das 19h00 e a band box 06 dos Nirvana Studios prepara-se para receber o último ensaio dos Galgo, um dia antes do início das gravações do primeiro disco. O quarteto é constituído por Alexandre Sousa, João Figueiras, Miguel Figueiredo e Joana Batista. Natural de Oeiras, onde venceu o Oeiras Band Sessions’15, a banda já passou por inúmeros palcos. Entre eles, destaca-se o do NOS Alive!, o do Reverence Festival Valada, o do Sziget Festival e o do NOVA Música.

O espaço não tem mais de trinta metros quadrados e a luz quente que provém de um candeeiro de chão torna-o acolhedor. Desde instrumentos musicais, a uma ventoinha branca em cima de uma mesa, vários são os objetos que preenchem a box.

Enquanto esperam pelos restantes membros da banda, Joana senta-se atrás da bateria Pearl montada num dos cantos do estúdio, e Miguel vai tocando guitarra. Quando João, “Figueiras” para os amigos, e Alex chegam, apenas têm tempo para montar os instrumentos em falta e começar, finalmente, a galgar.

Na parede, está afixada uma placa com o título “10 mandamentos”. Após o ensaio da primeira música, é percetível que o número 4, “Não tocarás com o volume no máximo”, se revela difícil de cumprir. “É o que eu faço, sou o barulhento dos Galgo”, confessa Alex.

Segue-se uma pausa, destinada a alguns “ajustes”. Cada membro da banda opina acerca do que acabaram de fazer. “Epá, esta parte…não ‘tou a sentir. Eu e ela entramos com alguma jarda, vocês puxam para baixo”, comenta João. “É treinar”, responde Miguel, o “gajo perfeccionista” e que não deixa Joana comer pizza, como a própria o define.

O quarteto não consegue esconder o nervosismo, que é uma constante ao longo do ensaio. A banda parece não chegar a um acordo relativamente à música que acabaram de ensaiar, “Hoje que é o dia antes da gravação é que vamos ficar aqui três horas a fazer isto?”, pergunta a baterista. Após uma discussão recheada de opiniões discordantes, começam a aparecer resultados positivos.

Joana exemplifica o som que procura ouvir, “’Dum, da tum da tum, da tum da tum’…tens de fazer um ritmo assim”, dirigindo-se a Miguel, que veste uma camisola de inverno cinzenta, umas calças escuras e traz o cabelo apanhado. Os Galgo voltam então a dar música à band box 06 e os entreolhares sorridentes que se seguem após a “parte problemática” da música denunciam que o obstáculo foi superado. “Eu acho que ‘tá muita bom”, remata Figueiras, “o calminho”.

Assistir a um ensaio dos Galgo é perceber que o profissionalismo se alia à amizade de forma harmoniosa e produtiva. É testemunhar críticas construtivas entre cada música, entre cada nota fora do sítio, “tentem lá fazer o que eu e ele [Figueiras] estamos a fazer”, ouve-se Joana dizer a certa altura.

Apesar de tudo, não é preciso estar presente num ensaio para se ser capaz de caracterizar fielmente a banda. “O ritmo é de alta velocidade com a música dos Galgo, uma banda recente que mostra grande maturidade, mesmo sem ter editado ainda um primeiro disco. No entanto, o grupo de Oeiras já demonstrou o seu talento ao ponto de ter sido convidado para representar Portugal no prestigiado festival Sziget em Budapeste”, pode ler-se na antevisão do NOVA Música, escrita por Simão Chambel no jornal da associação de estudantes da FCSH/NOVA, o Nova em folha. No dia 18 se Setembro de 2015, os Galgo viriam a atuar, de
facto, no campus de Campolide, onde Miguel estuda, como prémio por terem vencido o I Concurso de Bandas NOVA Música. Pisar aquele palco “foi muito porreiro, estava lá muita gente. Ao início parece um mini Paredes de Coura”, conta o guitarrista.

Em Outubro de 2015, lançaram EP5, composto por quatro músicas nas quais escasseia voz mas não groove. “Trauma de Lagartixa”, uma das composições incluídas nesta Extended Play, não é mais que “a cauda ser cortada…um trauma de uma coisa que depois pode voltar a nascer”, afirma Miguel, apesar de referir que os títulos das músicas devem ser interpretados por cada um, não havendo um significado fixo.

Esta gravação foi lançada em cassete, uma opção, no mínimo, surpreendente. Porém, a explicação do guitarrista revela-se esclarecedora: “Foi o primeiro lançamento que fizemos e não foi tanto pelo formato que era, mas por ser um objeto físico, mais memorabily. Ter um objeto que lembrasse Galgo e não tanto que reproduzisse o som”. “Marcar pela diferença” parece ser uma das aptidões por detrás do nome Galgo.

Os Galgo já pisaram palcos como o do NOS Alive!, o do Reverence Festival Valada, o do Sziget Festival e o do NOVA Música. Recentemente, atuaram no Sabotage, o famoso clube lisboeta.

O grupo não é conhecido pelas letras. Não por serem más, mas por serem escassas. Porém, há uma justificação simples: “O resto dos instrumentos e da música não pede por isso…a voz é um instrumento e muitas vezes a música não a pede, por isso substituímos essa voz por um outro instrumento”, explica Alex, que ocasionalmente usa o seu talento vocal para dar voz a este Galgo pouco tagarela.

Nascida de uma amizade, a banda não perde uma oportunidade para demonstrar o quão unida é. Aliás, se os Galgo fossem definidos numa única frase, essa seria algo como “Os Galgo são muita coisa boa e muita coisa má, mas acima de tudo amigos”, afirma Alex, “um moço com muita paixão e feeling e que curte bué stressar”, segundo Figueiras.

Miguel e Alex são amigos desde o quinto ano. Na secundária, em Miraflores, conheceram Joana e João. A baterista e Miguel iniciaram o projeto com muito pouca experiência musical, “Ela tinha aprendido a tocar bateria, e eu guitarra, há muito pouco tempo”, lembra o artista.

Começaram por ser os “The Straw, a palhinha”, conta Miguel, começando a rir de imediato, “acho que nessa altura ainda não estava o Figueiras, o baixista”. Já com o quarto elemento no grupo, foram os Fool the Racoon. Entretanto, Joana saiu da banda, entrou outro baterista e depois Joana voltou a entrar. Após algum tempo de indecisão relativamente ao nome da banda, surgiu “Galgo”, cuja inspiração foi um cão de peluche cor-de-rosa pertencente a Alex.

Apesar de recente, o grupo tem vindo a ganhar relevo no panorama da música portuguesa. Um concerto dos Galgo é cada vez mais sinónimo de “casa cheia” e o número de fãs cresce de dia para dia. Contudo, a banda ainda não está familiarizada com o reconhecimento do público, notando-se um certo constrangimento nos risos tímidos dos membros do grupo cada vez que soa a palavra “fã”. Um mix de “estranheza” e “surpresa” transparece na expressão de Joana, “um fã?”, reage em voz baixa, enquanto troca olhares admirados com Miguel.

Com muitos ou poucos fãs, a verdade é que o dia seguinte será marcado pelo início da gravação do primeiro disco dos Galgo. Para aqueles que se estão a lançar, a banda deixa um conselho: “Concorram a concursos, sejam proativos”. E o barulho volta à box 06, neste ensaio cujo término não tem hora marcada. Fora dos Nirvana Studios, a noite está cerrada e o silêncio absoluto irrompe como um choque. Aqui, o mandamento número 4 é seguido à risca.

 

Partilhe.

Sobre o/a autor/a

Estudante de Ciências da Comunicação. Aspirante a jornalista. Viciada em escrever e cozinhar. Fotógrafa amadora de tudo e mais alguma coisa.

Envie uma resposta

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.