A magia da música de colo

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Todas as manhãs de sábado, bebés, crianças e pais vêm até à FCSH/NOVA para ouvir música.

Por volta das 10h45, começam a aparecer os primeiros bebés acompanhados pelos seus pais. Ouvem-se queixumes, amuos, mas também risos de excitação nos corredores do quarto piso do edifício ID, da FCSH/NOVA. Os pais são avisados que podem entrar na sala. Junto à porta, do lado de fora, ficam os sapatos.

Na sala encontram-se diversos instrumentos de percussão. Desde tambores, xilofones, até ao raríssimo tibé peruano. Mas este projeto é mais do que dar música aos mais pequenos. Surgiu em 2010, por iniciativa de Helena Rodrigues, professora auxiliar da FCSH/NOVA e coordenadora do grupo de educação e desenvolvimento humano do CESEM, e “tem propósitos pedagógicos, de formação, de intervenção social e de investigação”, informa António Rodrigues, um dos formadores das sessões Música de Colo.

“A sala tem câmaras, microfones e filma-se para se investigar”, acrescenta Fernanda Lopes, a outra formadora. Os alunos de licenciatura de Ciências Musicais “vêm assistir e participam no projeto, para aprenderem alguma coisa prática antes de saírem do curso”.

Os pais sentam-se no centro da sala com os filhos ao colo, num círculo de almofadas coloridas. Sorridentes, as crianças são recebidas com uma canção de boas vindas. Fernanda e António cantam “Olá bebé! Olá bebé!”, e vão dizendo “olá” a cada um dos meninos sempre a cantar. No final dão um “olá” às mamãs e aos papás.

musicadecolo

Segundo Fernanda Lopes, as sessões são planeadas todas as semanas. “Não temos aulas a avulso, é todo o ano.” Mas há alguns aspetos a ter em conta, como “a experiência, a idade musical da criança, o seu desenvolvimento motor, psicológico e emocional”, explica António. Os formadores informam que as sessões têm uma estrutura fixa – “há coisas que repetem, como algumas músicas” –, contudo existe também “flexibilidade capaz de poder incorporar o imprevisto”. Reagem aos estímulos das crianças e vão adaptando o seu programa.

Começam a cantar-se cantigas sem língua. Não são palavras do dicionário, são um dialeto infantil cantável. Fazem parte da sessão ainda outras atividades como “entoação de padrões tonais e rítmicos, exploração de situações de interação espontânea, movimento e danças”, refere António.

António traz a “Saquinha das surpresas”, boa nova que também é cantada e que os bebés recebem com deslumbramento. Lá dentro está um passarinho de Sintra, cujo som faz com que todos os olhos se arregalem como se perguntassem se realmente está ali um pássaro entre as mãos de António. Mas a maior das surpresas são os inúmeros lenços coloridos que esvoaçam para fora do saco. As crianças sopram, atiram e escondem-se neles.

Surge uma enorme lua, que é quem como quem diz uma bola de ginástica tapada com um manto azul, onde os bebés se deitam e baloiçam com a ajuda dos adultos. Canta-se a canção da lua acompanhada pelo xilofone: “Lua, lua, vais no céu, entre as estrelas como um barco a navegar, vais para oeste, linda lua, vais para oeste e eu vou-me deitar”. São sopradas, ao mesmo tempo, bolhas de sabão que as crianças tentam rebentar ou guiar com o sopro.

Depois da serenidade, fazem todos uma roda, dão as mãos e cantam, dão voltinhas sobre si, mudam a direção da roda e dançam, dançam, dançam. José António, pai de Maria, revela que a Música de Colo é importante “pela parte da socialização”. A sua filha “está em casa e aproveita para vir conviver”, para além de desenvolver “esta parte do ritmo e de perceber a beleza da música”.

Quase a chegar ao fim, estica-se um tapete muito grande, cheio de cores, parecido com o arco-íris, mas que se apelida de borboleta. Os bebés deitam-se sobre os pais e fazem-se aviões, brincadeiras, ouvem-se gargalhadas genuínas e vêem-se sorrisos rasgados na face dos pais enquanto se canta.

Estreitar laços através da música

O formador António diz que a Música de Colo pretende “estreitar laços”, “estabelecer pontes nas relações entre os elementos que integram as sessões”, e é o que na verdade os pais sentem que acontece. Carolina e Pedro, pais de Frederico, dizem que “são dinâmicas” que os aproximam e que “em casa também promovem essa intimidade”.

António e Fernanda começam a cantar que a festa chegou ao fim e a despedirem-se dos meninos com muita música. Mas o Frederico, que irá participar na sessão seguinte para crianças dos 2 até 5 anos, não perde tempo e já está à espera na porta para entrar. Carolina e Pedro, pais de Frederico, dizem que ele fica “muito entusiasmado” e que, depois, “em casa faz treinos com tupperwares e os ritmos todos”.

O segundo grupo, composto por crianças que têm entre 2 a 5 anos, entra à hora marcada. Sem atrasos, a Música de Colo recomeça sem pausas para Fernanda e António. Mas nesta sessão notam-se algumas diferenças que “resultam da necessidade de uma orientação musical focada nas competências das crianças”, refere António.

Os lenços coloridos voltam, assim como o tapete colorido da Borboleta. E a “Saquinha das surpresas” traz uma novidade – patos! De peluche! Todos os meninos clamam com alegria. Fazem-se jogos a imitar os patos e vão-se buscar tubos musicais que imitam os sons das notas musicais para fazerem de remos de um barco.

BRINCAR

Na terceira sessão, para crianças entre os 5 e os 7 anos, são apenas quatro crianças. O Frederico, o Manuel e as irmãs Madalena e Inês. O Manuel fica triste sempre que falha um ritmo ou música, mas é o mais atento, sabe o nome das músicas quase todas. As irmãs são as melhores amigas e partilham o mesmo passarinho de Sintra. O Frederico é o melhor cantor, pede para lhe ensinarem a cantar o Dó como deve ser. Enquanto o próprio pai não consegue cantar o Mi.

A Música de Colo é inspirada na teoria de aprendizagem musical de Edwin Gordon, que tem “diferentes níveis de complexidade” e é um “processo assente no modo como as crianças aprendem música”, informa António Rodrigues. Esta terceira sessão é mais complexa e as crianças fazem coisas que às vezes até os crescidos não conseguem: imitam ritmos, tocam tambores, exercitam a capacidade de memorização e de criatividade.

Há um sentimento de dever que é cumprido semanalmente. António e Fernanda são “significativos no crescimento de alguém”, reconhecimento expresso na “frequência e entrega dos pais e bebés ao longo das sessões”. Mónica, mãe de António, acha que são “momentos únicos”, que “é tudo muito lúdico”, que são “momentos mágicos”. Tem a impressão que “são aquelas coisas que vão ficar na memória dele”. E que isso “não se encontra em muitas atividades”. No fundo estas aulas desenvolvem “a musicalidade, o ritmo” e são “sempre um momento de alegria”, acrescentam os pais de Frederico.

Desde os 0 anos até aos 7 de idade, as crianças inscritas na Música de Colo festejam a música e tudo o que a envolve, por 45 euros mensais. A música é importante na primeira infância, porque é “biológica, nasce no corpo, cresce nas relações com os outros, tornando-nos um pouco mais humanos”, conta o formador. A música é um “património humano gratificante ao qual a criança deve ter acesso e com o qual deve crescer e desenvolver-se de uma forma harmoniosa”.

Ao final de todas as sessões, crianças, pais e formadores cantam: “Agora sim, a nossa festa chegou ao fim”. Para o sábado que vem, há mais.

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