Desporto para além dos portões da faculdade

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Os nervos estão à flor da pele. Hoje é dia de jogo e a equipa de futebol da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (AEFCSH) tem um duro teste pela frente. Os holofotes do relvado sete da Cidade Universitária iluminam aquele que será o palco da disputa por uma vaga na primeira divisão do Campeonato Universitário de Lisboa (CUL).

Lá fora, as temperaturas rondam os 7°C, mas Steve Grácio não treme no discurso. O agora treinador pressente o frenesim de emoções que os seus jogadores estão a viver. Licenciado em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Steve também já vestiu a camisola de jogador da AEFCSH. Neste momento, como treinador, tenho muito mais responsabilidade do que tinha como jogador. Tenho de ser o mais profissional possível, tenho de ser o exemplo para a equipa. Eles têm de beber as minhas ideias, a minha energia e a minha vontade”, afirma.

Este é o seu primeiro desafio como técnico de uma equipa. Na palestra pré jogo, bafeja preleções de ambição, afinco e paixão. Os rapazes das ciências sociais e humanas vislumbram com entusiasmo a mensagem do treinador. Aos 23 anos, Steve Grácio vê agora realizado um sonho que alimentava desde os tempos de criança. “Desde miúdo que sempre quis ser treinador, mesmo quando jogava. Sempre me interessei imenso pela estratégia do jogo e tentei sempre ser o braço direito que os treinadores precisam, pelo que fui quase sempre capitão ou um dos capitães das minhas equipas.”

O momento do confronto entre a AEFCSH e a Associação de Estudantes da Faculdade de Arquitetura (AEFArquitetura) aproxima-se. Interiorizadas as instruções de jogo é altura de apertar os atacadores e caminhar até ao relvado. As bancadas encontram-se despidas. Pedro Félix, que assume dupla função, de treinador adjunto e jogador, enumera várias razões para o sucedido. São múltiplos os motivos. A deslocação, falta de publicidade das modalidades, o horário dos jogos, o amadorismo e qualidade que algumas equipas demonstram são tudo fatores que não atraem adeptos à cidade universitária.”

Para o recém-licenciado em Antropologia, a solução para a escassez de seguidores passa pela implementação de condições idênticas às utilizadas nos Estados Unidos da América. “O desporto universitário, à semelhança dos EUA podia ser um motivo para combater o abandono escolar, com a criação de equipas da faculdade e não da AE, com apoios da faculdade na isenção de propinas para os atletas e outras condições especiais”, refere. Uma ambição partilhada por Hugo Silva, presidente da AEFCSH e da Associação Desportiva do Ensino Superior de Lisboa (ADESL). Tem que se trabalhar para que mais estudantes possam praticar desporto e se acabe com a discrepância da participação em atividade desportiva entre o ensino secundário e o superior. É também isso que me motiva na ADESL. Tentar mudar o pensamento das pessoas, desde os estudantes aos órgãos máximos de decisão do nosso país.”

São oito anos de histórias para contar. Derrotas, vitórias, muito suor e subidas de divisão. O espírito de grupo e amizade ganha forma nos abraços, brincadeiras e gargalhadas entre companheiros de equipa. “As amizades feitas aqui provavelmente não as teria feito num ambiente de faculdade normal”, testemunha Dinis Sabalo, o camisola 4 da equipa, enquanto se prepara para o jogo. O aquecimento conta com o olhar atento de um velho conhecido. Tiago da Fonseca fez parte do plantel da AEFCSH como jogador entre 2005 e 2011 enquanto frequentou a licenciatura em História e o mestrado em Práticas Culturais. “Éramos um grupo unido e sinto falta dos treinos e dos jogos. De trabalharmos em equipa para atingir os nossos objetivos”, recorda. Em 2011 assumiu funções de treinador e só no ano passado decidiu abandonar o cargo. “Senti que a equipa precisava de uma nova abordagem. Tínhamos falhado por pouco o acesso ao play off de subida e foi nessa altura que tomei a minha decisão. Houve também motivos profissionais por detrás, mas acima de tudo foi o sentir que o meu ciclo tinha chegado ao fim.”

 Apesar de a maior parte dos atletas já não praticarem desporto federado a vontade de vencer transcende gerações e continua bem presente. Fico satisfeito sempre que se nota entusiasmo, empenho e dedicação. Ainda espero que esta época consigamos alcançar a nossa maior ambição. A subida de divisão”, admite Hugo Silva.

Hora de despir o traje e suar a camisola

O círculo está formado junto ao banco de suplentes. De braços dados, os jogadores ouvem as últimas instruções. “Ganhar, ganhar, ganhar”, o grito da turma orientada por Steve Grácio ecoa pelo sintético sete da cidade universitária. Para o jovem treinador, este será um jogo de nervos. “Vivo muito mais de fora, até porque agora tenho objetivos pessoais a cumprir. Estou a encarar isto, também, como aprendizagem e para ver se poderei ter outras ambições ou não. Estou a levar esta aventura o mais profissional possível, não só pela Associação e pelos meus jogadores, mas também por mim, para me testar e ver se isto faz sentido ou não”, sublinha. Manter uma equipa motivada não é trabalho fácil. “Tento ser o exemplo a seguir, e tenho de medir sempre tudo o que digo e faço porque pode ter consequências na equipa”, explica o atual treinador da AEFCSH.

O tão aguardado momento chega. O árbitro apita para o início do jogo e ambas as equipas entram na partida com ânsia de vitória. Depois de vários lances disputados, bolas nos ferros das balizas e muitos quilómetros percorridos, a equipa da Associação de Estudantes da Faculdade de Arquitetura leva a melhor sobre os pupilos comandados por Steve. No rosto dos jogadores rutila o sentimento de frustração.

ECTS, suor, golos e diplomas

Apesar da sorte não ter sorrido à equipa da AEFCSH, Carlos Felício, Coordenador de Desporto da Associação de Estudantes da FCSH e também jogador da equipa de futebol 11, relembra o principal objetivo do desporto universitário. “No meu caso específico tem uma grande contribuição pois assim consigo estar melhor fisicamente o que me ajuda a estar bem psicologicamente e é provável que isto aconteça com quase todos os praticantes. O combate ao sedentarismo e a fuga às rotinas são então o melhor contributo que o desporto universitário pode ter na vida de um jovem estudante” A luta contra o comportamento quotidiano de grande parte dos alunos não está só presente no discurso do capitão de equipa. Os estudantes universitários “vivem em grande euforia e stress face à pressão que é frequentar o ensino superior”. Quem o afirma é Hugo Silva, salientando a importância do exercício físico para o bem-estar dos alunos. O desporto acaba por ser importante para que possam relaxar e abstrairem-se dessa realidade. Para além da vertente ligada à atividade física, o desporto acaba por ser muito importante na própria integração e trabalho de equipa, no contacto com outros colegas, no respeito pelo próximo.”

Réstia de esperança

A fase regular da segunda divisão do CUL caracteriza-se pela existência de dois grupos, ambos compostos por oito equipas. Só as quatro melhores formações de cada grupo têm acesso à fase final. Depois do último jogo, a AEFCSH ocupa a quinta posição com sete pontos conquistados, apenas a um ponto do quarto lugar que garante a passagem à próxima fase que, neste momento, se encontra na posse da equipa da Associação de Estudantes do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz (AEISCSEM).
A equipa da AEFCSH está agora entregue às tão temidas contas. Não dependem de si mesmos para conseguirem o apuramento, facto que entristece todos os envolvidos no projeto. “Tenho perdido imenso tempo, dinheiro, tenho ganho imensas dores de cabeça, mas não trocava a experiência. Os resultados não têm sido os esperados, tenho desanimado muitas vezes, lá está, por também encarar isto como um teste que não tem dado assim frutos tão ambicionados”, reconhece Steve Grácio, o treinador.

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Sobre o/a autor/a

Apaixonado pela natureza. Ama-a de uma maneira distinta, desde o estrepitoso rebentamento da onda ao mais reservado olhar de um animal. Frequenta o curso de Ciências da Comunicação na FCSH/UNL e ambiciona trabalhar como jornalista. Jogador de futebol federado desde os sete anos entende que o desporto liberta o ser humano da tensão diária. Confiante, resolvido consigo mesmo e ousado, procura na sua família inspiração para sobrepujar os desafios diários.

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