Uma vida escrita em partituras

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Ludovice Ensemble e Enrico Onofri conduzem, através da música, uma viagem no tempo e convidam a conhecer a vida da Rainha Cristina da Suécia e de Padre António Vieira.

São 21h30 e a sala do Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB) já está composta. A intensidade das luzes que iluminam a plateia diminui ligeiramente, os músicos entram em palco e saúdam os presentes. Nas próximas duas horas, a orquestra de Ludovice Ensemble e do maestro convidado Enrico Onofri conduzirão uma viagem no tempo e no espaço, até ao século XVII e à corte da Rainha Cristina da Suécia, em Roma.

Fernando Miguel Jalôto é o fundador e director artístico deste grupo. Músico de profissão, optou por seguir uma formação diferente do habitual. “A formação normal de um músico é uma coisa muito generalista e muito técnica. A minha formação neste campo já foi um bocadinho diferente”, refere. Na Holanda, estudou numa escola onde existia um departamento especializado na abordagem histórica da música e aí cresceu a curiosidade para explorar o lado mais académico. Foi o que fez.

Neste momento, Miguel Jalôto frequenta o doutoramento em Musicologia Histórica, na FCSH/NOVA, onde tem aprofundado conhecimentos e adquirido aptidões que enquanto músico, só, não tinha. Por outro lado, explica, “o facto de ser músico ajuda-me a ser também um melhor musicólogo, porque me interesso por assuntos da musicologia que, normalmente, um musicólogo não se interessa tanto, nomeadamente as questões de interpretação”.

A primeira música, uma sonata de Arcangelo Corelli, chega ao fim e é imediatamente substituída por aplausos, que enchem o ar do Pequeno Auditório. “Boa noite, senhoras e senhores”, cumprimenta o maestro, “obrigado por estarem hoje aqui presentes”. Num breve discurso, Enrico explica que esta é uma noite especial, em homenagem ao Maestro Nikolaus Harnoncourt, falecido no dia 5 de Março, alguns dias antes do concerto. Depois disto, os instrumentos voltam a ser afinados e a viagem recomeça.

O projecto que Ludovice Ensemble e Enrico Onofri hoje apresentam surgiu de um desafio do próprio CCB. Vasco Graça Moura, antigo director e personalidade ligada à literatura, teve a ideia de organizar uma série de programas dedicados a Padre António Vieira. “Entretanto ele faleceu, veio outro director e depois [a ideia]acabou por cair, mas ficou o concerto. Já estava agendado”, justifica Miguel.

Partituras do processo criativo

O desafio estava, então, em criar um programa musical dedicado a alguém sem quaisquer ligações à música e, neste aspecto, a formação do director artístico foi um factor importante para fazer cumprir o objectivo. “Tive de olhar para a biografia dele e ver o que é que me poderia sugerir música, em que momentos a sua vida e a sua obra se cruzaram com músicos”, conta. É neste sentido que a convivência de Padre António Vieira, em Roma, com a Rainha Cristina da Suécia, e a sua participação activa no círculo literário da mecenas surgem como mote do programa.

O segundo desafio, para Miguel, passava por escolher as obras a integrar no programa e encontrá-las. Porque a maioria era apenas tocada uma vez, as obras ficaram manuscritas e são agora conservadas em parte incerta. Uma vez localizadas, é necessário requerer uma cópia do manuscrito que, posteriormente, é transcrito para a versão moderna e convertido em algo que os músicos possam usar – partituras adaptadas a cada um, em vez de uma partitura com a obra completa. “Tudo isto é a minha tarefa académica, porque a minha função enquanto músico, propriamente, seria só tocar. A parte académica dá-me tudo o que está para trás”, afirma.

Enrico, com quem Miguel já tinha trabalhado durante sensivelmente oito anos, desempenhou um papel importante também a este nível. “Não é uma pessoa com formação académica a nível de musicologia, é um músico, mas tem muita experiência com este reportório”, justifica. Um dos seus projectos pessoais, por exemplo, foi a criação do grupo Imaginarium Ensemble, dedicado à interpretação do reportório do Barroco Italiano. Enrico já tinha estado, portanto, em contacto com algumas das obras e, muitas vezes, já tinha visto os manuscritos ao vivo. Conclui Miguel, “é alguém que complementa o meu trabalho”.

O resultado é um programa que reúne um conjunto de obras de figuras como Arcangelo Corelli, Vicenzo Albrici, Bernardo Pasquini, Alessandro Stradella, Carl’Ambrogio Lonati e Alessandro Scarlatti, todos eles patrocinados por Cristina. A partir daqui, o objectivo será narrar a vida da rainha e o seu importante papel enquanto patrona, em Roma, mas, mais do que isso, ilustrar o ambiente cultural em que se inseriu Padre António Vieira.

Sem fazer uma completa reconstrução histórica, o objectivo para Miguel Jalôto continua a ser catapultar as pessoas para esta realidade, sem esquecer algo que, para si, é importante: que o público se sinta de alguma forma participante. A concretização prática desta ideia consistiu em algo tão simples como a disposição e comportamento em palco dos músicos, como se tratasse de uma academia da altura. “No século XVII, não havia concertos públicos. O que havia eram grupos de pessoas com interesses intelectuais e artísticos comuns”, elucida Miguel. “É a isso que eu gosto de aludir. Que estamos aqui a ouvir-nos uns aos outros”, conclui.

O que o público tem diante de si é precisamente uma orquestra que é ao mesmo tempo parte da plateia. Quando há músicos que, em determinado momento, não estão a tocar, sentam-se em cadeiras colocadas nas margens do palco e assistem ao espectáculo. E aplaudem. A própria iluminação da sala converge para esta intenção, não deixando a plateia ficar na penumbra.

Ao intervalo, a orquestra já percorreu metade do seu caminho. Depois de narrarem a chegada de Cristina a Roma e ilustrarem musicalmente as festas e celebrações, os músicos abandonam o palco e permitem aos espectadores regressar por breves momentos ao século XXI. O burburinho enche os espaços vazios e partilham-se opiniões. “Estou a gostar muito”, comenta Ana Paula. “É a primeira vez que venho a um espectáculo deste género e está a superar todas as expectativas.”

O programa segue em frente com a singularidade que lhe é inerente, não só a nível de ambiente e conceito, mas também a nível da interpretação. Isto porque a Música Barroca, que marca o reportório desta noite, é o exemplo perfeito de Obra Aberta, tal como Umberto Eco a conceptualizou. “O compositor [do barroco]era alguém que esperava da parte do intérprete uma espécie de trabalho a dois”, esclarece Miguel. “Uma partitura deste período é muito vazia”, acrescenta.

Mais uma vez, a formação académica de Miguel alia-se à experiência de Enrico e, juntos, decidem tudo o que não é definido pela partitura, incluindo mesmo os instrumentos. “É impossível, neste tipo de reportório, haver duas interpretações iguais”. Nos próprios ensaios, à medida que as obras são repetitivamente tocadas, Enrico vai sugerido pequenas alterações de última hora.

A sonata de Corelli que abriu o espectáculo volta a ser tocada, marcando o final da viagem. As cordas dos instrumentos deixam de vibrar, os músicos sorriem e agradecem com uma vénia sincronizada. O silêncio é preenchido com uma prolongada salva de palmas e uma ovação em pé. Não restam dúvidas: foi uma boa viagem.

A autora escreve sem o novo acordo ortográfico.

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Sobre o/a autor/a

Estudante de Ciências da Comunicação na FCSH-UNL. Raramente tem a certeza do que quer, mas o jornalismo é, desde cedo, uma vontade constante. Gosta de acreditar que um dia vai contribuir de alguma forma para prestigiar o jornalismo político português, mas, por enquanto, vai escrevendo umas coisas sobre o que vier à cabeça.

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