Quando a saúde vem bater à porta

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Um projecto da Faculdade de Ciências Médicas leva estudantes de Medicina às freguesias da Estrela e de Campo de Ourique, com o objectivo de prestar assistência aos idosos desses bairros.

No coração da Estrela, em Lisboa, um prédio discreto ergue-se como tantos outros na Rua do Quelhas. Espreitando de uma pequena varanda do terceiro andar, de onde em tempos se viu o Castelo de São Jorge, uma senhora de ar alegre parece olhar alguém ao final da rua. É Fernanda, que aguarda uma nova visita de uma das jovens voluntárias que a acompanham através do Projecto Saúde Porta a Porta.

Rita Rebelo espera paciente à porta do edifício. Quando sobe, a jovem estudante de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa é efusivamente cumprimentada por Fernanda. Por entre abraços apertados, sorrisos rasgados e um convite a entrar, a conversa inicia-se animada assim que se cruza a soleira das águas furtadas onde vive a idosa.

Maria Fernanda Soares Seguro Duarte nasceu há quase 90 anos no prédio ao lado daquele onde agora vive, e é aqui que se diz sentir feliz. Com uma memória de fazer inveja, lembra-se de tudo. De cada rua da Lapa antiga aos nomes de quem com ela trabalhava e às paragens das carreiras que percorrem a cidade, Fernanda traz com uma energia característica as memórias do antigamente para a mesa da sala de estar onde se senta com Rita. A estudante comprova esta realidade, reconhecendo que “a Dona Fernanda é como um mapa de Lisboa”.

Normalmente, são duas as voluntárias a fazer as visitas semanais que se iniciaram em Setembro passado, mas hoje apenas a Rita pôde vir. O Saúde Porta a Porta (SPAP), projecto que se iniciou há três anos, leva pares de estudantes de Medicina da NOVA ao domicílio de idosos carenciados nas juntas de freguesia da Estrela e de Campo de Ourique. Mónica Silva, estudante do 5º ano e coordenadora do SPAP desde Janeiro, afirma que o interesse dos voluntários tem vindo a crescer. Embora só estudantes a partir do 3º ano façam as visitas, já se contam 97 voluntários distribuídos por 49 idosos. As juntas de freguesia também colaboram – existem assistentes sociais responsáveis por indicar idosos que possam participar no projecto.

Em 2015, o SPAP valeu a esta Associação de Estudantes o Prémio BPI Séniores, que segundo o seu website apoia “projectos que promovam a melhoria da qualidade de vida e o envelhecimento ativo de pessoas com idade superior a 65 anos.” O valor atribuído, de cerca de 15.600 euros, permite financiar a aquisição de kits de materiais necessários às visitas, como medidores de tensão ou compressas. Além disso, será também alocado à construção de uma plataforma online que agilize o processo dividido entre a Associação de Estudantes, os voluntários e as juntas de freguesia.

Rita, que tudo ouve com atenção, vai pontuando a conversa com algumas perguntas sobre os mais recentes hábitos alimentares. É apenas após vinte minutos que surge o primeiro sinal que empresta um caráter médico à visita, quando a voluntária pergunta sobre os hábitos de sono mais recentes e a quantidade de  medicamentos que ainda sobra. Fernanda não se acanha – “Ainda tenho. Se não tiver, amanhã vou logo à farmácia se não chover. Nem bebo a minha bica.” Sem pôr de parte a boa disposição que é sua característica, não deixa no entanto de se queixar do preço dos cremes para as dores. “É que o dinheiro está caro”, afirma por entre risos.

De seguida, conta a Rita que não tem conseguido dormir porque se assustou com uma tentativa de assalto recente e que a deixou ansiosa. De qualquer forma, não gosta de estar na cama demasiado tempo. Faz tudo aquilo que quer e consegue, desde as suas refeições aos seus passeios. Não deixa, aliás, de referir que no dia seguinte talvez passe pela Basílica da Estrela para ver o funeral do actor Nicolau Breyner. Enquanto medem a tensão arterial, ninguém fala. “Está um bocadinho mais alta”, afirma Rita no final. Terá sido talvez por Fernanda ter comido algum tempo antes do teste. A jovem não deixa de elogiar a sua capacidade: “A Dona Fernanda tira a glicémia sozinha e às vezes melhor que nós”.

Parte das tarefas que Rita tem ainda de cumprir é o preenchimento de um diário clínico onde vai registando dados relevantes e valores dos pequenos testes que realizou a Fernanda. É importante para que possam acompanhar de perto o historial da idosa e, caso necessário, sinalizar algum problema que remeta para um exame mais detalhado na CUF Infante Santo, com a qual o projecto tem uma parceria. É também aqui que os idosos podem realizar consultas de especialidade de forma gratuita devido à acção do SPAP. Com transporte assegurado pela junta, as preocupações reduzem-se substancialmente – até os custos de logística não relacionados com o idoso são financiados pela Associação de Estudantes. João Paço, director clínico deste hospital, acompanhou o projecto desde a sua fase embrionária.

Mas não só de medições e questões médicas se fazem estas visitas. Para Mónica Silva, parte integral das mesmas passa pela “vertente social”. Rita reforça este factor: “No fundo, nós vimos fazer muita companhia. Criámos uma ligação muito próxima.” Não deixando de destacar a importância que o SPAP teve enquanto plataforma da iniciativa, afirma que continuará a visitar Fernanda mesmo que saia do projecto eventualmente. “Principalmente quando tenho a sorte de me calhar uma pessoa assim.”

Um elemento essencial do projecto é a vertente social, de acompanhamento e convívio.

Fernanda está feliz. Não poderia ser de outra forma – diz que tem um espírito de jovem. Na despedida, abraça novamente Rita, que a obriga a prometer que telefona ainda esta noite. A octogenária à beira do aniversário responde que não gosta de maçar ninguém, mas torna-se evidente que a ligação entre as duas é já a de uma amizade impermeável às décadas que as separam.

Parece ter poucas preocupações. Às perguntas de Rita sobre o seu quotidiano, responde com um sorriso de orelha a orelha: “Vamos vivendo um dia de cada vez”. Mas referindo o ataque cardíaco de Nicolau Breyner, de quem afirma ter gostado muito, entristece-se um pouco. Assim, esquecendo por momentos a saúde do corpo, fala de sentimentos: “A gente não pode amar quando somos velhos. Dá cabo do coração.”

Para a semana, Rita voltará à Estrela e à sala de estar com a janela que abre para o Rio Tejo, o Cristo Rei e parte da Margem Sul. Por entre números, histórias de vida e questões práticas, a conversa durará horas como hoje aconteceu. A luz da tarde dará lugar aos candeeiros acesos e Fernanda talvez ainda ligue ao final da noite – nem que seja, como Rita pede, “só para falar um bocadinho”.

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