Alunas da Nova em estreia no rugby universitário

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A equipa de rugby feminino da Nova nasceu em Novembro de 2015 e já trabalha para o Campeonato Nacional de Rugby de Sevens.

O relógio marca as 19:38 e no campo já se faz o aquecimento. Sobre ele apenas o céu estrelado e o piscar ocasional dos aviões que passam baixinho por cima do Estádio Primeiro de Maio, propriedade do Inatel. As terças e as quintas à noite são dedicadas ao rugby. E é aqui que treina a equipa feminina de sevens da Nova – uma equipa formada em Novembro e que conta agora com 14 atletas.

O aquecimento não é relegado para segundo plano, mas várias atletas aproveitam para pôr a conversa em dia sobre o curso, comum a quase todas: Medicina. No entanto, nem todas participam na conversa, uma vez que a equipa não é formada apenas por alunas da Universidade Nova de Lisboa e nasceu de uma parceria da universidade com o Clube São Miguel, escola de rugby lisboeta.

“Um dos problemas do S. Miguel era precisamente ter duas ou três jogadoras nos treinos” explica a treinadora, Catarina Ferreira. “Não tinham uma equipa para poder treinar autonomamente – tinham sempre que integrar outras equipas, os sub-14 ou os sub-16”.

“Não sabia nada sobre rugby”, começa Mónica Araújo, estudante de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas. “A regra básica de não atirar a bola para a frente, eu não sabia. A maior parte das atletas que cá estão são todas novas e também não sabiam nada de rugby. A equipa do clube de S. Miguel foi super integradora”.

Pelas palavras de Mónica fica a perceber-se que a equipa é heterogénea desde o seu nascimento. Mas para a treinadora Catarina isso não apresenta nenhum desafio acrescentado: “Elas vão puxando umas pelas outras e às tantas, quando damos por nós, o nível já está mais ou menos equilibrado”.

O treino segue para uma simulação de situação de jogo. As indicações são repetidas em inglês para que a estudante alemã se inteire de tudo. Marne Bosing, estudante de Ciências da Linguagem na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, não é novata nas andanças do rugby – já treinou, durante um ano, na equipa de 15 de Glasgow. Está em Portugal por um ano e escolheu a equipa da Nova porque “os sevens são jogos mais rápidos e há mais coisas a acontecer, mais ensaios, o que é interessante”, resume.

As quedas sucedem-se e são normais no rugby. “Estás bem?”, perguntam quase em uníssono quando uma colega de equipa cai, o que denota toda a preocupação e respeito pela integridade física das colegas dentro de campo. Desta vez valeu a pena porque conseguiram marcar ponto.

Muitas quedas resultam em lesões. Isso causa algum receio ao início mas, como explica a atleta Camila Gonçalves, aspirante a médica, “depois do primeiro treino ultrapassa-se facilmente e nem não é tão mau quanto parece”.

As situações de jogo e os exercícios específicos que as preparam para os jogos não dispensam uma preparação física cuidada. Assim se justificam todas as séries de abdominais, estáticos, flexões e cariocas – um exercício que em tudo faz lembrar o samba das terras quentes do Brasil. Todas as séries são contadas em voz alta pelas atletas – 1, 2, 3, 4, ecoa pelo espaço como um cântico de guerra.

Os exercícios de pares, em que uma das atletas tenta dificultar a corrida da outra, criando tração, deixam-nas cansadas, mas não deitam os ânimos por terra. Muito pelo contrário, até porque o treino ainda agora começou e a equipa sabe disso. Todos os exercícios são feitos segundo as ordens da treinadora – “Ao meu ritmo”, como faz questão de relembrar.

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Estes exercícios não são novos para as atletas porque já quase todas elas praticaram desporto antes: do voleibol ao ténis de mesa. Rita Basto, estudante de Medicina, explica que, para ela, “o facto de vir jogar para uma equipa e ter o espírito de equipa”, como nunca teve ao nível de competição, “faz toda a diferença”.

Um saco verde fluorescente do tamanho de um tronco humano é utilizado para o próximo exercício: Catarina Ferreira quer trabalhar a entrada a contacto e a receção da bola. “Elas têm de placar a 300”, explica a treinadora. “Essa gaja tem de vir ao chão”, porque caso contrário o exercício não foi bem executado.

As indicações sobre o que corre mal ao longo dos exercícios são constantes. O objetivo é melhorar e por isso a treinadora repete mais uma vez: “Temos de ser mais rápidas”.

É um desporto que se baseia na atenção a todos os pormenores. Nada pode falhar, porque se alguém falhar individualmente pode pôr o resultado de toda a equipa em risco. Tudo tem de estar perfeito, cada jogadora deve estar constantemente a analisar a situação de jogo para saber de que maneira o pode fazer progredir. Este é, na verdade, um desporto de estratégia, como assinala Rita Basto: “É um jogo que apesar de ser de muita força também tem imensa componente de inteligência, e saber organizar o jogo é desafiante”.

O segredo do rugby reside, segundo Catarina Ferreira, num grande “espírito de luta, de entrega, de sacrifício, às vezes de dor”. Para além do compromisso e da dor, a treinadora realça ainda uma terceira parte, a do convívio “convivermos todas entre nós, ir beber uma cerveja”. São estes os ingredientes para a receita de sucesso do rugby entre as universitárias da Nova.

O final do treino foi marcado pela organização das boleias para o jogo de domingo nas Caldas da Rainha. Para este jogo, a expectativa da treinadora é que se divirtam. “Não lhes peço vitórias”, começa, “é importante que elas comecem a cumprir os princípios que são dados aqui no treino para mais tarde os resultados começarem a aparecer de alguma forma”. O grito de guerra “São Miguel!” ecoa pelo estádio e marca o final de mais um treino. São 21:15 e as jogadoras encaminham-se para os balneários.

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1 comentário

  1. Henrique Jónatas on

    Boa reportagem. Obrigado Inês. Já agora, relembro que ainda precisamos de mais e mais jogadoras. Por isso desafiamos a virem experimentar esta espectacular modalidade. Henrique Jónatas do Gabinete de Desporto da Universidade NOVA de Lisboa

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