Isto não é só Matemática, “é uma forma de ver o mundo”

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Quem disse que a Matemática tem de ser complicada, desengane-se. Apresentado por Rogério Martins, o programa Isto é Matemática pretende mostrar a aplicabilidade desta ciência e transmitir a forma como um matemático vê o mundo. No ar desde 2012, é também uma ferramenta de ensino nas salas de aula.

“Ok, vamos repetir… Silêncio!”, grita Tiago, o guionista. “Esta lenda faz parte da história da origem do jogo de xadrez e mostra o poder de crescimento de uma progressão geométrica, por vezes também chamado crescimento exponencial”, diz Rogério a olhar para a câmara. “O sol mexeu. Rogério, roda o corpo, dá um passo à frente e ênfase no ‘crescimento exponencial’”, pede Tiago. Rogério repete. Foi desta. “Perfeito, já temos.” A câmara fica em stand by e Rogério Martins, professor de Matemática e apresentador do programa Isto é Matemática, na SIC Notícias, relaxa o corpo. É hora de mudar de cena e vestir a personagem.

O dia é de sorte para quem grava todas as semanas no exterior. O sol de inverno ilumina a equipa que, desde as 8 da manhã, grava as últimas cenas da oitava temporada no cenário quase pós-apocalíptico, como o guião exige, da desativada Base da Raposeira, na Trafaria. “No final de cada temporada, gostamos de fazer algo diferente”, comenta Rogério. Este episódio não será exceção. Figurantes são dois, havendo também direito a um número de dança à bollywood. Já Rogério vestirá a pele de Sessa ou, segundo reza a lenda, o matemático indiano que inventou o xadrez. E porque isto é Matemática, é assim que Rogério quer ensinar sobre as progressões geométricas.

“Segundo a lenda, Sessa apresentou o jogo de xadrez ao rei para que ele ocupasse o seu tempo. O rei gostou tanto que lhe disse que lhe daria o que ele pedisse. Sessa, esperto, respondeu que queria receber um grão de trigo pelo primeiro quadrado do tabuleiro, dois grãos pelo segundo, quatro pelo terceiro, e assim por diante. É claro que quando chega ao sexagésimo quarto quadrado, já não há trigo na terra que chegue”, explica Rogério. Este raciocínio é igual ao que está por trás da bomba atómica. E assim se mostra que a Matemática não está tão longe de nós quanto poderíamos pensar. “Um dos objetivos deste programa é criar um imaginário nas pessoas, permitir que tenham pequenas histórias para contar”, afirma o professor.

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Durante as gravações (da esquerda para a direita: Ricardo “Tiger” da Silva, Tiago Caetano e João Cunha).

E se Rogério é quem está à frente das câmaras, por detrás delas está uma equipa dedicada a trasladar os episódios do papel para o ecrã. Num único episódio há toda uma matemática de encontros de pontos de vista, somas e subtrações de diálogos ou monólogos, numa troca de ideias constante entre Rogério e o guionista, Tiago Caetano. A eles juntam-se mais oito pessoas: desde produtores, um realizador, uma maquilhadora, figurantes a operadores de câmara.

Marco Oliveira é produtor na Sigma3 e está no programa desde 2015. Veio do Curto Circuito para o Isto é Matemática e, apesar do ritmo de trabalho e de gravações no exterior ser mais acelerado do que seria num estúdio, prefere trabalhar assim. “Uma das mais-valias deste programa é pegar em sítios especiais do ponto de vista arquitetónico, passar a mensagem que se quer transmitir e divulgar este património”, diz, apontando para o cenário desta antiga base militar com vista para o Tejo.

Para Fábio Carvalho, ator e comediante, esta é a quinta vez (ou sexta, já não sabe bem) como figurante no programa. “É espetacular. Não é aquele trabalho como o do Rogério, pode-se brincar mais”, confessa. Hoje é o tesoureiro do rei (o também humorista João Cunha) e a personagem exigiu uma caraterização mais complexa do que o habitual.

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Fábio Carvalho durante a caraterização como tesoureiro do rei.

Os momentos de comédia são um dos elos para agarrar o espectador no Isto é Matemática. Mas o programa mudou muito desde o início, nota Marco. “Houve uma altura em que se foi investindo mais na comédia e depois pensou-se que estava a ficar muito apalhaçado. Não queríamos fazer disto só comédia… é um programa científico. Esta autocensura não veio da SIC. Fomos nós que chegámos a essa conclusão”, diz o produtor.

“O grande problema da Matemática é ter muitos problemas”

Em 2015, a média dos exames nacionais do 9.º ano na disciplina de Matemática foi negativa. Para Rogério Martins, professor e investigador no departamento de Matemática na Faculdade de Ciências e Tecnologia, não é tarefa fácil inverter este panorama e despertar o interesse das pessoas, miúdos ou graúdos, para a Matemática. O problema é complexo e cultural. “Eu diria que o grande problema da Matemática é ter muitos problemas”, começa. Para o professor, a imagem que as pessoas têm desta ciência não joga a seu favor. “Em geral as pessoas veem a Matemática como algo chato, desculpam muito facilmente os filhos. Tipicamente dizem ‘eu já na fui bom a matemática, é normal que tu não sejas’. É claro que se um miúdo ouve isso vai baixar os braços”, diz, frisando o papel dos pais e educadores no despertar para a Matemática. “A Matemática é muito difícil, sim, mas há tantas outras coisas difíceis. Aprender um instrumento é difícil, por exemplo. A matemática é abstrata e, à primeira vista, parece-nos que não tem a ver com o nosso dia-a-dia mas tem. Porque na verdade toda a abstração da Matemática veio um dia de problemas reais”, remata.

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Rogério como Sessa e Paulo Santos (assistente de produção).

Rogério nega ainda a visão muitas vezes disseminada de que a Matemática é uma medida da inteligência do ser humano. “Quando um miúdo se dá bem com a Matemática dizem ‘tu podes ser o que quiseres porque tens muitas capacidades’. O facto de a sociedade ver assim a Matemática torna-a muito delicada do ponto de vista do nosso ego. E muitas vezes alguém é bom porque entrou com o pé direito”. Não foi o seu caso.

Rogério não era um “aluno brilhante” durante o secundário, como se descreve. “Tinha o suficiente para passar”, brinca. Professor e investigador, Rogério entrou na área por acaso. “Um dia ia no comboio, alguém me falou no curso de Matemática, dizia que era difícil e tal, e pensei ‘olha aqui está um bom desafio’”, conta. Na altura já o apaixonava a “ideia romântica” de vir a ser professor… “esta ideia de não ganhar muito e de me dedicar aos outros”.

A paixão pela Matemática só chegou na faculdade. “Aí percebi que a Matemática era sobre ideias”, avança. Rogério não quer simplificar a Matemática mas mostrar que ela, afinal, pode ser mais acessível do que pensamos… “e que tem a ver connosco”. “A mim não me apaixona a matemática como jogo sem sentido mas a matemática como filosofia de vida, enquanto abordagem ao mundo real, enquanto uma forma diferente de ver o mundo”.

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As gravações tiveram lugar na desativada Base da Raposeira, na Trafaria.

É essa forma como um matemático vê o mundo que o professor tenta passar no Isto é Matemática. No ar desde 2012, Rogério sente que programas como este podem despertar o interesse para a Matemática, muitas vezes vista como um quebra-cabeças. “Já alguém dizia que quando ensinamos alguém a tocar piano mostramos como se toca piano. É impensável ensinar alguém a jogar futebol sem ele/ela nunca ter visto alguém a jogar futebol. Com a Matemática é igual. Muitas vezes o que acontece é que tentamos ensinar alguém a fazer Matemática sem essa pessoa ter visto um profissional a fazer Matemática”, critica. Também isso tenta mudar com o programa.

Joaquim Serafim tem 16 anos e estuda Economia no secundário. A vertente prática do programa, bem como o “mistério” com que Rogério aborda os temas é o que mais o cativa. “Mas também o entusiasmo com que [o apresentador]fala sobre a matemática e a sua importância no dia-a-dia”, acrescenta. Esta Matemática é muito diferente daquela que Joaquim aprende na escola. “A matemática das escolas dá muito ênfase à resposta, em vez de criar mistério e curiosidade na criança para que esta comece a gostar de matemática e a interessar-se mais pela disciplina”, critica o aluno.

“Em busca do Pi” – quando o programa chega às salas de aula

Para além do sucesso em Portugal e de prémios europeus, o Isto é Matemática já foi traduzido para inglês (This is Mathematics) e tem fãs também no Brasil. É de lá que o professor Rafael Louzada e os seus alunos acompanham o programa no YouTube. Professor no Colégio Farroupilha, no estado do Rio Grande do Sul, Rafael quer trazer para a sala de aula uma visão da Matemática como ferramenta presente no nosso quotidiano. “Muitas vezes as pessoas entendem a Matemática vista na sala de aula como algo distante da vida fora da escola, e o Isto é Matemática, na pessoa do Professor Rogério, ajuda e muito na quebra desse preconceito”, explica. E os alunos parecem gostar, diz. “No ano passado fizemos um projeto onde os estudantes deveriam fazer um episódio, inédito, nos mesmos moldes do Isto é Matemática. Foi incrível”. Muitos dos alunos continuam a acompanhar os episódios pelo canal do YouTube e trazem alguns comentários para a sala de aula.

Esta não foi a única atividade sobre o programa que Rafael realizou com os alunos. “Na semana passada fizemos uma atividade, ‘em busca do número Pi’. No final assistimos o episódio do Pi do Isto é Matemática”, conta. Este mesmo episódio não é estranho a Alexandra Brandão Santos, licenciada em Matemática (ramo educacional) e formadora de profissão. Nas suas formações usa recorrentemente o programa “principalmente para mostrar de uma maneira divertida a utilização dos conceitos” com que trabalham, conta. “Por exemplo, ontem [dia 14]foi o Dia do Pi e, por coincidência, estamos a trabalhar a geometria. Então, para além da atividade que já tinha preparado, ainda viram o episódio ‘O Pi existe’”.

Alexandra considera fundamental mostrar a qualquer aluno a utilidade da Matemática. “Infelizmente para a maioria das pessoas ainda é um bicho-de-sete-cabeças que não serve para nada. Se reparar nas avaliações dos alunos, qual a negativa que os pais perdoam? E nos filmes, novelas, etc., qual a disciplina que dizem sempre mal, qual o professor vilão?”, interroga. Para a formadora, “sair da sala de aula e pôr em prática aquilo que se aprende” pode fazer a diferença. No entanto, isso nem sempre é concretizável pois “o tempo é muito pouco e os currículos são muito extensos”.

Mas, importa dizer, o Rogério do Isto é Matemática, é diferente do Rogério-professor na Universidade Nova. “Às vezes as pessoas enviam-me emails a dizer ‘quem me dera que o meu professor tivesse sido assim’ e eu digo que é uma comparação injusta. Não sou assim nas aulas. Eu [no programa]escolho os pontos que quero explicar, que considero serem os mais divertidos e curiosos. Segundo, tenho uma equipa que trabalha comigo para tornar este pedacinho de 10 minutos interessante. Quando dou aulas tenho um programa muito mais rígido para dar e, além disso, sou só eu, não há maquilhagem não há câmaras, não há nada”. E, claro, não há uma vista para o Tejo.

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