O clube que desafia o bicho-de-sete-cabeças

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Todos os anos, o Clubemath junta várias dezenas de jovens que partilham o interesse pela matemática. Num ambiente familiar a desmistificação desta disciplina é alcançada através de uma abordagem divertida e lúdica.

Como sempre, as sessões decorrem ao sábado. As paredes de vidro deixam que o sol ilumine o corredor central do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Passam 30 minutos das 14h e à entrada do edifício começam a chegar várias crianças que se fazem acompanhar, na maioria dos casos, pelos seus pais. “Hoje é dia de correria”, afirma Gracinda Rita Guerreiro, docente na FCT e coordenadora do Clubemath. Dez minutos mais tarde, o número de jovens duplica e o Clube de Matemática da Nova abre as suas portas para mais uma sessão de Caça ao Tesouro.

Inspirados na exposição itinerante Simetria, Jogos de Espelhos, realizada pela Associação Atractor e exibida na FCT entre Fevereiro e Março de 2007, Nelson Chibeles Martins, Maria de Fátima Rodrigues e Maria do Céu Soares, três docentes do departamento de matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia, uniram-se na fundação do Clubemath, em Junho do mesmo ano.

Os adultos acompanham as crianças até à ala oeste do Edifício VII do Campus da faculdade, localizada no Monte de Caparica. Sem dispensarem uma despedida calorosa, os jovens dirigem-se entusiasticamente às respetivas salas. Os alunos são divididos em cinco escalões: minis, infantis, iniciados, juvenis e juniores. Os dois primeiros escalões correspondem, respetivamente, aos dois primeiros e dois últimos anos do 1º ciclo, o terceiro escalão é referente ao 2º ciclo, o quarto ao 3º ciclo e o último engloba todos os alunos do ensino secundário.

Inicialmente aberto a alunos do 2º ciclo, 3º ciclo e secundário, em 2011 e “a pedido de várias famílias” o Clube de Matemática superou a dimensão original e foi alargado a todo o ensino básico. “Atualmente temos cerca de 100 associados e metade destes são do primeiro ciclo. Aquela aposta inicial de nos concentrarmos nos alunos mais velhos não foi uma boa aposta, constatámos a posteriori”, esclarece Nelson Chibeles Martins. “Este ano temos apenas um aluno de secundário a vir às nossas sessões com regularidade”.

O encontro de hoje, à semelhança dos peddy papers que assinalam o fim de cada ano letivo, é especialmente dinâmico. Depois de formadas as equipas, na sua maioria constituídas por três elementos, e realizadas as primeiras actividades, a agitação no Departamento aumenta exponencialmente. A cada sala corresponde uma só prova, o que implica a deslocação dos jovens de sala em sala até que alcancem a última etapa.

Cada equipa traz consigo uma folha de identificação dos respetivos elementos e da pontuação alcançada até ao momento. A incorreta resolução de qualquer exercício acarreta uma penalização na pontuação final das equipas. No entanto, nenhum aluno abandona a sala sem que seja esclarecido o correto modo de determinação da solução ao exercício proposto.

Cada prova corretamente executada permite a passagem à etapa seguinte. Nalguns casos, a esta cedência é acrescida a conquista de uma nova pista. A primeira equipa a decifrar o conteúdo do conjunto total de pistas vence. Nesta fase inicial é impossível determinar quem será a equipa vencedora, uma vez que nenhuma delas poupa esforços para alcançar a vitória.

Ao longo de cada ano letivo são sete as sessões temáticas organizadas pelo Clube. É consensual a convicção de que é o escalão infantil aquele que maior adesão apresenta. Maria do Céu sugere uma explicação para esta discrepância relativamente ao número de alunos associados no escalão júnior: “Para começar, os alunos mais velhos sentem mais a pressão social dos seus pares, isso começa a notar-se na adolescência. As relações sociais desempenham um papel muito importante e a matemática, na sociedade, digamos que não é a disciplina mais valorizada. Quantas vezes, não ouvimos os pais dizerem coisas como: ‘Não faz mal não seres bom aluno a matemática, eu também não era’”.

Beatriz Curioso, a primeira aluna a receber uma bolsa de estudo oferecida pelo Clubemath, é um excelente exemplo demonstrativo deste estigma. “ No 11º ano já pensava em candidatar-me a esta licenciatura, apesar de ser desmotivada e de muita gente me dizer que não era boa ideia”. Atualmente, aluna da FCT no primeiro ano da licenciatura de Matemática, Beatriz acrescenta ainda: “Foi esta a escolha que quis fazer, mas era também esta a escolha que todos me diziam que não devia tomar. Optei por seguir esta área contra os conselhos de toda a gente, inclusive dos meus professores”.

A atual colaboradora do Clube revela que os argumentos mais frequentes são relativos à restrição profissional da sua área de estudo, “é sempre aquela ideia de que se estudas matemática tens que ir para professor. Acho que isso é mentira”.

Maria de Fátima Rodrigues, docente na FCT e uma das colaboradoras pioneiras deste projeto, explica como surgiu a oportunidade de oferta da primeira bolsa atribuída pelo Clube. “Tudo depende do dinheiro que temos disponível. Os pais pagam uma quota, um valor simbólico, por ano letivo e é esse dinheiro que utilizamos para organizar estas atividades. Este ano conseguimos reunir o equivalente a uma propina para uma aluna que tivesse frequentado um dos cursos de Verão que o nosso Departamento realizou”.

Do grupo de alunos que frequentaram a MatNova 2016, escola de verão de matemática da FCT, Beatriz foi a aluna que entrou no curso de Matemática com a melhor média. Esta proeza valeu-lhe um ano de total despreocupação relativamente à principal despesa académica, que para muitos ainda representa um fator de oposição ao acesso ao ensino superior.

O Clubemath apresenta ainda uma outra modalidade de trabalho que se distingue pela apresentação das atividades em escolas do ensino básico e secundário. Contudo, apesar de serem várias as escolas a requisitar este serviço os coordenadores do projeto têm tido dificuldade em assegurar uma eficaz capacidade de resposta. “Todos nós somos professores aqui na faculdade. Temos a nossa atividade docente e de investigação. Normalmente as escolas têm disponibilidade para realizar estes eventos numa altura que a nós não nos dá jeito nenhum. Geralmente contactam-nos ou no final do primeiro período ou na altura da Páscoa. Estas são épocas em que todos estamos aflitos a tratar de testes e os alunos também não têm disponibilidade para nos ajudar”, esclarece Nelson Chibeles Martins, ex-aluno e atual professor na FCT.

Ainda assim, é notável a dedicação de todos os docentes e alunos envolvidos no projeto. Susana Baptista, coordenadora do escalão mini, é a que mais se destaca quer nas palavras dos colegas quer pela exigência das funções que desempenha. “Apesar de ainda não ter tido a experiência com os alunos mais pequeninos, aprecio imenso o trabalho da Susana, porque eu acho que às vezes é difícil chegar tão baixinho, ao nível a que é possível atingi-los”, confessa Gracinda Guerreiro, coordenadora do escalão infantil.

De facto são evidentes a agitação e euforia dos alunos mais novos, que representam incontestavelmente uma larga porção do total de participantes nestas sessões. Susana revela o seu segredo: “A gestão destas atividades conta com a preciosa colaboração dos alunos do núcleo de matemática, que no fundo nos ajudam a dividir o grupo inicial em grupos de bastante menores alunos. Portanto, eles têm uma atenção muito personalizada, possibilitando o acompanhamento de cada uma destas crianças”.

O núcleo de matemática da FCT foi criado no primeiro semestre deste ano letivo e conta com a participação ativa de seis alunos de todos os anos da licenciatura de matemática. “Como o núcleo é muito recente optámos por começar a associar-nos a projetos que a faculdade já desenvolve, entre os quais o Clubemath. Neste momento somos nós os responsáveis por toda a logística dos monitores”, informa Rita Ribeiro, aluna da FCT e membro do núcleo de matemática.

O ambiente familiar é notável do início ao fim de cada sessão. As crianças não hesitam em pedir ajuda quando necessário e celebram em conjunto todas as pequenas vitórias. Gracinda Guerreiro é testemunha desta afetividade. “Nós já tivemos inclusivamente alunos que no dia do Clubemath fazem anos e é aqui querem passar o seu aniversário. Trazem bolo para partilhar com os meninos da mesma sala, que são pessoas que eles vêm sete vezes por ano. Portanto, eu acho que eles se sentem familiarizados”.

Por esta altura vemos algumas pistas perdidas no chão e são várias as vozes que se fazem ouvir pelo corredor. “Terminámos”, “conseguimos” ou até mesmo “ganhámos”, são expressões que anunciam o fim da tarefa proposta neste encontro. São já 17h e os pais regressam agora ao mesmo local onde, há duas horas atrás, deixaram os seus filhos. Escutam-se perguntas como “qual era a tua equipa?”, “gostaste?”, “conseguiste resolver tudo?”.

Todos os alunos terminaram os exercícios com sucesso. Nestes últimos momentos de despedida é ainda mais evidente a relação informal que se estabelece entre os colaboradores e os alunos. “Adeus, Fátima”, diz uma das crianças. “Ela portou-se bem?” pergunta um pai, indicando a filha. Susana responde: “Claro que sim”. E termina mais uma caça ao tesouro.

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