Serpa, a cidade que encolhe a cantar

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Serpa perdeu 5.419 habitantes desde 1950. Atualmente com 6.233 residentes, situa-se no distrito de Beja a 43 km de Espanha. Abrangida pela Barragem do Alqueva, foi a pioneira da candidatura do cante alentejano a Património Imaterial da Humanidade. O que faz dela uma cidade em declínio populacional?

Serpa é uma cidade sem grande agitação. Caiada de branco, os primeiros sinais de vida na localidade dão-se por volta das 6h da manhã, quando grande parte dos trabalhadores agrícolas se dirigem ao café antes de irem para o campo. É aí que se sabem as novidades da terra e se encontram para nas noites de terça-feira fazerem os ensaios do coro. O Café do Armindo, de nome Snack-Bar A Fonte, é o ponto de referência dos membros do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa.

O ensaio do grupo de cante alentejano está marcado para as 21h. Nunca se inicia a horas. Há sempre qualquer novidade a ser contada, qualquer elemento que se atrasa, e só lá por volta das 21h30 se começa a treinar as modas. Em três filas, sem os trajes das atuações e de braços cruzados, como manda a tradição, organizam-se na sala do primeiro piso da Casa do Povo. Nas paredes vêem-se fotografias das suas saídas e de medalhas e taças de concursos que venceram.

Carlos Paraíba, o ensaiador do grupo, é quem escolhe a moda a ser cantada. Neste ensaio vão começar com uma música tradicional da terra: Serpa de Guadalupe. Membro do grupo desde 1989, traz já uma herança consigo, pois pai e avô fizeram parte do grupo. “Cantava já desde pequeno. O meu pai tinha uma taberna. Lá cantava-se muito”, conta e revela que entrou depois de um dos membros que frequentava os estabelecimento o convidar. No entanto, este grupo já sustenta uma história desde 1928 e como gosta de afirmar na gíria alentejana: “Não há buraco onde não tenhamos metido o nariz”.

Ensaio na Casa do Povo de Ser

Ensaio na Casa do Povo de Ser

“Eu posso-lhe dizer que nós temos corrido Portugal de lés a lés e temos cantado nos palcos mais emblemáticos do país”, relembra citando o Centro Cultural de Belém, a Aula Magna, o Teatro Nacional D. Maria II e no território alentejano, o Teatro Garcia de Resende, em Évora. Aliás, como interessado no assunto, afirma: “O cante alentejano, dizem aí as pessoas entendidas, nasceu do cante gregoriano. Saiu dos Paulistas que passaram por aqui e por Évora”.

Natural de Serpa gosta sempre de citar Francisco Torrão, um dos etnólogos “entendidos” no assunto: “Serpa é o Vaticano do cante alentejano”. Mas nem em tudo a cidade tem sido atrativa, e o próprio refere a falta de oportunidades de emprego para os jovens na localidade e a população a diminuir.

Num grupo com uma faixa etária dos 24 aos 65 anos, Mário Franco é o membro mais novo. Residente na aldeia de Brinches, começou a cantar com cinco anos por influência dos avôs e evidencia: “É para continuar até que me mandem embora”. Revela existir uma enorme influência dos jovens com o cante: “Você vai a qualquer café e qualquer rapaz novo sabe cantar”. Já foi emigrante na Suíça, mas decidiu voltar ao concelho onde nasceu. Neste momento encontra-se desempregado, tal e qual como 37,31% dos jovens serpenses, que muitas vezes apostam em abandonar a terra de berço.

Serpa tem tido um declínio populacional desde os anos 50 e que até aos últimos censos não recuperou. A cidade faz parte das cinco localidades com um declínio populacional constante do estudo Historical trajectories of currently shrinking Portuguese cities: A Typology of urban shrinkage, realizado por Daniel Alves, Ana Paula Barreira, Maria Helena Guimarães e Thomas Panagopoulos.

No Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanos, está Daniel Alves, um dos investigadores. Iniciou este estudo depois de um encontro sobre população em Évora, onde conheceu os restantes investigadores. A Daniel Alves coube a análise dos censos desde 1878. A partir desses dados evidenciaram-se tipologias e um grupo de cinco cidades, em que o decréscimo da população não parou, as chamadas “cidades que encolhem”. “Essencialmente são cidades que não conseguiram fazer a transição para a indústria”, revela. É o caso de Serpa, juntamente com Alcácer do Sal, Moura, Meda, Borba e Sabugal.

São cidades do interior e de fronteira que perderam população pela migração para uma Europa com maior desenvolvimento económico em plena ditadura, para cidades do litoral com mais oportunidades e para cidades próximas que se desenvolveram em serviços e organismos de decisão. “O sistema urbano também funciona muito com estes polos de atração. Enquanto umas cidades estão a perder, elas estão como a ser sugadas por outros centros, que se conseguiram desenvolver”, explica.

Se o objetivo deste trabalho foi uma análise genérica, o investigador afirma que os decisores políticos poderiam aproveitar para terem uma noção histórica da evolução da população. “Estudar o passado em si já é um objetivo meritório e acho que ele pode ter uma palavra a dizer nas decisões. Percebe-se que não é uma coisa momentânea, não é conjuntural, é estrutural”, afirma.

Num dos gabinetes da Câmara Municipal de Serpa, trabalha Maria Moreira, chefe de divisão de Urbanismo e Ordenamento do Território e funcionária da autarquia há 16 anos. A arquiteta afirma sem hesitações que esta descida se deveu a “falta de emprego”. Descarta a possibilidade das cidades mais próximas como Évora ou Beja serem polos de atração e aponta o isolamento da cidade como um dos problemas. “Não temos transportes e não temos estradas. Não temos nenhuma autoestrada que permita a circulação mais rápida de produtos”, revela.

Edifício da Câmara Municipal de Serpa

Edifício da Câmara Municipal de Serpa

Relativamente perto de Espanha, a 200 km de Lisboa e com um aeroporto em Beja, não há uma autoestrada que faça a ligação. A arquiteta destaca o fim da linha de caminhos de ferro como uma má decisão: “Consideramos que ela foi prejudicial, até no transporte diário de pessoas, não pensando só em exportações. A rede de transportes públicos é mínima!”

Revela que há negociações com a REFER e que Moura é outra das cidades envolvidas. “Isto não é novo. Agora é quando o Governo entender que é uma mais valia investir nestas infraestruturas. Este atraso todo no investimento no interior tem lesado muito a população e faz com que estes gráficos apareçam.”

Gráfico

Enquanto isso, um terço de Serpa é abrangido pela Barragem do Alqueva, que aumenta a potencialidade destas terras alentejanas. Numa cidade onde a atividade principal é a agricultura, este investimento tem feito aumentar a procura dos jovens agricultores, de investidores espanhóis e tem ocasionado o desenvolvimento de culturas, como o amendoal e o açafrão, além do olival e da vinha. Contudo, Maria Moreira destaca que a ação da Câmara Municipal é de agente “facilitador” e não “empregador”, não cabendo à autarquia fazer este tipo de investimentos.

Como uma das soluções na revitalização da economia, além das atividades do primeiro setor, o investigador Daniel Alves refere também a potencialidade da cultura como o cante alentejano: “Quem faz o cante alentejano não pensa nisso como produto, mas os decisores políticos podem pensar.” A arquiteta confirma que a cultura tem sido um dos principais investimentos da Câmara. Desde os cante nas escolas ou ajudas nas deslocações dos 17 grupos de cante que compõe o concelho, a autarquia tem impulsionado a cultura: “Não só do cante, mas também dos produtos regionais. Tentamos agregar as duas coisas e não só uma”. A arquiteta informa que muitas vezes os empresários do concelho acompanham os coros nas saídas.

Um dos grupos apoiados tem sido o Coro da Casa do Povo, que destaca o investimento feito pela Câmara “tanto monetariamente como em trabalhos”. Trabalhos esses que culminaram com a aprovação da candidatura do cante alentejano a Património Imaterial da Humanidade. Este foi o grupo selecionado para representar o cante em Paris, na sede da UNESCO. A escolha foi feita por ser o coro mais antigo da margem esquerda do Guadiana. Carlos Paraíba não esquece o momento: “Nós cantamos, nós rimos, nós choramos, nós … aquilo foi… olhe, sei lá! Não há palavras para descrever. Eu sei que nós levamos dois dias para a candidatura ser discutida, porque houve candidaturas que levaram muito tempo ao contrário da nossa.”

Carlos Paraíba, o ensaiador. Na parede, está a capa do Diário do Alentejo quando foram a Paris à sede da UNESCO

Carlos Paraíba, o ensaiador. Na parede, está a capa do Diário do Alentejo quando foram a Paris à sede da UNESCO

Nesse dia cantaram Alentejo, Alentejo, composto por um antigo membro do grupo, e para o ensaiador : “O cante alentejano começou a ser visto de outra forma. Antes da candidatura era já muito apreciado, mas havia quem descorasse um pouco o cante alentejano e até faziam pouco, enfim…”

Quem também não esquece é o membro que está há mais tempo no grupo, Domingo Reis. Na casa onde ensaiam e a olhar para a fotografia que tem como pano de fundo a Torre Eiffel, e que saiu no Diário do Alentejo, desabafa: “É uma emoção que a gente nunca mais se esquece na vida”. Carpinteiro de profissão, veste o papel de alto, aquele que inicia o cante. Começou com 12 anos e parar de cantar está fora dos seus planos: “Até um dia, não sei quando, vamos andando por cá”.

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