União faz-se sentir no Núcleo de Corfebol da Nova

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Não é futebol, basquetebol, nem tão pouco andebol. É, na verdade, uma fusão de todos eles. No corfebol marca-se golos num cesto e faz-se passes de peito. Mas há algo que o distingue: as equipas mistas. É ainda um desporto raro por terras lusas, mas a Universidade Nova joga-o com primor. E em família.

As condições climatéricas faziam prever um possível cancelamento do treino e o telemóvel de Filipe não para de tocar. “Hoje há treino?”, perguntam os atletas. “Vão ter ao campo e logo vemos”, responde Filipe, em tom de quem já está farto de responder sempre às mesmas questões.

O ponteiro do relógio aponta para as 14h30 de quarta-feira e os primeiros atletas começam a chegar ao campo de jogos da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT). Uns já equipados, outros vão ainda preparar-se para treinar. Mas todos eles sorridentes e descontraídos como quem acaba de chegar a um convívio de amigos. O ambiente por ali é muito informal. Rapazes e raparigas ajudam a carregar e a montar os cestos. E há uma notável cooperação por parte de todos antes do começo do treino de corfebol. “Somos como uma família, tratamo-nos como irmãos e por isso é que funcionamos tão bem”, frisa Catarina Marques, 19 anos, estudante do 2º ano de Engenharia Biomédica.

Entretanto, Filipe, mais conhecido pelo apelido Valadas, coloca-se no centro do campo. É hora de parar com os lançamentos livres e com a galhofa. Faz-se silêncio, escuta-se as indicações do treinador e de seguida dá-se início ao treino com lançamentos na passada. “Já sabem como é que é”, afirma Valadas.

Dividida por três cestos, que mais tarde passam a quatro com a chegada dos mais atrasados, a maioria dos atletas começa de imediato a contar o número de golos. “Não é preciso ainda”, grita o treinador. Passados cinco minutos, Valadas ordena que já podem contar os golos e a euforia espalha-se pelo campo de jogos da FCT. Cada grupo quer ser melhor que o outro. A voz de Rafael Carvalho ouve-se a léguas cada vez que o seu grupo marca golo. “O ambiente aqui é incrível. Nós fazemos imensa coisa juntos. Vamos sair juntos, trabalhamos juntos e já viajámos juntos”, esclarece o jogador de 20 anos, estudante do 3º ano de Engenharia Biomédica.

No decorrer do treino, Filipe Valadas profere algumas palavras de apoio e ordens de concentração, recordando que grita sempre “para os atletas e não com os atletas”. “Quanto mais intenso fizerem isto, mais estão a treinar”, adverte Valadas depois de ordenar um exercício mais complicado, à semelhança do que acontece em jogo, onde há um defesa a tentar bloquear os golos.

“Uma coisa que eu acho interessante e um dos maiores riscos para alguém na minha posição é o facto de o treinador ter a mesma idade (22) que os atletas. Podia ser algo impeditivo. No entanto, graças ao bom ambiente que aqui temos, consigo ser realmente exigente e, ao mesmo tempo, conseguimos ser todos amigos e ter respeito uns pelos outros enquanto lutamos pelo mesmo objetivo”, confidencia Filipe Valadas.

Os jogadores concordam que é assim que tem de ser e que é com exigência que se ganha e atinge objetivos. “Se ele não fosse exigente, nós não tínhamos ganho o ano passado o campeonato nacional. Para se ganhar é preciso exigência e competência”, refere Francisco Vaz, 23 anos, estudante do Mestrado de Engenharia e Gestão e responsável pelo departamento de comunicação do núcleo. Rafael Carvalho acrescenta que Valadas é “muito rígido, porque tem todo o peso em cima dele, enquanto presidente e treinador, e é preciso haver alguém que pegue mão forte nos jogadores”.

Às 16h00 vem a parte mais aguardada do treino. E a preferida. É hora de fazer jogo de oito para oito. Infelizmente, só estão presentes seis raparigas. É preciso contornar as dificuldades. Não há crise, dois dos rapazes fazem de rapariga e assunto resolvido. “A parte do treino de que gosto mais é obviamente a parte em que fazemos jogo. É onde se aprende mais e onde o espírito competitivo leva a um maior esforço por parte de todos”, declara Pedro Pereira, 21 anos, aluno do Mestrado Integrado em Engenharia do Ambiente e vice-presidente do núcleo.

No corfebol, as equipas são oficialmente constituídas por oito elementos, sendo que quatro são do sexo feminino e os outros quatro são do sexo masculino. O campo é dividido em duas zonas, a defesa e o ataque, sendo que cada zona deverá possuir dois elementos de cada sexo. É também proibido defender/tirar a bola a um elemento do sexo oposto. Uma outra particularidade deste desporto é que o jogo geralmente passa-se na defesa ou no ataque, uma vez que os atletas da defesa não podem passar para a zona de ataque e vice-versa. Marcados dois golos, trocam-se as posições.

Ainda antes de terminar o treino, faz-se o jogo do “papão” para decidir quem arruma os postes. Os atletas são colocados em fila e os dois da frente têm cada um uma bola. O primeiro a acertar no cesto “papa”, ou seja elimina, o outro jogador. Faz-se isto até sobrar só uma pessoa, a vencedora. Na teoria o vencedor não deveria arrumar o material, mas até esse acaba por fazê-lo com alegria e boa disposição.

Segundo Francisco Vaz, as viagens, os convívios e o ambiente que se vive no Núcleo de Corfebol da Nova (NCN) são os principais motivos para continuar na modalidade. “Já joguei outras modalidades e o ambiente não é tão bom como aqui. Há certas alturas, nas viagens essencialmente, que se nota que somos como uma irmandade”, acrescenta. Para além do ambiente de diversão, que considera ser um dos principais motivos que leva as pessoas a ficar, Pedro Pereira afirma que o facto de as equipas serem mistas “levanta desafios e uma dinâmica de jogo que não se verifica em mais nenhuma modalidade”.

Filipe Valadas, antigo jogador da modalidade, recorda que quando entrou na faculdade em 2011, na licenciatura de Engenharia Biomédica, só nas universidades do norte é que se praticava corfebol. Entretanto, com a ajuda de alguns colegas que também já tinham contacto com este desporto, conseguiram formar equipa e ir aos nacionais de 2012. Mas só em 2014 é que, com o apoio do Gabinete de Desporto da Universidade Nova, foi possível criar um núcleo oficial (NCN), uma estrutura democrática, constituída atualmente por nove membros eleitos. Na presidência e desempenhando o cargo de treinador está o Filipe e na vice-presidência Pedro Pereira e Maria Pia.

Todos afirmam que a equipa e a modalidade tem vindo a crescer. “Temos conseguido ser bons motores do corfebol na universidade”, frisa Filipe que, além de estar à frente deste deporto na Universidade Nova, é o Coordenador Nacional para o Desenvolvimento do Corfebol Universitário. Com contactos nesta área, consegue combinar alguns jogos durante o ano com equipas federadas da zona, uma forma de preparação para o campeonato nacional que ocorre uma vez por ano.

Este ano contou com uma novidade para todos. Além dos habituais jogos, a equipa deslocou-se à Escócia para participar no torneio de Edimburgo, onde participaram equipas de diversos países da Europa. Uma experiência inédita tanto para o treinador como para os atletas. “Para mim foi uma experiência muito boa. Tanto treinador de barba rija e eu ali no meio a gritar por eles”, recorda Valadas. Fruto da constante união, o núcleo ganhou o prémio de equipa com melhor espírito desportivo do torneio. “Fortaleceram-se as relações entre a equipa e isso é algo que também ajuda dentro de campo”, termina Pedro.

O ano passado o Núcleo de Corfebol da Nova foi campeão universitário no campeonato nacional que decorreu em Braga. Este ano o objetivo é o mesmo. A maior ambição da equipa é ser bicampeã nacional no campeonato que se avizinha e que acontecerá em Lisboa. Por ser na capital, Filipe diz que possivelmente terá o maior número de equipas de sempre. “Mas a Nova não tem medo”, conclui.

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