Planetarium: Um Observatório de Criação Musical

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Algures entre o extremo-leste de Lisboa e o início da subúrbia de Xabregas, ergue-se uma fachada gasta pelo tempo. Poderá parecer abandonada, mas alberga um pequeno nicho cultural muito longe de morto. É lá que três alunos da FCSH/NOVA põem à prova um novo conceito de divulgação musical, unindo às tendências vanguardistas da música electrónica um profundo desejo de partilha e descoberta mútua.

O hall de entrada do edifício semi-delapidado traria à memória os clássicos do horror hollywoodiano, não fosse pelos desenhos de crianças afixados às paredes que paradoxalmente lhes conferem um ar de instantâneo acolhimento. De certa forma, é esta a lógica subjacente a toda a decoração do EKA Palace, cuja presença se faz sentir pela iluminação néon acima de uma porta fechada por cortinas. O espaço de intervenção cultural, cujo nome é uma transliteração do sânscrito “unidade”, tem como principal arma o contraste, mas também a renovação: pinturas de diferentes formas e tamanhos brotam das paredes enrugadas, nas quais também se projectam imagens de padrões em movimento; no chão da madeira que range ao pisar estão dispostos puffs reaproveitados, baús reimaginados como mesas e antigos caixotes do lixo como vasos de flores; do tecto suspendem-se guarda-chuvas e pneus de borracha aos bocados. No seio de um grupo de visitantes que se estreavam no local, as expressões “inovador”, “alternativo” ou “modernista” eram as que mais se distinguiam. “Que eu tenha ido, não há outro espaço assim em Lisboa”, comenta Mariana Amorim. “É um conceito único, pelo menos em relação àquilo a que estou habituada”.

A Sala Preta, espaço de concertos do EKA Palace, ainda está practicamente vazia no momento em que se inicia a primeira edição do evento organizado por Diogo Borges, João Churro e Tomás Freitas, alunos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, todos de 21 anos. “O Planetarium é um evento de dança”, explica sucintamente João, ao que Tomás acrescenta: “Sim, de música electrónica, pode não ser só de dança, mesmo que acabe por fugir um bocado à electrónica tem sempre a componente de síntese ou de ritmos, de máquinas.” É este o único pré-requisito do conceito idealizado pelos estudantes, que convidam artistas a actuar pro bono, com o dinheiro angariado pelos bilhetes de 2 euros a ser igualmente distribuído por todos os músicos. Explicitam, com algum orgulho, a origem do nome: “Um amigo nosso lembrou-se que o dia da festa seria o último em que os planetas do Sistema Solar estariam alinhados. Achámos graça a isso e decidimos chamá-lo «Planetarium». Nós, pelo menos, sempre associámos a música electrónica ao sci-fi, às naves espaciais, a todo esse imaginário.”

À medida que a festa progride, o público vê tomar o palco um artista que une tons cacófonos produzidos pelo computador a projeccções da II Guerra Mundial. João entusiasma-se a relatar a performance anterior: “Acho que o Rudolfo é uma cena única, quer dizer, um gajo que faz música 8-bit com uma Nintendo DS e depois põe grindcore por cima…”. O tom pouco usual dos concertos repercutir-se-ia pela noite fora, com rótulos como ambient, drone, fusion ou cyberpunk entre algumas das menções. “Não é a tua música de dança costumeira, é uma coisa realmente diferente”, afirma André Franco, um dos espectadores da performance. “É muito engraçado ver pessoas da tua faixa etária a experimentar com diferentes tipos de sons digitais, e a fazer coisas realmente interessantes que não posso dizer que tenha ouvido muitas vezes.” Outro dos assistentes confessa: “É um tipo de música que não costuma estar nas minhas escolhas principais, mas ainda assim é interessante pela variedade – cada um tem um carácter muito próprio.”

Pelas 3h da manhã, o público vai transitando entre a Sala Preta e o salão principal enquanto Bleiddwn, lisboeta, dá lugar a Lusco, leiriense. Os seus nomes, bem como os dos restantes artistas da noite, são desconhecidos à grande maioria dos assistentes do evento. “Está toda a gente um bocado a começar”, explica Tomás, também ele DJ. “É preciso encontrar estes espaços de abertura a novos projectos, e no fundo o que estamos a fazer é dar oportunidade a estas pessoas para tocar.” Tentando pôr de parte a modéstia, Diogo completa: “É uma cena arriscada, mas acho que é por aí, pegar em música que nós gostamos e que achamos que pode ser ainda melhor e ajudarmo-nos uns aos outros”. Uma ideia bem recebida pelos aderentes à festa, que pareciam não se importar com as pequenas falhas técnicas de um projecto em fase embrionária. “Eu gostava que este modelo de partilha de música crescesse, porque há uma promoção mútua”, opina Gil Gonçalves, 20 anos. “Há o lado dos artistas que vêm a este lugar e que acreditam no projecto, e o lado das pessoas que também acreditam nos artistas quando os convidam para lá ir – é uma rampa de lançamento para ambas as partes. É certo e sabido que a cultura está com muitos problemas em Portugal, pelo que acho que este é o caminho a seguir em primeira instância”.

Aproximando-se o final do Planetarium, já perto das 5h, os anfitriões fazem o rescaldo da noite. “A festa estava cheia de amigos nossos, os amigos trouxeram amigos e no final até lá estavam músicos mais conhecidos, como o Luís Severo e as Pega Monstro. Acabámos por chegar quase às cem pessoas, que era o nosso objectivo”, refere João, enquanto Diogo reclama das condições oferecidas: “Eles só forneceram o espaço e o material, no fundo. É um bocado difícil serem só três pessoas a estar encarregues de tudo… mas ficámos satisfeitos, apesar dos contratempos valeu muito a pena”. Quanto ao futuro, Tomás deixa algumas incertezas: “Quando nasce uma coisa é sempre um bocado pessoal, e é das pequenas vontades de cada um que se vai construindo uma coisa maior. Por enquanto estamos mesmo só a sonhar baixo, no fundo. A ser realistas. Se crescer cresce, e se não crescer continua a ser uma cena local, o que para mim eticamente e artisticamente tem muito mais valor”. “Acho que o facto de ser experimental não o limita de todo” diz Cristina Santos, à saída. “O que há mais aqui é portas para abrir. É muito aquela ideia de ninho, é uma criação para depois então partires daí”.

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