Sea4us: encontrar no mar o que é preciso em terra

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Entre a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e Sagres, em busca de um medicamento para a dor crónica que substitua os opióides.

Apagam-se as luzes e correm-se as cortinas. As portas já estão trancadas e os avisos para que não existam perturbações são colocados. O biotério está completamente escuro, a única fonte de luz vem de um pequeno candeeiro que Beatriz acende. Assim que ficar sozinha na sala, a estudante de mestrado, que colabora com a Sea4us, dará início às experiências em ratinhos de laboratório.

As cobaias são quase sempre fêmeas, pois são mais sensíveis à dor. “Fico cinco a dez minutos com eles para se habituarem”, conta Beatriz. Se os ratinhos são mais calmos ficam nas suas mãos, caso sejam mais assustados ficam no colo. “Mas é preciso haver um distanciamento emocional”, acrescenta. Através de um modelo comportamental são analisados os dados e a resposta dos animais ao grau de dor, e ainda se eles recuperam ou se se tornam mais sensíveis a ela. Esta é apenas uma fase inicial dos testes do analgésico em que a Sea4us está a trabalhar.

A Sea4us começou com Pedro Lima, biólogo marinho de formação. É professor e também investigador e, se o deixassem, “passava a vida debaixo de água”, confessa. É no mar que vai buscar a matéria-prima para desenvolver os analgésicos para a dor crónica, o projecto que está neste momento em curso e no qual os ratinhos são usados como cobaias. Este é um processo com muitas etapas, “à medida que vamos passando estas fases todas, a coisa pode cair”, explica sentado numa cadeira num dos laboratórios da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (FCM-UNL). É em Sagres que se iniciam as recolhas, neste sítio existe um pólo e é onde se localiza a sede da Sea4us.

Durante as sessões de mergulho, Pedro colecta animais invertebrados, como esponjas e anémonas, que têm potencial para serem usadas para o medicamento em desenvolvimento. A escolha é feita com base em muita informação recolhida ao longo do tempo. “Sagres ainda é um sítio com uma biodiversidade muito grande”, avança Pedro. Existem vários animais que vivem em grutas e que resistem aos predadores. Isso significa que foram criando defesas químicas e aí é que está o ponto relevante.

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© Sea4us

“Essas toxinas são as tais que poderão ser seleccionadas, extraídas e depois ser partidas”, esclarece. Depois da identificação das espécies, seguem então para laboratório. Só depois esses invertebrados são transformados em pó e purificados. Esta etapa é realizada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL). Daí, seguem para o pólo na FCM-UNL onde se realizam as experiências e aquilo que vem da FCT-UNL é testado. São analisados os efeitos dessas toxinas com relevância para o projecto, havendo esta troca constante entre as faculdades.

Há um grande risco associado a este projecto. Contam com a colaboração que têm com a Universidade Nova de Lisboa e recebem dinheiro de um pequeno grupo de investidores. É este dinheiro que depois lhes permite concorrer a programas de financiamento público, como por exemplo o Portugal 2020. “Todos esses dinheiros europeus exigem na maioria das vezes uma comparticipação própria”, conta Pedro. Já têm financiamento para uma primeira fase e estão a trabalhar para o da segunda. Têm o objectivo de serem auto-suficientes, “muitas vezes temos o nosso dia de trabalho normal e ao final do dia começamos a trabalhar para a Sea4us”, acrescenta. O projecto exige tempo e dinheiro. No entanto, esse dinheiro por vezes chega com atraso e tudo isso pode pôr em causa o progresso da investigação.

Pedro Lima explica aquilo que terá que ser feito para que um dia o medicamento possa chegar ao cidadão comum. “Já demos alguns passos mas é um caminho enorme”, revela. O que está a ser feito agora são testes em cobaias animais, neste caso os ratinhos de laboratório. Só depois poderá ser aplicado a pessoas. Primeiro será dado a um pequeno grupo de pessoas saudáveis. “A primeira pessoa a provar isso vou ser eu”, conta o mentor da Sea4us. Depois grupos maiores e, numa fase posterior, a doentes. Numa última etapa terá que ser testado em muitas pessoas. Só daqui a cerca de doze anos, se tudo resultar, é que este analgésico poderá ser comercializado.

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© Sea4us

Mas é esse o grande objectivo. André, também parte da equipa do Sea4us, explica que o que existe agora no mercado para a dor crónica causa habituação e dependência, “é um dos piores efeitos secundários”, revela. Pedro apresenta dados que esclarecem que há espaço no mercado para este medicamento, pois cerca de 21% da população humana sofre de dor crónica, “portanto há um mercado também de valor associado enorme”, admite. Seria a junção de uma ajuda para muita gente, pois este medicamento teria o benefício de não causar dependência, e seria dada a possibilidade à Sea4us para continuar a investir noutros projectos paralelos.

A noção de responsabilidade acompanha o dia-a-dia de quem aqui trabalha, mas “é um ambiente muito natural”, André Bastos comenta, revelando como é trabalhar numa empresa que pode vir a estar na origem de um avanço para o alívio da dor crónica, uma doença que causa transtorno a tantas pessoas. Beatriz concorda com esta descrição. Quando se juntou à equipa sentiu algum nervosismo inicial, mas “numa semana estava integrada”. Para a estudante, trabalhar na Sea4us é investigar num ambiente quase familiar, em que “as pessoas são acessíveis, mas acima de tudo são competentes”.

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