Galeria: instantes da segunda casa

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A Raquel Dias da Silva, aluna de Ciências da Comunicação da FCSH/NOVA, registou em imagem o quotidiano de vários universitários que, por força do sonho e da vontade, abandonaram a sua zona de conforto. Vivem, como ela, numa residência universitária. É um testemunho fotográfico e escrito na primeira pessoa. 

Vivo, desde o primeiro ano da faculdade, a quatro horas de autocarro daquele que é o meu lar há doze anos. Senti, por isso, que seria interessante retratar o quotidiano, tão aterrador quanto excitante, de universitários na mesma condição que eu. Reconheço, no entanto, que este projeto, apesar do objetivo, mantém a sua subjetividade, na medida em que o olhar e a forma como outros captariam os mesmos cenários revelar-se-ia indiscutivelmente distinta. Por outro lado, a realidade que abarco trata-se apenas da, potencialmente, experienciada numa residência universitária. Ainda assim, acredito na pertinência do meu trabalho. Afinal de contas, existem, no mínimo, dezenas de estruturas do género em Portugal que, sobretudo por razões económicas, são consideradas a melhor opção.

No Campus de Campolide, a Residência Universitária Alfredo de Sousa (RUAS), propriedade dos SASNOVA, apresenta uma capacidade total de 176 camas e várias áreas comuns. Na RUAS, adquire-se um novo conceito de casa: partilha-se módulos e (na maioria dos casos) quarto, casas de banho, cozinhas, lavandarias e salas. Não se partilha a vida com mais uma, duas ou três pessoas, mas com centenas delas, desde estudantes de licenciatura a de mestrado, portugueses e estrangeiros, até professores. Entre jantares, festas, noites de cinema ou de futebol, há ainda lugar para colegas barulhentos, comida que desaparece dos frigoríficos e congeladores, bicos de fogão estragados e cozinhas à pinha e, claro, salas de estudo sempre cheias em época de exames. Dito isto, pode parecer que não é para qualquer um, mas como se costuma dizer: primeiro estranha-se, depois entranha-se.

André Vital, estudante do 2.º ano de Medicina na FCML

André Vital, estudante de Medicina na FCM/NOVA. Partilha o quarto com o irmão gémeo.

O sono, aqui, tem direito a banda sonora: os aviões que passam, a colega de cima que se lembra de aspirar às tantas, a guitarra do vizinho do lado, os jantares tardios ao fundo do corredor, as festas improvisadas e, por vezes, o silêncio, aquele que se inventa em dias morosos e desgastantes, em que a mente cede tanto quanto o corpo.

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Numa residência, habituamo-nos tanto ao som constante que, às vezes, só é possível acordar com um triiiiim repetitivo. Este relógio amarelo, que relembra os tempos dos nossos pais, foi oferecido à Melissa, estudante de Direito, pelos únicos gémeos da residência, ambos estudantes de Medicina.

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Para quem dispensa o barulho do despertador, há sempre a luz da manhã: as pálpebras que sentem, o rosto que aquece. A uns passos, tão perto da cama, o duche espera por nós. Levantar assim é tão fácil. Exceto quando sabemos que o sortudo que dorme ao lado só tem aulas às duas e nós temos um longo e madrugador dia pela frente.

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O ritual é sempre o mesmo. De manhã luta-se por um lugar à frente do lavatório. Com sorte, somos os primeiros a observar as imperfeições no espelho que parece sempre sujo. Resta-nos a crença de que tudo se conquista de hálito fresco.

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Há quem diga que o tempo da casa de banho é o único tempo a sós que um residente possui. Num espaço tão pequeno, fazê-lo de porta aberta é um privilégio que só os mais ousados arriscam usufruir. Afinal de contas, ninguém tranca as portas: é como no Canadá.

Sónia Costa, finalista de Ciências da Comunicação na FCSH

Sónia Costa, finalista de Ciências da Comunicação na FCSH/NOVA

Este é o 203. É parte constituinte do módulo 203/204, piso 2, corredor norte. A Sónia é a minha colega de quarto, mas durante os primeiros dois anos partilhei o espaço com a Tânia, uma estudante de Antropologia. Há quatro meses não estava ninguém no quarto individual, porque a Lin fora de férias há mais de duas semanas e ainda não voltara. Na verdade não a voltei a ver, mas o 204 já foi frequentado por uma caloira de LLC, uma Erasmus da Colômbia, uma estudante de mestrado e outra de licenciatura em Direito e agora uma Erasmus do Brasil.

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É uma vista como esta, a partir da janela de um quarto, que transforma um espaço pequeno num espaço mágico. Ao pôr do sol, o céu transforma-se de cores e o olhar perde-se no horizonte.

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Para cada quarto existe apenas uma chave (e a suplente). O 203 é tão especial que nem sequer tem suplente. Deve proceder-se à sua entrega sempre que se sai da residência. A Sónia costuma levá-la nos bolsos e eu começo a ter o mesmo hábito.

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Existem três pisos, cada qual com o seu corredor norte e o seu corredor sul, em cujas extremidades é possível encontrar a lavandaria e a cozinha. À noite e de madrugada, quando ainda se encontra vazio, a sensação de filme de terror encontra-se bastante presente.

lavandaria

Existem seis lavandarias para cerca de 176 pessoas. Por vezes, no primeiro piso, no qual só residem rapazes, é possível vislumbrar lingerie por entre vestuário distintamente masculino. Aqui, ainda não há vestígios de invasão feminina.

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Cozinhar é sempre uma aventura. Para sete pessoas é um caos. Um homem a escorrer a massa é disparate garantido: obrigada Rafäel ou André – ainda não se sabe quem cometeu o crime.

escadas

Apesar de existirem elevadores, as escadas são mais utilizadas. O tempo de espera para que a porta metalizada se abra é demasiado. Assim, as histórias acontecem quase todas nos degraus de madeira: pés que descem com pressa, corpos que se arrastam cansados, joelhos de quem nem te forças para subir de pé, porventura algumas quedas.

Paula Mesquita, estudante de Direito na FD-UNL

Paula Mesquita, estudante de Medicina na FCM/NOVA

Estudar na residência significa estar de pantufas. Às vezes, até de pijama e com uma manta de arrasto. Há ainda quem não se coíba de ir, em tais preparos, buscar um café à máquina do rés do chão, piso utilizado frequentemente por alunos da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.

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A partir das varandas é possível apreciar inúmeras paisagens. O azul e o laranja misturam-se, os montes adormecem e as luzes acompanham os caminhos da vida.

Mural de postais criado por Alexandra Greifzu, estudante de Línguas, Literaturas e Culturas na FCSH-UNL

Mural de postais criado por Alexandra Greifzu, estudante de Línguas, Literaturas e Culturas na FCSH/NOVA

Paredes que se decoram, postais que inspiram. Cada quarto são dois mundos e cada mundo é um poço de infinitas possibilidades. Aqui, na(s) RUAS, vive-se, aprende-se, ama-se, partilha-se e sonha-se.

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Sobre o/a autor/a

Nasceu em Évora, mas foi debaixo do sol abrasador do Algarve que viveu a sua infância e adolescência. Quase licenciada em Ciências da Comunicação na FCSH-UNL, orgulha-se de escrever para o Espalha-Factos desde 2013 e de continuar a somar uma longa lista de experiências inesquecíveis. Amante da fotografia, da BD e do teatro, sonha um dia vir a escrever um livro de viagens e, sobretudo, se para tal não lhe faltar engenho, mudar o panorama do jornalismo em Portugal.

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