Saúde 24 Sénior sob o olhar da investigação na NOVA SBE

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A linha Saúde 24 Sénior permanece fora de atividade desde a sua suspensão a 1 de janeiro deste ano. Mais de quatro meses depois, a Direção-Geral de Saúde não prevê o regresso do serviço ao ativo. Na NOVA SBE, Pedro Pita Barros coordena uma equipa de investigação que pretende ultrapassar as lacunas do serviço telefónico que permite o acompanhamento de idosos com mais de 70 anos.

No gabinete 345 da Faculdade de Economia, uma alta janela ilumina o escritório de Pedro Pita Barros, com prateleiras recheadas de livros, onde se podem ler títulos como “Probability and Measure”, “30 anos de Serviço Nacional de Saúde” e “Macroeconomics – A European Text”. Além da extensa bibliografia, pode ainda ver-se uma pequena coleção de computadores Macintosh. “Trabalho com Macintosh desde 1988”, diz Pedro. Prova disso está no antigo e ainda funcional SE 1/40, onde o próprio escreveu a sua tese de doutoramento.

Às 14h00, o gabinete de Pedro Pita Barros recebe o investigador João Lima e Marta Lopes, também investigadora e professora assistente na Faculdade de Economia. O professor está neste momento a coordenar uma investigação que consiste numa avaliação da linha de Saúde 24 Sénior, criada há dois anos. A temática em estudo fora sugerida por Pedro, que tem contacto com várias instituições de saúde em Portugal, nomeadamente com a Direção-Geral de Saúde (DGS), que entrou em contacto com ele a perguntar se podia fazer um estudo. Nós entrámos em contacto com o professor para saber que oportunidades havia”. Foi então que formaram esta equipa de investigação.

O serviço telefónico Saúde 24 Sénior, conta Pedro Pita Barros, tinha como objetivo fazer um acompanhamento mais ativo da população idosa. Fala-se de um contexto em que os media divulgavam cada vez mais notícias de idosos que haviam sido encontrados já sem vida nas suas habitações. Marta explica que, ao contrário da Linha Saúde 24, esta é uma linha de apoio proativa: “O call center liga uma ou duas vez por mês para saber como é que a pessoa está, para fazer uma análise de situação de saúde”. No início deste ano surgiram notícias de que tal linha de apoio seria reformulada. Foi então que surgiu uma parceria com a DGS para fazer uma avaliação dos efeitos da linha telefónica de apoio. “A análise dos efeitos não é apenas uma análise da satisfação as pessoas com a linha”, explica o coordenador.

Marta Lopes e João Lima, investigadores envolvidos neste projeto.

Marta Lopes e João Lima, investigadores envolvidos neste projeto

“O objetivo da nossa pesquisa seria ver se a implementação da linha de apoio aos idosos tinha tido efeitos em termos de recursos de saúde”esclarecem os investigadores. O estudo pretende apurar se com a existência deste apoio telefónico os utentes evitam de ir até aos serviços de urgências e conseguem lidar com os seus problemas de saúde em casa, aliviando assim o Serviço Nacional de Saúde. No fundo, o grupo pretende saber se houve benefícios que justifiquem a sustentabilidade e a abrangência da linha telefónica, conta Marta.

Ao coordenador chegam informações quantitativas, gráficos e números antes da reunião. Quando toda a equipa se junta trocam-se ideias sobre quais serão os passos seguintes e quais os problemas trazidos pelos valores numéricos. O objetivo desta primeira reunião passa por saber se a Linha Saúde 24 sénior atinge toda a população nacional da mesma forma, ou se forma aquilo a que Pedro chama de “efeito de seleção”. Pretende-se saber se as regiões onde as pessoas mais aderem a esta linha são regiões com um nível de educação superior, maiores rendimentos, maior dispersão geográfica. Pedro levanta um problema: O serviço fora criado para idosos que estejam isolados, mas “isolado” não é apenas um conceito tido geograficamente, uma pessoa pode estar isolada e estar no centro de uma grande cidade. E a linha não tinha informação se as pessoas viviam sozinhas ou não.

O ambiente deste primeiro encontro é caracterizado por uma proximidade e uma certa descontração entre o coordenador e os investigadores, não deixando de lado o pendor formal. Numa larga mesa redonda, Marta e João trocam ideias com Pedro, que orienta a investigação fornecendo algumas instruções. Durante cerca de meia hora, o pequeno gabinete acolhe um livre intercâmbio de ideias. Depois da reunião, João Lima afirma que o passo seguinte na investigação passa pela recolha e organização de dados fornecidos até então, numa “análise superficial”, de acordo com a colega, Marta Lopes.

Uma perspetiva da investigação em Economia em Portugal

Pedro Pita Barros descreve o seu processo de investigação como “caótico”, determinado por avanços e recuos. O primeiro passo para por definir o tema a tratar, e depois saber quais seriam as análises mais interessantes a fazer. A partir daí parte-se para uma pesquisa na literatura para ver quem é que já fez estudos semelhantes, para evitar repetições. A partir daí nascem novas ideias e reajustamentos. “Então depois é que se começa a trabalhar”, afirma. “Conforme se vai progredindo vai-se andando para atrás e para a frente, a ver o que estamos a fazer e a comparar com o que outros já fizeram em termos de investigação”.

Relativamente ao apoio financeiro à investigação, Pedro reconhece que foram feitos cortes, dificultando as condições em que se fazem estes projetos. “O que ainda temos pouco” – confessa – “é a capacidade de nos candidatarmos a fundos europeus e em projetos de qualidade a nível europeu. É o salto qualitativo que temos de dar”. De acordo com o coordenador, a investigação em Portugal não é pior quando comparada com a dos outros países, apenas aponta a falta de organização na hora de candidatura para estes projetos, que são tendencialmente feitas “à última da hora”. Em termos relativos, Pedro Pita Barros admite que a investigação na área da Economia é menos penalizada que as outras áreas.

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