IHMT convida a “Um dia com a medicina tropical”

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O Instituto de Higiene e Medicina Tropical abriu as portas ao público nos dias 8 e 9 de abril. Sob o lema “Um dia com a Medicina Tropical”, os visitantes puderam ver mais de perto aquilo que se faz num centro de investigação que conta com mais de 100 anos de história.

O primeiro dia do evento já vai a meio e veem-se alguns estudantes à porta do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT). Ao entrar, o visitante recebe de imediato um guia prático do Instituto, bem como um “passaporte do visitante”, onde se podem juntar vários autocolantes por cada atividade desenvolvida. Se colecionarem todos os autocolantes no passaporte, os visitantes terão direito a um brinde do IHMT.

O terceiro piso do instituto é dedicado à Parasitologia. Ao subir as escadas há reproduções gigantes de vários mosquitos. Num laboratório mais amplo, fica-se a conhecer mais sobre vários insetos, parasitas, vermes, moluscos e outros vetores, isto é, organismos transmissores de doenças.

Dos parasitas mais conhecidos…

Na primeira bancada encontra-se Carla Maia, médica veterinária e trabalhadora na ala de Parasitologia médica, na área da Leishmaniose. A médica admite que muitos dos visitantes associam mais esta doença aos cães, no entanto, a Leishmaniose é uma doença que também se processa no corpo humano. “O parasita é transmitido por um inseto, que se chama flebótomo, não é um mosquito”. As diferenças são consideráveis, desde o tamanho até ao ciclo de vida, passando pela forma do corpo, mais corcunda e peluda do que os mosquitos.

Através de um miscroscópio podem observar-se pequenos organismos em movimento. Os parasitas, avança Carla, passam para o interior das células que protegem o corpo de micro-organismos estranhos, os macrófagos. Estas células são sucessivamente destruídas pela divisão destes parasitas. O fígado, o baço e a medula óssea são alguns dos alvos desta doença, tanto nos humanos como nos aminais. A especialista avança que existe tratamento para a Leishmaniose. “As pessoas com um sistema imunitário não comprometido ficam curadas. Nos cães há cura clínica, mas não há cura parasitológica, ou seja, os cães ficam curados, mas o parasita continua no interior do seu organismo”. A prevenção passa pela vacinação dos animais e pelo uso de inseticidas.

Um pouco mais à frente, um grupo de estudantes está na bancada da Malária. Para além das larvas, é possível observar aqui alguns mosquitos adultos, uma vez que a doença é provocada por um mosquito. Nas amostras podem distinguir-se entre os machos e as fêmeas. De acordo com Tiago Vaz, aluno de doutoramento em malária, “as fêmeas são mais importantes neste caso que queremos estudar, porque são elas que precisam de se alimentar de sangue para poderem por os ovos, e são elas que podem transmitir o parasita”. Isto não quer dizer que todos os mosquitos estejam infetados, adverte. “O parasita vai infetar primeiro uma célula no fígado, vai começar a multiplicar-se e a formar vários parasitas”, clarifica. A célula a certa altura vai rebentar e libertar esses parasitas para a corrente sanguínea. “Na corrente sanguínea, o parasita vai invadindo os glóbulos vermelhos e vai-se novamente multiplicando”, explica Tiago. Nesta altura surgem sintomas como febre, vómitos, mal-estar e fadiga.

Entre as cinco espécies de parasita que infetam o homem, Tiago destaca o Plasmodium falciparum, responsável pela doença no seu estado mais grave. Mostrando um mapa, o estudante explica que este mosquito está mais presente em zonas tropicais e sub-tropicais, e aponta como fatores determinantes a temperatura e as questões de saneamento e acesso à saúde.

Coleção de Mosquitos num dos corredores do IHMT.

Coleção de Mosquitos num dos corredores do IHMT.

… aos mais invulgares

Pelas bancadas seguintes, segue-se a explicação de Silvana Belo, professora na unidade de Parasitologia Médica. Saltam logo à vista uns frascos com lombrigas de grande comprimento. “É um parasita que ocorre mais nas zonas tropicais e subtropicais, em zonas com carências de saneamento básico e de tratamento de água”, esclarece. Este tipo de parasita é mais frequente nas crianças porque são elas que muitas vezes não têm controlo sobre onde colocam as mãos. Os casos mais graves ocorrem entre crianças subnutridas.

Mais à frente, um parasita que, de acordo com Silvana, tem um ciclo de vida mais complexo, por utilizar um molusco de água doce, responsável pela Schistosomose. “A seguir à Malária, é a parasitose mais importante. Dentro do grupo das doenças negligenciadas, a Organização Mundial de Saúde classifica-a como a principal doença com maior impacto na saúde pública”, confere. Trata-se de vermes que podem permanecer dentro do organismo humano durante 20 anos.

Logo ao lado estão exemplares de Fascíola, que existe em Portugal, cuja forma infetante no caso humano aparece enquistada em legumes aquáticos como o agrião. “Se ingerido este legume numa salada, sem ser convenientemente lavada, pode ocorrer uma infeção”, avança a professora, acrescentando que tal situação ocorre no agrião selvagem, e não naquele que se compra no supermercado.

Na bancada à frente estão ténias, conhecidas como “bicha solitária”. Silvana esclarece que este tipo de parasita se encontra sobretudo na carne de vaca e de porco, e que ataca frequentemente o sistema nervoso central, provocando uma doença chamada neurocisticerose, muitas vezes associada à epilepsia. A professora recomenda que se comam estes tipos de carne bem passada.

Dois exemplares que Fascíolas, que podem ser observados através de um microscópio.

Dois exemplares que Fascíolas, que podem ser observados através de um microscópio.

MosquitoWeb: IHMT e cidadãos de mãos dadas

Teresa Novo, professora auxiliar da unidade de Parasitologia, convida a entrar numa sala para dar a conhecer o projeto MosquitoWEB. Trata-te de “um projeto do Instituto que pretende envolver todos os cidadãos na captura de mosquitos e no seu envio para nós”. Teresa explica que um dos objetivos do projeto passa por “detetar o mais precocemente possível a eventual entrada de espécies invasoras no território continental”.  Fala-se de um contexto em que o mosquito-tigre (Aedes albopictus) está a avançar no território europeu, e o mosquito-da-febre-amarela (Aedes aegypti) que já se encontra na ilha da Madeira.

O outro objetivo do projeto está relacionado com as alterações climáticas, que pode levar a uma alteração na distribuição das espécies de mosquitos. Ao detetar eventuais anomalias de distribuição, mais rapidamente o Instituto pode alertar as entidades competentes. “O que queremos fazer é, através da participação da população, reduzir o tempo entre o que está a acontecer no terreno e a tomada de decisão”. No site da iniciativa, fica-se a saber como apanhar os mosquitos e como os encaminhar para o Instituto.

Descendo um lance de escadas, uma porta larga dá acesso a um laboratório. Aqui, as atividades são várias. Num canto dedicado à Micologia podem-se observar vários tipos de fungos. Na ala central do laboratório, dedicada às microbactérias, podem observar-se células infetadas com vírus. Jorge Ramos, técnico superior, explica que aqui se mostram de perto bactérias de vírus como a tuberculose, e se explica como é feito o diagnóstico, formas da doença e tratamento. Do outro lado, explica a investigadora Ana Armada, extrai-se ADN através da recolha de saliva.

Saindo deste laboratório, à esquerda encontra-se a ala de Microbiologia Médica. Os visitantes podem conhecer o interior do laboratório de segurança de virologia a partir de uma primeira sala de entrada. Uma segunda sala dispõe de cabides onde os investigadores se equipam para trabalhar. A partir daí é que se tem acesso ao laboratório em si, uma divisão de pressão negativa, onde o ar é aspirado por condutas e é posteriormente filtrado. José Marcelino, investigador no instituto e diretor da Unidade de Microbiologia Médica, conta que neste laboratório se fazem estudos com vírus de doenças como o HIV, Hepatite C, Febre Amarela e Dengue.

Na secção de Micologia pode-se observar de perto alguns exemplares de fungos dentro de tubos de ensaio.

Na secção de Micologia pode-se observar de perto alguns exemplares de fungos dentro de tubos de ensaio.

“Atrair os jovens para a ciência”

A saída do corredor, é impossível não reparar num questionário que está a ser projetado contra uma parede. Desta forma, os estudantes podem recordar aquilo que aprenderam nos vários espaços do Instituto.

Na sala Fraga de Azevedo decorrem duas palestras. A primeira, dirigida por Zélia Santos, é dedicada à alimentação em época de exames. A segunda, sobre o vírus zika, foi dirigida via video-chamada pelo investigador Vítor Laerte.

À saída, Isabel Maurício, professora auxiliar e responsável pelo Dia Aberto do IHMT, explica que no primeiro dia recebeu cerca de 200 pessoas de várias escolas. Entre os objetivos da iniciativa, Isabel destaca “a ligação à comunidade, mas também uma tentativa de atrair os jovens para a ciência e para tudo o que tem a ver com a saúde e a saúde tropical”. Estas doenças, adverte,  “deixaram de ser só tropicais e estão a espalhar-se pelo mundo, especialmente com as alterações climáticas”.

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