#Livros: Também se falou português nos campos de concentração nazis

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O livro “Portugueses nos Campos de Concentração Nazis”, de Patrícia Carvalho, alumna de Ciências da Comunicação da FCSH/NOVA, dá a conhecer as estórias de portugueses que estiveram nas “mãos” do regime de Adolf Hitler.

O mais recorrente é associar a barbárie dos campos de concentração nazis a uma Alemanha preparada para a guerra e alimentada pelos preconceitos do antissemitismo. É possível também registar as consequências destes lugares nos países ocupados, seja pela destruição dos bens materiais ou pelas milhares de vidas dizimadas. Admitir que um país neutro como Portugal, durante a II Guerra Mundial, teve cidadãos em Auschwitz, Dachau ou Bergen-Belsen, já parece uma ideia mais difícil de engolir. Patrícia Carvalho desmonta parte da História que muitos desconheciam, ignoravam ou preferiam não falar e recordar. Portugal esteve nos campos de concentração nazis. Morreu e sobreviveu lá.

O ponto de partida deste livro começa em 2014 com uma reportagem multimédia do jornal Público assinada pela própria autora. “Portugueses nos Campos de Concentração Nazis – As Histórias dos Portugueses Deportados para os Campos da Morte de Adolf Hitler” nasce como um projeto jornalístico que ganha profundidade e dimensão, de forma exímia, em 256 páginas, pela editora Vogais, com fotografias do premiado fotojornalista Nelson Garrido.

A presença portuguesa em solo nazi revelou a Patrícia Carvalho a necessidade de contar as estórias destes portugueses: a maioria eram emigrantes, alguns eram membros da Resistência francesa e uma ínfima parte era judaica. Sem grandes floreados e assente nos valores do jornalismo, o livro rejeita a ficção e a narrativa histórica. Tudo o que é relatado e escrito resulta da investigação, confirmação e verdade dos factos.

Se a contextualização é imprescindível num trabalho jornalístico, a autora não deixou escapar esta importante componente de guiar o leitor e situá-lo nas problemáticas da época. O primeiro capítulo é a bússola de como tudo se passava na deportação de portugueses para campos de concentração nazis e certamente Patrícia Carvalho tinha noção da importância desta introdução, não fosse, ela própria, uma jornalista. As citações de algumas cartas e telegramas trocados entre políticos e funcionários governamentais são colocadas à nossa mercê e avaliação, com as pontas soltas do que foi e não foi feito.

A identidade dos portugueses foi desvendada a cada capítulo, com mais ou menos detalhes, consoante o rasto que deixaram nos arquivos nazis, nas instituições portuguesas, nos países para os quais emigraram e nas memórias dos seus descendentes. A autora admitiu as falhas dos documentos que encontrou, falsificados à altura dos acontecimentos pelo regime nazi, e as suas próprias ao colocar um ponto de interrogação em algumas datas e apelidos que podiam ser mal interpretados ou traduzidos para a língua portuguesa.

No entanto, mais do que os nomes portugueses, as fotografias de família ou os testemunhos agridoces, o leitor mergulha num manancial de números e viagens de comboio que comprovam parte da estatística portuguesa na Alemanha nazi. Caso o leitor se sinta um pouco perdido com tantos dados, lembre-se que se trata de um trabalho jornalístico com todo o caos a ele inerente. Patrícia Carvalho consegue, porém, organizá-lo subtilmente nesta obra.

“Portugueses nos Campos de Concentração Nazis” não será o livro para rir ou chorar a cada palavra. O mais provável é o leitor sentir a necessidade de fechar os olhos por um momento. As imagens de um campo de concentração e de uma carruagem de comboio sobrelotada formam-se inconscientemente e daí só se quer “fugir”. Talvez a dureza dos pensamentos justifique a reação ou talvez os retratos de família se tornem demasiado reais e nossos. Num abrir e fechar de olhos, aquela passa a ser a nossa História também.

Título: Portugueses nos Campos de Concentração Nazis

Autora: Patrícia Carvalho

Fotografia: Nelson Garrido

Editora: Vogais

Edição: Setembro de 2015 (1.ª)

ISBN: 9789898086730

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Sobre o/a autor/a

Rita Neves Costa

"Jornalista em construção" é como gosto de me apelidar. Voei da Universidade do Porto para o Mestrado de Jornalismo na Universidade Nova. O sotaque do Norte mantém-se, assim como a perdição pelas estórias. Há coisas que são eternas.

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