3 é a conta que Reis fez

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Nascido em Lisboa, viveu alguns anos em Carnaxide, mas rapidamente voltou para a capital. Portador de uma voz inconfundível, Nuno Reis começou uma carreira na rádio muito novo. Hoje, é o diretor da Antena 3. 

Aos 14 anos, Nuno foi convidado por um amigo de uma rádio de Paço d’Arcos – a Rádio Comercial da Linha – para fazer um programa. “Ele sabia que eu tinha um bom gosto musical e já tinha a voz um bocado grossa nessa altura”, lembra. “Então convidou-me para fazer um programa ao fim de semana e, poucos meses depois, convidaram-me para fazer um programa diário.”

Os pais não concordaram totalmente, uma vez que Nuno ainda era muito novo. Porém, com grandes condições, a rádio começou a fazer parte da sua vida. “E a partir daí nunca mais parei”, conta. Nessa altura, os estudos foram ficando para segundo plano.

Há quase 30 anos, “a rádio ainda era um meio muito presente na vida dos jovens. Eu adormecia todos os dias a ouvir rádio”, lembra. Nessa altura, o atual diretor da Antena 3 seguia religiosamente três ou quatro grandes nomes da rádio. Entre eles, destaca Francisco José Viegas, António Sérgio, com o programa “Som da Frente”, António Macedo ou, atualmente, colegas seus, como Henrique Amaro.

Porém, o locutor que mais o influenciou foi Rui Morrison, com “Morrison Hotel”. “Ele muitas vezes falava no início da hora e depois só voltava a falar no fim da hora. Digamos que a conversa era feita pela música, e isso era perfeito”, afirma.

Apesar de licenciado em Ciências da Comunicação, Nuno sempre gostou da rádio pelo lado da música. “Há muitas pessoas que vêm para a rádio ou para a televisão porque gostam de comunicar. Eu nunca tive esse chamamento, para mim a rádio sempre foi música e partilhar música com os outros. É isso que me atrai, a conversa nunca foi o meu mote”.

No entanto, o diretor da 3 gosta de ouvir rádio pelo aspeto mais conversacional. “Hoje em dia o que eu procuro na rádio é a palavra, curiosamente. Eu não gosto de dar, mas procuro nos outros. É o que mais me atrai para ficar a ouvir um programa…sempre gostei de ouvir entrevistas”, revela.

Luís Oliveira trabalha com Nuno na Antena 3 há alguns anos, mas demoraram a desenvolver uma amizade. “Ele é tímido e passa uma imagem de distante”, revela. Eventualmente acabariam por perceber que tinham interesses em comum para além da música: “Hoje em dia diria que temos uma amizade sólida”, comenta. Luís destaca ainda a capacidade que o diretor da rádio tem de aprender depressa e perceber, perante um desafio, quais as suas forças e fraquezas. Para além disso, como amigo, Nuno “valoriza muito o convívio e motiva-se quando está a discutir e a trocar ideias, mesmo que diferentes das suas”.

Pelo meio da sua rotina diária, na qual a rádio ocupa a maior parte do tempo, Nuno gosta de incluir pequenos prazeres. “Jogar ténis, comprar música, livros, filmes” são atividades que privilegia. “Jogar ténis deixa-o muito feliz”, conta Patrícia Castanheira, que conhece o marido há cerca de 30 anos. “Se pudesse fazer uma coisa na vida era jogar ténis”, concorda o radialista. Pelo contrário, “condutores maus e lentos” estariam no top das coisas que mais o irritam.

Para além do ténis, Nuno tem uma grande paixão pelo Benfica, o seu clube desde criança, e considera “ouvir música” um hobby sem o qual não se imagina. “A música tem um papel fundamental na minha vida. Sempre teve. E ainda bem”, afirma.

Atualmente, lamenta a “falta de surpresa” para a qual a grande maioria das rádios tem caminhado. “Uma das coisas boas da rádio é que ela pode surpreender” e, sem esta capacidade, perde-se um pouco a “magia”. Com isto em mente, Nuno tenta estimular a capacidade que os locutores da rádio que dirige têm de surpreender. “Ainda hoje de manhã aconteceu, vinha no carro e a equipa da manhã passou uma música que faz parte das minhas memórias, foi um momento de epifania”, conta.

Hoje em dia, qualquer um pode vingar na rádio. “A voz é uma parte importante mas tem vindo a perder importância”, comenta. É claro que uma boa capacidade vocal é uma vantagem, porém, não tendo a chamada voz “de parar o trânsito”, um bom gosto musical ou mesmo a facilidade em comunicar, “dão a volta a essa característica menos vincada”, garante Nuno.

No entanto, “quem tem uma má voz, uma voz de cana rachada, uma má dicção, dificilmente vai conseguir fazer rádio porque se torna ruído”, acrescenta. No fundo, ter uma boa voz ajuda mas “não ter uma boa voz não condena ninguém a não fazer rádio”, conclui o diretor da 3.

A experiência na Universidade Nova de Lisboa

Apesar de se encontrar num momento mais estável da sua vida profissional, houve uma altura em que Nuno sentia que precisava de “estimular os neurónios”, algo frequentemente deixado de lado com a entrada no mercado de trabalho.

Com pouco mais de 30 anos, candidatou-se então à Universidade Nova de Lisboa e entrou no curso que queria, Ciências da Comunicação. “Foi uma experiência espetacular em várias áreas”, afirma.

Desde ler coisas que, sem ser num contexto universitário não leria, a questionar coisas que habitualmente consideramos adquiridas, ou mesmo interessar-se por matérias como Sociologia da Comunicação, vários foram os fatores que contribuíram para uma experiência universitária que Nuno caracteriza como “para lá de enriquecedora”.

Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, descobriu “professores espetaculares, outros nem tanto”, e teve a oportunidade de conviver com “crianças”. “Essa frescura foi uma coisa muito estimulante, fazer trabalhos de grupo com miúdos de 17 anos, por exemplo”, conta.

“Era um aluno interessado e com um desempenho coerente com o facto de ser alguém que já tinha uma vasta e exigente experiência profissional”, lembra Sérgio Mah, professor na FCSH. Hoje, o docente e Nuno são amigos, tendo sido o ténis a paixão que os aproximou. “Ambos somos adeptos e praticantes obstinados deste desporto. Passámos a jogar com regularidade e rapidamente nos tornámos amigos. Além disso, temos outros interesses em comum”, conta Sérgio.

A trabalhar em simultâneo, Nuno demorou seis anos a concluir a licenciatura. “Foram tempos entusiasmantes, às vezes cansativos, complicados de gerir com o emprego”, lembra. Porém, há que ver o lado positivo: “Assim até tive descontos nos museus durante mais tempo”.

Três anos após terminar o curso, Nuno é o diretor da Antena 3 e caracteriza-se como alguém que adora o que faz. “É uma sorte espetacular gostar do que se faz todos os dias. É meio caminho andado para se ser feliz”, afirma.

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Sobre o/a autor/a

Estudante de Ciências da Comunicação. Aspirante a jornalista. Viciada em escrever e cozinhar. Fotógrafa amadora de tudo e mais alguma coisa.

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