Maria José Fazenda, a bailarina no palco da antropologia

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Começou a dançar por hobby na sua terra natal em Faro. Quis uma formação mais aprofundada e inscreveu-se na Escola de Dança do Conservatório Nacional. Maria José Fazenda foi bailarina e uma das primeiras mulheres a abordar a dança na antropologia em Portugal. Já não pisa os palcos, mas é protagonista de aulas, conferências e cursos de dança.

O caminho é feito através dos corredores labirínticos da Escola Superior de Dança (ESD), na Rua Academia das Ciências, em pleno Bairro Alto. Maria José Fazenda dirige-se para uma das primeiras aulas da manhã: História da Dança. São nove em ponto, o projetor já está ligado e as alunas do primeiro ano da licenciatura em Dança começam a chegar. Hoje a aula vai ser sobre o ballet de corte nos séculos XVI e XVII. Pode ler-se na projeção. “Descrevam o que viram”. É com este pedido sobre o prólogo e primeiro ato d’ A Bela Adormecida, avançando até ao século XIX, que Maria José se começa a dirigir às 12 alunas. Tem sido assim há quase 30 anos.

João dos Santos Martins, aluno de Maria José entre 2007 e 2010, destaca a forma como a professora estimulava as generalidades da dança. João começou apenas as suas aulas de dança na ESD. Antes só tinha tido um grupo amador. Maria José Fazenda foi uma das poucas pessoas que acompanhou todo o seu percurso profissional. Por isso, foi gratificante ter recebido, este ano, o prémio de Melhor Coreografia da Sociedade Portuguesa de Autores, com Projeto Continuado, sendo Maria José uma das juradas.

Revela que se acompanham mutuamente e que a investigação de Maria José é “um trabalho muito singular em Portugal na teoria sobre a dança coreográfica”. Não se esquece de que quando ia viajar, era a professora Maria José que lhe aconselhava os espetáculos que devia ver. “Ela é uma pedagoga muito apaixonada pela sua atividade”, resume.

Mas o ensino em dança começou no outro lado da rua, na Escola de Dança do Conservatório Nacional. Depois de ter feito uma formação de professores no Royal Ballet em Londres, Maria José foi convidada para dar aulas do primeiro ao terceiro ano. Se esta foi a sua paragem de 1985 a 1987, o seu caminho na dança começou no Algarve, no Conservatório de Faro. Foi aqui que a coreógrafa Madalena Victorino conheceu a jovem Zé, como lhe gosta de chamar. “Ela era mesmo muito jovem e tinha uma trança. Lembro-me lindamente”, recorda.

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Em provas no Conservatório. Maria José Fazenda entra na Escola de Dança do Conservatório Nacional em 1983.

Contudo, a jovem Zé começou a sentir a necessidade de ter um treino da dança além da atividade extracurricular. Interessou-se de tal forma, que “obrigava” a sua família a deslocar-se para Lisboa, onde fazia cursos de verão. “Havia este meu interesse pela dança e por seguir um percurso mais sério e mais diário. Percebi que aquela formação era insuficiente”, assume. Os cursos da Companhia Nacional de Bailado ou cursos organizados pela Gulbenkian foram o incentivo de que precisava para fazer uma audição ao quinto ano da Escola de Dança do Conservatório Nacional.

“Nessa altura, entrei eu e outra colega minha, que neste momento é minha colega também.” Fala de Vera Amorim. Atualmente, ambas percorrem os mesmos corredores na ESD. “A primeira imagem de que eu me lembro da professora Maria José Fazenda é dela à espera no átrio da Escola de Dança do Conservatório para entrar na sua audição.” Nesse ano estiveram as duas na mesma turma, quando terminaram o curso deixaram de ter contacto e voltaram a reencontrar-se na ESD. Desta vez era Maria José professora e Vera Amorim aluna.

Foi também neste período no Conservatório que Gil Mendo, o atual programador de dança da Culturgest, conheceu Maria José. Gil Mendo era professor na EDCN e reconheceu em Maria José uma aluna talentosa como bailarina e com fortes interesses nas questões culturais e teóricas. “Começámos por ser estudante e professor, tornámo-nos amigos e mais tarde colegas na Escola Superior.” O programador da Culturgest destaca o prazer de Maria José no “conhecimento rigoroso” e revela que muitos dos espetáculos que agenda os vê com Maria José.

Mas ainda com aulas de dança no Conservatório, Maria José Fazenda inscreveu-se em Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. “Queria fazer Antropologia, não tinha dúvidas sobre isso.” Foi um período muito exigente, como a própria assume. Um dos pontos positivos era o facto de viver num lar de estudantes em São Sebastião da Pedreira, um local muito central. “Agora fechou e é um hotel de luxo, mas ainda lá está a janela onde era o meu quarto”, recorda com nostalgia.

Na Avenida de Berna, onde se situa a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, descobriu que a antropologia e a dança se podiam conciliar. Numa turma relativamente pequena, os professores acompanhavam de perto a sua atividade. “Todos aqueles professores com quem eu trabalhava sabiam que eu fazia dança. Aliás, um deles, o Jorge Fragoso, o saudoso Jorge Fragoso, chegou a vir aos meus exames no Conservatório Nacional.”

Estranhezas é uma peça estreada em 1990. Com coreografia de Paula Massano, Maria José Fazenda destaca também o contacto com dois outros criadores que apreciava muito: o compositor António Miliano, com quem tem mais tarde uma relação amorosa e com o Nuno Carinhas, que na altura fazia essencialmente trabalho de figurinos e de cenografia.

Estranhezas é uma peça estreada em 1990. Com coreografia de Paula Massano, Maria José Fazenda destaca também o contacto com dois outros criadores que apreciava muito: o compositor António Emiliano, com quem tem mais tarde uma relação amorosa, e com o Nuno Carinhas, que na altura fazia essencialmente trabalho de figurinos e de cenografia.

Nas aulas apontava todas as referências alusivas ao corpo e quando viajava aproveitava para comprar livros de antropologia que não existiam em Portugal. Ainda se recorda quando descobriu Anthropology of Dance, de Anya Peterson Royce. “Quando fui a Londres e descobri o livro disse: ‘Existe uma coisa que se chama antropologia da dança, que é o que eu quero fazer'”, relembra com entusiasmo. Foi a partir daí que descobriu que existiam antropólogas que tinham sido bailarinas e que tinham criado algo que se chamava Antropologia da Dança. Em plenos anos 80, enviou-lhes cartas para os EUA. “Tenho cartas da Joann [Kealiinohomoku] escritas à máquina.”

Tal e qual como as antropólogas Cynthia Novack ou Susan Foster, Maria José Fazenda teve experiência como bailarina. Dançou no Dança Grupo, com Paula Massano e com Madalena Victorino. Madeira Matéria, Materiais Pretexto para uma Ideia de Dança  é uma das peças que melhor recorda. O espaço era o Museu da Água e dançava com um engenheiro num espetáculo criado propositadamente para os dois. A preparar o espetáculo Companhia Limitada no Teatro Nacional D. Maria II, Madalena Victorino revela: “Naquela altura eu arranjava os elencos pelas pessoas que me aconteciam na vida. A Zé nessa fase aproximou-se muito de mim e da minha vida. Portanto, era natural que ela participasse”.

Madeira Matéria, Materiais Exportados para uma ideia de dança criada, em 1989, por Madalena Victorino. A criação foi pensada para Maria José Fazenda, bailarina, e José João Henriques, engenheiro civil. A criação e análise começou por ser feita na casa da própria coreógrafa.

 Madeira Matéria, Materiais Pretexto para uma Ideia de Dança criada, em 1989, por Madalena Victorino. A criação foi pensada para Maria José Fazenda, bailarina, e José João Henriques, engenheiro civil. A criação e análise começou por ser feita na casa da própria coreógrafa.

Foi ainda no Dança Grupo que encontrou Vera Amorim de novo e ainda chegou a dançar dois espetáculos. Mas confessa: “Para mim o que era importante era a construção das peças”. Ainda chegou a fazer uma audição para o Ballet Gulbenkian, em que não entrou, mas para si o mais importante era a experiência. “O dançar era importante, mas não o estar em palco. Isso eu percebi muito rapidamente. Hoje eu tenho um prazer infinito em dar uma conferência.”

Maria José Fazenda em Diário de um Desaparecido filmado na Tapada da Ajuda, em 1992 , para a RTP.

Maria José Fazenda em Diário de um Desaparecido filmado na Tapada da Ajuda, em 1992 , para a RTP.

Paula Teixeira, amiga há 18 anos, revela o contágio que Maria José causa com as conferências. Além do interesse profissional, a editora executiva da Agenda Cultural de Lisboa, diz que a amiga lhe vai contando pormenores. “Depois, é difícil resistir a conhecer a versão final”, remata Paula.

“Eu vejo as pessoas e eu gosto de ver as pessoas com quem estou a comunicar”, afirma Maria José sobre a sua interação com o auditório. É por isso que se encontra hoje a dar aulas na Escola Superior de Dança. A aula já vai a meio e as alunas não se restringem a fazer questões. “De onde é que isto vem? É uma boa inquietação”, diz Maria José sobre os desafios colocados pelas suas ouvintes. Mesmo estando no século XVII, as comparações da professora com a atualidade não param: “Quem fazia as suites eram os DJs da altura. Era música alive”. Surge a animação geral na aula.

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Alunos de 2004 como Bruno Alexandre – que se estreia hoje (29 de abril), como intérprete, Antes que matem os Elefantes, com a Companhia Olga Roriz – ainda sentem o eco das aulas de Maria José. “As questões que eram trabalhadas nas aulas ainda ressoam em mim, e duma forma particularmente vibrante agora que me encontro num duplo desafio: o de coreógrafo e o de estudante de Mestrado em Artes Cénicas na FCSH, que se está a propor criar ligações entre Dança e Cinema.”

Foi como coreógrafo em Cinemateca que Bruno ouviu um feedback muito positivo da sua antiga professora. Enquanto intérprete diz que, mesmo mais tarde, chega-lhe sempre a sua opinião e confessa: “Sabe sempre bem”.

Desde 1988 que a Escola Superior de Dança tem sido parte da casa de Maria José. A Comissão Instaladora da ESD convidou-a para lecionar uma nova cadeira: Antropologia da Dança. Começou com um seminário e depressa se estendeu para uma disciplina. Foi logo nesse primeiro ano que encontrou como aluna a atual Diretora da Escola Superior de Dança, Vanda Nascimento. Vinda aos 25 anos da Escola de Dança da Secretaria de Estado da Cultura, em Angola, Vanda destaca: “Posso dizer que a Maria José foi uma pessoa muito importante na minha formação, porque eu tinha uma formação muito prática”. Foi uma abertura ao conhecimento e à escrita. “Ainda hoje quando escrevo um texto é à Maria José a correr que eu vou. E quando ela me dá a apreciação eu fico super descansada.”

Hoje Maria José alargou o leque das suas disciplinas na ESD. “Depois de ter feito todo esse trabalho de caráter antropológico foi importante retomar a importância da história,” afirma. Daí surgiu como professora de História da Dança. “Onde é que o criador se situa, onde é se posiciona, de que lugar ele vê o mundo?Trabalhar sobre um criador em Portugal é diferente de um criador que está em Inglaterra ou que estava nos EUA,” explica. Outra das suas disciplinas é Apreciação da Dança, que conta com a sua experiência de dez anos no jornal Público.

Durante muito tempo fez um trabalho que classifica como obsessivo a nível da escrita de dança. Desde entrevistas, previews e críticas, a sua ideia sempre foi uma: “Estou a escrever para um leitor que não conheço. Eu não escrevia para o artista nem para o bailarino”. E como é que o fazia? “Eu lia muitas vezes uma secção que havia no Público que eram as cartas ao Diretor.” Aí percebia quem eram os leitores do jornal. “Essa era a minha bitola.”

Dessa altura recorda-se das entrevistas que fez a Yvone Rainer, a Merce Cunningham ou a Bill T. Jones. Também não esquece os grandes jornalistas e os diretores com quem foi contactando e aprendendo. Relembra com saudade Vicente Jorge Silva e recorda a confiança depositada nos colaboradores: “Para sair ao estrangeiro e ver obras eu dizia: ‘Vicente olhe, eu acho que isto é muito importante porque a obra vem cá e eu tenho expetativas que ela seja muito importante’. Ele olhava para mim e dizia-me: ‘Você acha que isso é mesmo importante?’ E eu dizia: ‘É, é muito importante’. ‘Então vá, vá tratar da viagem’.”

O seu interesse pelo jornalismo começou na sua adolescência, ainda quando estava no Algarve. A adolescente Maria José recolhia notas, entrevistas e fotografias, depois publicadas no Correio da Manhã. Ainda sem carta de condução, precisava de ajudas e foi aqui que entrou a sua tia Glória Pereira. A tia levava ao local e ainda hoje se recorda duma situação em particular.Num domingo pela manhã, fui acompanhar a ‘jornalista’ a uma lixeira a céu aberto, junto à Ria Formosa, perto de Olhão, onde viviam famílias em barracas e onde as crianças brincavam enquanto procuravam restos de comida.”

Assume nunca ter sido escritora e para entrar nos artigos, lia Eça de Queirós para apurar a pontuação e Proust para aperfeiçoar a descrição. Saiu do jornal em 2002: “Acho que é preciso renovar e depois apareceram outros jovens como a Lucinda Canelas”.

Outros dos motivos pelo qual deixa de colaborar no jornal é por não conseguir conciliar com o trabalho académico. Diz que não é de fazer as coisas a meio. “Tenho muito esta presunção de ser útil. Penso sempre como posso ser útil em determinado contexto e para a comunidade.” É por essa presunção que continua a fazer conferências, não necessariamente para um público especializado em dança, como é o caso do Curso de História da Dança na Companhia Nacional de Bailado (CNB).

Numa sala de aulas adaptada dentro de um estúdio no Teatro Camões, Maria José é auxiliada por Pedro Mascarenhas, antigo bailarino da companhia e atual assistente no Departamento de Comunicação. O curso faz um percurso pela História da Dança permitindo aos alunos verem ensaios e espetáculos da CNB. A sala preenche-se com médicos, advogados, psicólogos ou professores de dança e para Pedro tudo tem resultado porque a Maria José “é super comunicativa, tem uma abordagem muito prática e muito acessível”.

Revela que quando era bailarino acompanhava os seus artigos no Público. Pessoalmente, apenas a conheceu há dois anos a propósito da conferência sobre o bailado Quebra Nozes. Desde ali que o debate entre os dois começou e ainda hoje Pedro confessa: “Às vezes estamos em desacordo, mas de uma forma muito boa. Ok, eu vou perceber o que me estás a dizer.”

Para uma das capacidades que mais elogia em Maria José é a sua posição de isenção sobre o que está a falar. “É deslumbrada mas sem o ser, sem a influenciar. Ela consegue falar num período, numa época e num bailado independentemente daquilo que ela acha e isso é extraordinário.”

Quanto aos espetáculos, continua a acompanhar. “Tenho arquivos de notas sobre muitos espetáculos a que assisti, que me são sempre muito úteis para as aulas e futuramente para textos”. Um dos últimos a que assistiu foi Rule of Thirds, protagonizado por quatro dos seus antigos alunos. “Também tirei essas notas e depois passei para computador. Fica logo tudo limpinho.”

Margarida Belo Costa foi uma das alunas desse espetáculo e foi com prazer que recebeu o sorriso e a felicitação da sua antiga professora na estreia da peça. Aluna entre 2009 e 2012, recorda as aulas como “momentos de partilha”. Assume que as suas lições a ajudaram enquanto espetadora e na passagem para a vida profissional. “Ajudou-me no sentido de contextualização, relativamente à inserção do meu trabalho enquanto bailarina e criadora nos dias de hoje, ao tipo de pensamento e à sua análise.”

Também é Maria José que leva os seus amigos a espetáculos. Susana Pina é amiga de Maria José desde 1996 e revela que quando quer levar os seus filhos a espetáculos recorre a Maria José. Faz questão de destacar o sentido de serviço público da sua amiga e Presidente do Conselho Técnico-Científico: “Tenho-a visto recusar alguns convites para cargos, que seriam, a vários níveis, apetecíveis”.

Revela a personalidade multifacetada da amiga Maria José: “Na mesma conversa, podemos entrar num registo confessional e psicanalítico, discutir acirradamente qualquer assunto da atualidade e transitar abruptamente para wishlists de malas e sapatos”. Também Madalena Victorino destaca em modo divertido que a sua Zé se veste muito bem e é muito atenta à sua imagem. É assim que uma das suas alunas em aula, Sara Pereira, também a classifica: “Ela é uma diva”. As restantes colegas aprovam.

A aula está quase a terminar. Depois de se falar sobre os espetáculos do Rei Sol, as folhas de sala e de se questionar de onde vem o ballet, chegou a hora de falar das danças sociais da época. Maria José Fazenda levanta-se e começa a exemplificar o minuet, uma dança em fila, em que duas estudantes a ajudam. Susana Vilar, uma das alunas na aula, destaca a valência desta disciplina estrutural: “Consigo relacionar o conceito da dança com a dança que eu faço todos os dias”. É isso que a professora Maria José Fazenda pretende.

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Quanto à sua dança, mesmo que já não seja em palco vai ser sempre parte da sua vida. “Continuo a ver a dança como uma profissional, como um escritor ou alguém que estuda literatura, que certamente não poderá deixar de ler o maior número de livros possível.”

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