Twinning: ser médico e português por seis dias

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Estudantes de Medicina de Portugal e da Áustria trocam de país durante uma semana, num programa de intercâmbio onde todos ganham. 

Dez horas da noite, o Campo de Santana dorme. Uma rapariga abre a porta da Associação de Estudantes, entrando atrás dela um grupo de doze pessoas. Tratam dos últimos preparativos para receber os 14 estudantes de Medicina da Universidade de Viena. O projeto chama-se Twinning e permite, durante o mês de Março, o intercâmbio de alunos de Medicina entre Portugal e Áustria.

O encontro acontece no espaço da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Médicas, marcando o início da primeira fase do projeto: a incoming week. Para contrastar com as paredes brancas da sala está uma mesa com uma pequena ceia para os estudantes que acabam de chegar. Ainda com muitas formalidades, e sempre em inglês, a coordenadora do projeto, Rita Gano, dá as primeiras diretrizes ao grupo de recém-chegados.

“Os alunos austríacos foram previamente distribuídos pelos alunos portugueses. Ficam a viver em nossa casa durante estes dias. São os nossos twins” (designação inglesa para irmão gémeo), esclarece Marta Santana, 19 anos e estudante de segundo ano. Marta vive com Sofia do Vale Lima, também de 19 anos, estudante do primeiro ano, e são amigas há alguns anos. Ambas participam no projecto. “Como vivemos juntas, tivemos duas raparigas a viver connosco durante esses seis dias. No princípio, com o desconforto normal de viver em casa de alguém desconhecido, apoiaram-se bastante uma à outra e ficaram rapidamente amigas”, explica Sofia.

São poucos os estudantes austríacos que se conhecem entre si. A participação neste projeto permite que se criem laços dentro dos grupos de cada nacionalidade e também dentro do grupo geral. “Passámos 24 sobre 24 horas com estas duas raparigas, estranho seria se não se tivesse criado qualquer tipo de empatia”, continua Sofia.

Programa apertado em Lisboa

O programa apertado deixava pouco tempo para descansar. Ao fim do terceiro dia de atividades o cansaço era claramente visível. Todos os dias havia um plano a ser cumprido. Nos primeiro e penúltimo dias, o grupo visitou o edifício da Faculdade de Ciências Médicas, atribuindo-se, nestas visitas, especial destaque para a Sala dos Atos, destinada a conferências e cerimónias formais da instituição, e para o Teatro Anatómico, onde decorrem as aulas práticas da cadeira de Anatomia.

“Apesar de não serem pessoas que se deixam impressionar facilmente, viu-se claramente o espanto ao entrarem na nossa Faculdade. Repetiram várias vezes que o edifício era bonito e que em nada se assemelhava à deles. Gostaram especialmente do Professor que os recebeu no Teatro Anatómico. Acharam-no muito acessível”, conta Marta.

Os restantes dias de intercâmbio destinaram-se a conhecer Lisboa. A visita à baixa Lisboeta foi marcada pela chuva, o que não deixou o grupo muito motivado, mas talvez tenha sido a atividade de permitiu compreender melhor o contraste das culturas austríaca e portuguesa. “Eles nunca tinham visto um graffiti como expressão artística. Explicaram-nos lá têm apenas paredes riscadas sem sentido ou forma. Dissemos-lhes que em Portugal era muito associado à marginalidade e ao vandalismo. Aquilo que para nós é banal e mundano para eles é arte”, revelou Marta. “E os prédios todos diferentes. Estranharam que os edifícios em Lisboa não fossem todos iguais”, continua. Destacaram, ainda, as visitas a Sintra e a Belém como pontos altos da semana. Numa das noites assistiram a uma festa de tunas no Príncipe Real. “Acho que foi a única atividade que eles não apreciaram tanto. Na Aústria não existe aquilo que nós chamamos de tradição académica, não há trajes e por isso não há tunas. Acharam o espetáculo muito estranho”, conta Marta.

O final da semana em Portugal chegou rápido e o desejo de ficar mais uns dias era visível em todos os estudantes estrangeiros. “Como vamos para Viena na última semana de Março as despedidas não foram muito longas. Foi mais um até já que uma despedida a sério”, revela Sofia, com uma nítida vontade de rever os seus amigos austríacos. Ambas fazem um balanço positivo do projeto. Destacam especialmente a possibilidade de conhecer novas pessoas dentro e fora das suas zonas de trabalho. Garantem que não se arrependem de participar no projeto de Twinning.

O grupo português parte para Viena no próximo dia 18 de março, sexta-feira, para que se possa completar a segunda fase do projeto: a outcoming week. As expetativas são elevadas. Para além de uma viagem por Viena, esperam conhecer o que é a realidade clínica e os métodos de aprendizagem austríacos. Confessam, contudo, que esta viagem significa o terminus deste projeto ao qual tanto, e tão rapidamente, se afeiçoaram. “Sei que, apesar da distância, nenhum de nós ficará indiferente às relações que aqui se estabeleceram. Somos. Sentimos, que na verdade, somos efetivamente twins”, confessa Marta, já nostálgica.

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