Em busca do 20, na universidade e no desporto

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Os alunos ao abrigo do regime especial para praticantes de desporto de alto rendimento têm dificuldade em conciliar a sua vida desportiva com a académica.

João Tiago Pereira Rodrigues é aluno de primeiro ano da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA) na licenciatura de Ciência Política e Relações Internacionais. Entrou neste ano ao abrigo do estatuto de atleta de alto rendimento. Em 2014, foi campeão nacional de Judo no escalão Cadete sub18 e ficou no pódio em anos anteriores. No mesmo ano, também foi campeão nacional de Jiu Jitsu dentro do seu peso e na categoria de absoluto, onde combatem pesos diferentes. Contudo, apesar de tantas honras a nível nacional, para conseguir o estatuto precisou de vencer uma luta no Campeonato Europeu de Judo sub18 de 2014, em Atenas.

Até agora só utilizei o estatuto para fisioterapeuta, entrar na faculdade e conseguir mudar o horário para facilitar os treinos, por isso ainda não sei se vou revalidá-lo”, diz João. “Se tivesse avaliação contínua, se todas as semanas tivesse uma ficha ou mesmo uma folha de presenças, seria mais complicado.”

Francisca Marques, também estudante da FCSH/NOVA, é internacional portuguesa sénior de andebol, e joga no Colégio João de Barros de Pombal. É aluna de terceiro ano no curso de Línguas, Literaturas e Culturas. Diz que nunca teve grande problema a conciliar tempos e, sempre que isso acontece, dá prioridade aos estudos. É a única aluna da sua faculdade que manteve o estatuto activo do ano anterior para este. Um caso pouco comum.

Não conseguimos perceber se os alunos mantêm ou não o estatuto de ano para ano”, afirma Paulo Silva, coordenador do gabinete de desporto da SASNOVA, que todos os anos recebe a lista dos alunos que entraram na universidade ao abrigo do estatuto. Porém, a lista vem apenas com os seus nomes, sem qualquer contacto. Para contactar esses alunos, tem de os procurar no Facebook e enviar uma mensagem pela rede social. Apenas pode falar sobre os que respondem e sobre esses diz que, muitas vezes, não revalidam o estatuto nos serviços académicos.

O motivo dessa desactivação varia de unidade para unidade. Na FCSH/NOVA e na NOVA School of Business and Economics o motivo da não-renovação é “positivo”: há muita flexibilidade por parte dos professores e dos serviços académicos para mudança de frequências e horários para compatibilizar com os treinos e provas. No entanto, parecem ser a excepção, pois na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) os casos de pausa, ou mesmo abandono, na modalidade ou no curso, são mais frequentes por diferentes motivos.

Paulo menciona inúmeros casos. Em Medicina destacam-se dois: um aluno que abdicou do estatuto por medo de represálias, e o de uma aluna que pôs em pausa a sua possível ida aos Jogos Olímpicos para terminar os últimos três anos de curso. De acordo com Tiago Lopes, treinador desta aluna, a faculdade não esteve disponível para negociar os tempos fora de avaliação para treinar. Agora, já com o curso terminado, regressou ao treino em busca do bilhete para os Jogos Olímpicos.

Para Paulo, os casos da FCT estão ligados às avaliações presenciais que ocorrem quase semanalmente às quartas-Feiras e sábados. O problema é o sábado, um dia muitas vezes utilizado para torneios e provas. “Alguns professores da FCT não deixavam o aluno repetir a frequência, apenas os mandavam para exame com o peso da frequência.” Para o coordenador do desporto da SASNOVA, enquanto os casos da FCM são sobretudo devido à exigência do curso, os da FCT estão relacionados com a falta de receptividade para estes assuntos.

Nas restantes unidades da NOVA, estes casos são menos comuns. Na Faculdade de Direito, onde são poucos, ou como neste ano nenhum, os alunos que entram ao abrigo deste estatuto, houve duas ou três queixas no passado, diz Paulo, mas nada de recorrente. “São demasiado poucos os que entram com o estatuto.”

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