Comer bem dos oito aos oitenta

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Investigadores da NOVA estão a realizar um programa de diagnóstico e intervenção na área da insegurança alimentar, usando um canal de televisão e uma aplicação para smartphone.

Jorge Barata ainda se considera uma pessoa ativa, embora a sua mobilidade esteja agora mais limitada. Hoje, está no centro de saúde para as consultas de diagnóstico do projeto piloto Saúde.Come, uma iniciativa da Faculdade de Ciências Médicas da NOVA, que quer chegar aos participantes através das novas tecnologias: um canal de televisão para os mais velhos e uma aplicação para os smartphones dos adolescentes.

“Desenvolvemos para os idosos uma aplicação de TV onde libertamos, ao longo de 12 semanas, conteúdos de saúde, dicas de nutrição, exercício físico, lembretes, questionários, num canal (650) disponível nas três operadoras de televisão”, explica Rute Sousa, gestora do projeto. Quanto à intervenção nos participantes mais jovens, descreve-a como “mais tecnológica”, com a criação de um site interativo e de uma aplicação para Android, onde os temas serão idênticos aos do canal de TV, mas a abordagem será mais focada na interatividade.

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O programa de intervenção centra-se em conteúdos saudáveis e de baixo-custo: “as receitas são a baixo preço, o exercício físico é feito em casa (com pacotes de arroz, vassouras, cadeiras), não é preciso ser rico para se ter um programa de intervenção.”

O projeto arrancou no início deste ano com uma equipa da FCM, que recrutou os participantes em centros de saúde da região de Lisboa, onde procuravam pessoas com mais de 60 anos. O Saúde.Come foi também ao Externato Cooperativo da Benedita, onde escolheram 400 alunos, entre os 12 e os 13 anos, bem como os seus encarregados de educação e diretores de turma. Para integrarem o projeto, todos os participantes devem identificar a sua alimentação como insegura, ou seja, “a perceção de ter um acesso limitado em termos de qualidade e quantidade aos alimentos saudáveis”, tal como explica Rute Sousa.

“Este é um inquérito nacional sobre insegurança alimentar e os seus determinantes, mas como profissionais de saúde que somos, não queríamos apenas fazer um diagnóstico, queríamos também desenhar algumas linhas de intervenção”, diz Rute Sousa, no início de mais um dia de consultas de diagnósticos à população idosa, desta vez no Centro de Saúde de Amora – Seixal.

Na sala de espera estão os participantes que antes foram abordados por membros da equipa de investigação. Agora é a hora de serem consultados por um médico, uma nutricionista, uma fisioterapeuta e, por fim, fazerem análises ao sangue. A dinâmica de recolha de dados está montada, depois é a vez da intervenção e no fim só falta avaliar os resultados.

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Jorge Barata, um dos participantes, a realizar um exercício para o diagnóstico de fisioterapia

A população será divida em dois grupos: um experimental e outro de controlo. No primeiro, o participante passa pelas três fases do projeto (diagnóstico, intervenção e avaliação), na segunda vertente o participante não passa pela fase de intervenção (feita através do canal de televisão). No fim, são comparados os dois tipos de participantes e verificar-se-á os resultados obtidos na vertente experimental. Inicialmente, o canal só estará disponível para os participantes do projeto, mas se os resultados finais forem satisfatórios, a gestora do projeto considera avançar para a abertura do canal a todos os portugueses: “Criámos um canal exclusivo desta temática porque queremos controlar a resposta dos nossos participantes, isto não implica que depois não libertemos este canal para que todas as operadoras possam aceder”.

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Jorge Barata na consulta de enfermagem

Para a participante Nurjabegam Vali, este projeto é “uma maravilha”. A senhora, de 70 anos, mostrou-se motivada por participar neste processo de diagnóstico e também na intervenção a partir do canal da televisão: “Se me derem o número do canal eu vou ver”. Quanto ao conceito de insegurança alimentar, a utente não conseguiu explicar por palavras científicas, mas disse-o de outra forma: “Eu sou reformada e a minha reforma não me permite comer como deveria ser”.

O principal objetivo da ONU para o milénio é erradicar a pobreza extrema e a fome. Neste seguimento, a UE apresenta um Plano de Ação na produção dos alimentos e na nutrição e Portugal propõe, através do Plano Nacional de Saúde, uma maior prevenção de doenças através de hábitos de vida saudável e da redução das desigualdades no acesso a uma alimentação mais equilibrada.

 

A saúde aliada à tecnologia

Segundo dados do EpiReumaPT, numa amostra de 10.661 idosos, 80% responderam que passavam três ou mais horas por dia a ver televisão. Estes dados levaram à criação do canal, porque, segundo Rute Sousa, “o que é veiculado na TV para os idosos tem muitíssimo poder e se [nós] podemos usar a ferramenta de eleição deles para fazer uma coisa boa para eles, melhor”. O conteúdo deste canal será dividido por semanas temáticas e terá a participação da chefe de cozinha Justa Nobre, que todas as semanas ensinará receitas com um ingrediente-chave.

Quanto à aplicação para android, o desafio é tornar a aplicação atrativa para que ela não seja esquecida no meio de milhares de aplicações disponíveis nos smartphones: “Há aplicações de intervenção que querem fazer a diferença e nós queremos testar cientificamente um programa de intervenção”, refere a gestora do projeto.

A FCM/NOVA tem um pendor de investigação forte, mas os seus estudos são desenvolvidos, essencialmente, nos laboratórios. Desta feita, os investigadores saem à rua e contactam com a comunidade, pois para além da investigação científica está o serviço à comunidade: “Queremos fazer a investigação e avançar com a ciência, mas não nos queremos desligar da comunidade, porque a ciência serve para servir a comunidade e é esse o nosso foco”, refere Rute Sousa, antes de apresentar outras instituições que participam neste estudo como a Sociedade Portuguesa de Reumatologia, o Instituto de Saúde Pública do Porto, a Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia e a Católica Bussiness School, fundamental na criação e desenvolvimento das tecnologias de intervenção.

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Carrinha utilizada pelo programa Saúde.Come na fase de diagnóstico

O projeto Saúde.Come é desenvolvido no âmbito do Programa Iniciativas de Saúde Pública, EEA-Grants, que resulta do Memorando de Entendimento celebrado entre o Estado Português e os Países Doadores (Islândia, Liechtenstein, e Noruega) do Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu.

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Sobre o/a autor/a

Finalista do curso de Ciências da Comunicação - vertente de jornalismo. Curiosidade, proatividade, prazer, dedicação. Quatro estados-de-ser que juntos produzem, a meu ver, um bom profissional de comunicação. Sim, porque não basta ser curioso ou proativo se depois o trabalho desempenhado não nos dá prazer e diminui a nossa dedicação. Na nova Era digital, muitas mudanças estão a suceder-se e desejo acompanhá-las de perto e tentar adaptar o jornalismo ao mundo das multi-plataformas, bem como evitar a "morte" de qualquer plataforma de transmissão jornalística.

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