Lisboa recebe teatro em contentores

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A comédia Moldes de Imagem, escrita e encenada pelo antigo aluno da Universidade NOVA António Carlos de Andrade, vai estar em cena no Village Undreground Lisboa, nos dias 6, 7 e 8 de Maio, na 4ª edição da Mostra de Teatro Breve em Contentores. A Nova Magazine foi visitar o elenco e assistir ao último ensaio antes da noite de estreia. 

No auditório da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, as duas actrizes que protagonizam a peça Moldes de Imagem, Elizabeth Bochmann e Nina Névoa, preparam-se para o ensaio. Apesar do tamanho do auditório, um conjunto de cadeiras junto à porta restringe o espaço a um rectângulo de 6 por 2 metros, tamanho do contentor onde a peça vai decorrer. As duas actrizes estão sentadas nessas cadeiras e, apesar de descontraídas, já se concentram para encarnar as suas personagens, enquanto esperam pelo encenador meia hora atrasado.

O guarda-roupa das personagens não pode ser mais diferente, de um lado Elizabeth veste um fato de senhora, sóbrio e clássico, no outro, Nina usa um vestido de verão, descontraído e leve. “No lado de fora tem muito sucesso mas por dentro não está feliz”, é assim que Elizabeth descreve a sua personagem, a Doutora, papel que aceitou devido ao desafio de fazer uma peça em português e por não ter muitas oportunidades de representar “mulheres muito orientadas pela carreira”. A motivação de Nina é outra, contente por trabalhar com António e Elizabeth, é a primeira vez que faz teatro num nível mais profissional, fora da faculdade, e gostou muito do texto. De acordo com a jovem actriz, Joana, sua personagem, é “extrovertida, e acha que tudo lhe vai correr bem”.

Finalmente toca a campainha e chega o encenador, que rapidamente cumprimenta as pessoas na sala e, após confirmar o “espaço do contentor”, começa o ensaio. O espaço é realmente muito curto, algo que António considera mais desafiante do que difícil, para encenar a peça. Para as duas actrizes a dificuldade é diferente, sendo o maior desafio o público que vai estar a meros centímetros da acção. “Para mim é muito difícil, especialmente com pessoas que eu conheço, tenho de ignorar completamente o facto de os conhecer e pensar que estou sozinha”, diz Elizabeth, preocupação partilhada pela sua colega: “Vai ser complicado ter literalmente os meu pais a olhar para mim, mas é preciso estar focada a olhar para ela (Elizabeth) e pensar que não existe mais nada”.

O ensaio começa e, sem alguma vez interromper, o encenador vai colocando notas no seu bloco. António já tem várias peças no seu reportório, sobretudo como encenador. Tirou o curso de Línguas e Literaturas Inglesa e Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e estudou Artes do Espetáculo durante um semestre, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade NOVA de Lisboa. A sua vida profissional impediu-o de concluir o mestrado, do qual apesar da curta duração, leva o que aprendeu para as suas peças.

Para o autor, esta peça trata de mais do que uma reunião no mundo empresarial financeiro. António vê o seu trabalho como “a dinâmica interna de cada ser humano tentar ser ele próprio e até onde pode levar isso.” No entanto, também considera haver uma “crítica inerente a esse mundo do trabalho, onde há um grande influência de interesses, que muitas vezes se acaba por sobrepor ao que é mais importante: a capacidade individual.”.

A sua influência para escrever esta comédia tem duas principais fontes. Primeiro, o caso de um fã de Heavy Metal que foi dos melhores professores de inglês que conheceu, e foi despedido do seu trabalho como professor por se recusar a cortar o cabelo que sempre usou comprido. A outra grande influência foi o seu conhecimento do mundo empresarial por contacto indirecto, “um mundo onde a realidade é muito facilmente deturpada em prol do interesse de quem se quer favorecer”.

A peça é curta, menos de 15 minutos, e no final o encenador dá as suas notas e manda repetir. Passados novos 15 minutos volta a dar as notas, pergunta às actrizes se querem fazer mais uma vez mas, mas sentindo que elas estão preparadas, António dá por terminado o ensaio. É já a segunda vez que a peça vai estar em cena. A primeira foi durante todo o mês de Fevereiro em 2014 no Teatro Rápido: “Foi um sucesso, tivemos algum público, e o feedback foi positivo. Ganhámos dois prémios atribuídos por um blogger que ia ver todas as peças do teatro rápido: Melhor Dupla de Comédia; Elizabeth Bochmann e Mariana Mourato, actriz que se encontra em Inglaterra e não pode fazer parte desta nova edição, e eu, pessoalmente, Melhor Escrita de Comédia”.

Moldes de Imagem vai estar em cena no fim de semana de 6, 7 e 8 de Maio, na 4ª edição da Mostra de Teatro Breve em Contentores no Village Underground Lisboa, no Museu da Carris. Os bilhetes custam 9 euros e dão acesso às três breves peças que vão estar em cena, podendo adquirir-se nos locais habituais e na própria bilheteira do evento nos dias do espetáculo. Para além de Moldes de Imagem, também farão parte da 4ª Edição da Mostra de Teatro Breve em Contentores as peças Cidade, encenada por Sandra José e escrita por Xavier Pereira, e A Refém,de Carlos Alves. A Mostra começa às 20:30 com Moldes de Imagem, seguida às 20:55 por A Refém e, por fim, às 21:20, Cidade.

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