#Curtas: Mariana posso ser eu, podes ser tu

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Podia ser a história de muitos estudantes da NOVA. João Rosas, antigo aluno da FCSH/NOVA, retrata na curta-metragem “Entrecampos” (2012) os efeitos de uma mudança para Lisboa. Quantos vieram estudar para a NOVA e não se confrontaram com a difícil adaptação?

Entre os vários projetos curriculares que João Rosas, de 34 anos, fez, enquanto estudante da licenciatura em Ciências da Comunicação na FCSH/NOVA, contam-se várias curtas-metragens. “Entrecampos“, curta produzida pela produtora O Som e a Fúria, é o seu primeiro trabalho fora da academia. O argumento estava escrito desde 2008 e seria o projeto de final de curso, mas a falta de financiamento atrasou a rodagem para 2012.

Na curta, de género ficcional, estão presentes vários apontamentos de drama e alguns de comédia. A história mostra a forma como Mariana, 11 anos, se adapta à grandeza de Lisboa, em pleno século XXI, depois de sair da pacata cidade de Serpa. Inspirada num episódio real que aconteceu a um amigo do cineasta, “Entrecampos” estreou-se em 2013 e foi nomeada para festivais como o Curtas ou o Brive, entre outros.

E não teremos todos uma Mariana em nós? Penso que sim. Uns mais, outros menos, mas todos, de alguma forma, somos resistentes à mudança. Adotar uma nova vida, num local onde tudo parece diferente e de proporções desmesuradas, não será fácil de início, mas a mensagem que “Entrecampos” passa é que não estaremos sozinhos e uma nova amizade pode melhorar tudo.

A ideia de retratar locais com os quais tem ligação não é nova. Ao voltar a Lisboa, depois de ter estudado Cinema em Bolonha e em Londres, João Rosas foi viver para Entrecampos. Carnide, um dos cenários da curta, foi onde nasceu e passou a adolescência. Durante a estadia na capital inglesa, o cineasta rodou a sua primeira longa metragem, que retrata a sua experiência londrina, Birth of a City (2009).

É na fotografia, de João Pedro Plácido e no som, de Edgar Medina, que a curta-metragem tem o seu ponto forte. O barulho ensurdecedor dos veículos, sirenes e conversas pinta-se com um jogo de profundidade em planos gerais das ruas e em planos de pormenor com fachadas ou notas do quotidiano. A imagem e o som são de tal ordem imersivos, que transportam naturalmente o espectador para o local da ação.

Curioso é o facto de a única música surgir no desenlace, um momento que se prolonga em demasia. Aqui, a protagonista deixa a expressão receosa e a cor, que até então era deslavada e sombria, torna-se mais quente. Profundamente descritiva, a curta  insiste em detalhes secundários, talvez por João Rosas ser cineasta, mas também escritor.

Os 32 minutos de enredo foram cortados de uma primeira montagem de uma hora e dão a sensação que ou a história merecia mais tempo, para que se explorassem melhor as personagens, ou haveria de ser reduzida nos momentos que pouco lhe acrescentam. Talvez por isso o cineasta tenha dito que este tipo de formato lhe sabe a pouco, numa entrevista ao Público.

Desta primeira filha, João Rosas já teve uma neta. A curta Maria do Mar recupera, anos mais tarde e num contexto diferente, uma das personagens chave de “Entrecampos”. Nicolau, colega de escola de Mariana, é a solução de uma história onde cada um de nós se pode rever.  Mariana posso ser eu, podes ser tu.

A curta-metragem ainda não está disponível online, mas é possível ver o trailer inserido numa montagem de quatro curtas disponibilizado pela produtora O Som e a Fúria.

 Ficha técnica

 Título: Entrecampos

 Género: Ficção / Curta-metragem

 Duração: 32′

 Argumento e Realização: João Rosas

 Produtora: O Som e a Fúria

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