As memórias perturbantes de um passado bem recente

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O artista plástico Vasco Araújo esteve na FCSH/NOVA a explicar as suas influências e as características de “Botânica”, uma exposição que criou à volta do exotismo e do preconceito racial.

Vencedor do prémio EDP Novos Artistas em 2003, Vasco Araújo tem desenvolvido um percurso marcante no panorama cultural português e internacional, através de uma série de exposições, filmes, eventos e participações que demonstram os vários interesses que envolvem a sua arte. “Botânica”, uma das mais mediáticas exposições de Araújo, é uma boa porta de entrada para conhecer o espírito criativo do criador.

Foi esse o mote de uma sessão muito especial. Vasco Araújo foi o primeiro convidado das “Manhãs Criativas”, em Abril, uma iniciativa co-produzida pelo iNOVA Media Lab e o CECL (Centro de Estudos de Comunicação e Linguagem). Estas manhãs, que deverão acontecer a um ritmo periódico, querem-se informais e transdisciplinares. O objectivo é trazer convidados dos mais variados quadrantes sociais, pessoas com relevância criativa que, ao longo da sessão, possam partilhar os desafios do seu processo criativo.

Vasco Araújo explicou em detalhe o que o levou a concretizar “Botânica”, uma exposição sobre o exotismo na cultura colonial do século XIX e do início do século XX. Através da recolha de fotografias desses tempos, o artista construiu um pequeno universo temático que põe em causa uma dualidade dessa cultura: há o fascínio pelo exótico, comprovado pela criação dos “jardins botânicos” portugueses, em que se juntam espécies das terras colonizadas que são inexistentes no país; por outro lado, os “zoos humanos” expõem, simultaneamente, indivíduos das terras colonizadas, cujas características são estranhas ao olhar de europeus curiosos.

“Botânica” capta, assim, um espetáculo de “aberrações” perturbante para a modernidade, que revela muito do que de trágico e polémico havia na relação da Europa com a África colonial. O interesse de Vasco Araújo passou por recuperar e dissecar esses momentos menos bonitos da memória coletiva, e a partir deles, desenvolveu o tema que, segundo o próprio, é a questão central de todo o seu trabalho: a relação com o Outro.

A identidade faz-se de vários espelhos e o passado, por mais horrível e controverso que seja, não consegue deixar de nos “perseguir”. E as marcas deixadas por séculos de escravatura continuam a fazer-se sentir. É necessário, na opinião de Vasco Araújo, apontarmos o dedo a nós próprios e assumir: “Nós, no passado, fizemos isto”. No entanto, parece também evidente que, num tempo em que os nacionalismos voltaram a surgir em força, é importante voltar, por outro lado, para aquilo que “Botânica” nos quer transmitir.

Clique na imagem principal para conhecer a série “Botânica”.
 

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Sobre o/a autor/a

Rui Alves de Sousa

Aluno do 3.º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação da FCSH, escreve sobre cinema e literatura no site "Máquina de Escrever" e apresenta o programa de entrevistas "Um Lance no Escuro", na Rádio Autónoma. Ambiciona ser um dia realizador de coisas, mas por agora é um indivíduo que fica contente por se apoiar em duas patas.

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