Almada – A vida e a obra eternizadas ao público

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Há um grupo de investigadores que tem vindo a trabalhar em torno do espólio de Almada Negreiros, um dos autores mais notáveis da geração de Orpheu. Centenas de documentos que vão desde cartas anónimas a fragmentos de poesia já se encontram digitalizados e disponíveis ao público por via da Internet.

Num dos escritórios de um edifício antigo junto ao Miradouro de Santa Catarina em Lisboa, também conhecido como Adamastor, podemos encontrar o espólio de Almada Negreiros que se encontra à guarda dos seus herdeiros. Nesse mesmo espaço – onde a arte e a história se cruzam e florescem a cada instante – acumulam-se inúmeros documentos de todos os tipos pertencentes a uma das figuras mais ímpares da cultura portuguesa. No escritório trabalham todas as semanas investigadores que desenvolvem tarefas como a catalogação da obra e da vida de Almada e da sua mulher, Sarah Affonso.

A poesia flutua no silêncio da sala. O olhar cruza-se com uma miríade de objectos que espelham o homem e o génio. Numa das faces da mesma encontramos uma fotografia de grandes dimensões, a preto e branco de Almada Negreiros. A sua expressão é serena e contemplativa. Nos flancos, na geometria das estantes, concentram-se dossiers que acumulam o pó e a vida. Na lombada de um deles podemos ler “Manifesto Anti Dantas”. Sobre a ampla secretária que ocupa uma área significativa do escritório, Sílvia Laureano Costa – uma das investigadoras que trabalha em prol do espólio do autor – pousa com minúcia um envelope pertencente ao ano de 1917 que já foi exposto e publicado em alguns catálogos: “Julgamos que terá sido o envelope que serviu para Almada enviar ao Amadeu de Souza Cardoso as provas do K4 – o quadrado Azul”.

A investigadora encontra-se neste momento a desenvolver a sua tese de doutoramento sobre o “Teatro e a Estética Teatral de Almada Negreiros”. Desde 2011 que se juntou ao projecto de investigação, tendo sido bolseira durante três anos. O mesmo passou a ser financiado em 2011 pela FCT, ainda que a sua origem remonte ao ano de 2001: “Na pré-história deste projecto está o Luís Miguel Gaspar que foi ter com a família a fim de editar a obra de Almada na editora Assírio e Alvim. Depois, juntaram-se a ele o professor Fernando Cabral Martins e a Mariana Pinto dos Santos”.

O financiamento da FCT terminou no final de 2014. Houve igualmente o apoio da Biblioteca Nacional e da Fundação Calouste Gulbenkian. Actualmente a equipa de investigadores (coordenada por Fernando Cabral Martins) conta apenas com o apoio do IELT – que disponibiliza e continuará a disponibilizar bolsas para que haja novos investigadores a trabalhar em prol do espólio – bem como da família do autor que tem sido fundamental ao proporcionar não só o espaço para que o trabalho seja desenvolvido, mas também possibilitando o acesso a inúmeros arquivos. Não obstante, o projecto de investigação carece actualmente de financiamentos públicos ou privados que o possam catapultar.

No que concerne ao projecto Modernismo, este encontra-se directamente ligado ao trabalho que é desenvolvido em prol do tratamento do espólio do artista português mais multifacetado da geração dos anos 10. É no portal www.modernismo.pt que podemos encontrar um número muito significativo de arquivos que reflectem a vida e a obra de Almada. Contudo, o projecto não se limita ao mesmo, pretendendo abarcar as obras de outros autores do modernismo: “Temos em vista uma parceria com a Casa Fernando Pessoa, um trabalho sobre o espólio de Mário de Sá-Carneiro ou, por exemplo, uma colaboração com a Biblioteca de São Miguel que tem à sua guarda o espólio de Côrtes-Rodrigues”, esclarece Sílvia Laureano Costa.

Manuela Parreira da Silva é professora auxiliar no Departamento de Estudos Portugueses da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. No que diz respeito aos trabalhos de investigação, dedica-se ao estudo dos espólios de Fernando Pessoa e de Almada Negreiros. As suas funções centram-se no âmbito da correspondência. A investigadora sublinha a importância desta área: “O espólio epistolar de um autor é reconhecidamente considerado da maior relevância não só para o conhecimento da sua biografia, mas sobretudo da sua obra. Ele permite, por exemplo, datar documentos e assistir à génese de determinados trabalhos. No caso de Almada, é importante ver em que circunstâncias se fizeram e aceitaram/recusaram encomendas, além de poder conhecer o modo como o autor foi vivendo, e às vezes sofrendo, o seu processo criativo”.

A correspondência do autor encontra-se organizada por ordem alfabética e é variada na sua tipologia. Existem cartas de amigos, outras encontram-se relacionadas com questões laborais, como são exemplo as cartas oriundas da Sociedade Portuguesa de Autores, entre outros tipos de correspondência. Existe um documento particularmente curioso que Almada decidiu conservar até ao fim da sua vida e que se trata de uma carta anónima onde alguém criticava o autor, defendendo que o mesmo não tinha qualquer aptidão para a geometria e que deveria deixar de se dedicar a esse âmbito.

Simão Palmeirim Costa é investigador do projecto e encontra-se concomitantemente a realizar o doutoramento em Ciências da Arte como membro do CIEBA, da FBAUL, com bolsa da FCT. É na componente da geometria e das obras plásticas que se foca o seu trabalho de investigação em torno do espólio de Almada Negreiros. As suas funções abarcam a inventariação e captação de imagens, tanto de desenhos e de vários cadernos de estudo, como de textos do autor: “Isto tem levado, em colaboração com o professor Pedro J. Freitas, a uma série de novos desenvolvimentos no que diz respeito a uma compreensão aprofundada das obras icónicas de Almada Negreiros, como as quatro pinturas de 1957 da colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, ou o grande painel gravado em pedra no átrio da mesma fundação, intitulado Começar, de 1969″, revela o investigador.

Neste momento, aproxima-se dos dois mil o número de documentos de Almada que se encontram catalogados. Estima-se que ainda esteja por inventariar o dobro dos arquivos de espólio pertencentes à família. Pela sua dimensão e relevância para a cultura portuguesa – tanto o projecto de investigação sobre o espólio de Almada Negreiros, como o projecto Modernismo – devem contar com um financiamento regular e significativo.

 

 

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