Jornalistas: o que pensam ser e o que são, segundo Agnieszka Stepińska

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Docente e investigadora da Adam Mickiewicz University (AMU), Agnieszka Stepińska esteve no dia 5 de maio na FCSH/NOVA para debater com os alunos da licenciatura de Ciências da Comunicação o papel e a visão dos jornalistas na sociedade actual.

Situada na cidade de Poznań, no oeste da Polónia, a AMU conta com mais de 47 milestudantes. A Faculty of Political Sciences and Journalism, onde Agnieszka Stepińska é investigadora e docente, conta com um forte programa internacional que inclui uma cooperação Erasmus+ com a FCSH/NOVA.

O foco do seu trabalho de investigação tem recaído principalmente sobre os aspectos de role perception e role performance dos jornalistas, isto é, de que forma os jornalistas percepcionam o próprio trabalho e a sua importância, em contraste com o trabalho que realmente efectuam. As investigações envolvem naturalmente questões de framing, ou enquadramento, para que se possa entender dúvidas no cumprimento de um determinado papel profissional.

Com recurso a uma série de infografias e gráficos formulados após inquéritos, Stepińska explicou aos alunos como, no panorama polaco, a “informação” e o papel de watchdog jornalístico são ambos vistos pelos profissionais do jornalismo como muito importantes. A surpresa, para a investigadora, foi o facto de o “desenvolvimento de interesses intelectuais e culturais na sociedade” ser também visto pelos inquiridos como bastante importante, situando-se inclusive à frente de outros como “solucionar problemas”  ou permitir às pessoas “expressar os seus pontos de vista”.

Antes de se iniciar o debate aberto com os alunos, a docente elaborou ainda um pouco sobre a história do jornalismo polaco, bem como o papel dos tablóides e do infotainment na sociedade actual. Para o efeito, utilizou como exemplo a cobertura de uma visita da ex- Secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice à Polónia, como exemplo da diferença entre o que os jornalistas pensam fazer (informação séria, sem entretenimento) e o que realmente fazem (foco no infotainment).

A última parte da apresentação foi aberta ao diálogo com os estudantes num regime de debate flexível e descontraído. Quando questionada sobre as características do sistema político e jornalístico da Polónia, a investigadora afirmou que o país tem características de um sistema polarizado (baseando-se na teoria avançada por Daniel Hallin e Paolo Mancini, no livro Comparing Media Systems: Three Models of Media and Politics), mas que ainda assim diverge em alguns aspectos devido em parte à sua herança comunista. Desse modo, descreve o cenário polaco como um “híbrido liberal”.

Nos seus estudos sobre a política no jornalismo, sempre se propôs olhar para as organizações dos media e as suas potenciais afiliações políticas, bem como o enviesamento de certos artigos jornalísticos. Apesar de tudo, afirma que existe uma “flutuação” do envolvimento dos media na política, tendo em conta que alguns órgãos de comunicação se liberalizaram ainda mais para serem entendidos como a oposição ao Governo conservador.

Já em termos marcadamente políticos, debateu-se de seguida o populismo que tem vindo a invadir as eleições de uma série de países. Em contraste com o caso de Donald Trump nos EUA, que Stepińska considera “bastante estabelecido no sistema”, o candidato às presidenciais polacas de 2015 Paweł Kukiz é visto como um novo actor político. Esta antiga estrela de rock lidera um partido (Kukiz’15) que ganhou uma tremenda força o ano passado por exigir uma descentralização do poder político concentrado na Polónia. A invulgar ascensão de Kukiz poderá ser explicada, segundo a investigadora, por uma sensação generalizada de que, mesmo depois da queda do regime comunista na Polónia, os políticos se voltaram a organizar numa elite que se beneficia a ela própria.

Por fim, a a investigadora afirmou que, embora sentisse um optimismo mais palpável enquanto jovem jornalista, a sua percepção sobre o que é o verdadeiro trabalho do jornalismo acabou por se alterar ao longo dos anos. Se, por um lado, o optimismo foi sendo substituído por um certo cinismo, por outro também declarou que é assim que eventualmente os jornalistas se tornam em watchdogs mais críticos e, por isso, também mais necessários.

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