A democracia em tempos de crise – o caso polaco

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Se os restantes países europeus seguirem o exemplo polaco, a democracia pode estar ameaçada. A afirmação pertence a Marcin Polakowski, convidado da aula aberta sobre democracia e direitos humanos em tempo de crise, promovida a 10 de Maio, no âmbito da unidade curricular de Teoria Política da FCSH/NOVA.

“Estamos atualmente num momento de tensões sociais”, afirmou Marcin Polakowski, docente da Universidade Nicolaus Copernicus, em Toruń, Polónia,  acerca da atual situação social nesse país, onde a democracia pode estar em perigo. O docente fez um balanço dos acontecimentos políticos dos últimos anos, descrevendo-os como o “reflexo da realidade social”.

IMG_7566“Houve o crescimento do capitalismo, provocando o aumento do fosso entre os mais ricos e os mais pobres. Ao mesmo tempo, havia medo das ideologias comunistas e a recusa de governos ditatoriais”, referiu Polakowski, fazendo uma retrospetiva da situação política da Polónia depois da II Guerra Mundial.  Com a implementação de uma democracia forte e de um sistema de mercado misto, onde a regulação económica é feita por privados e também pelo Estado, a Polónia cresceu e solidificou a sua situação política, económica e social, mas atualmente esses indicadores encontram-se em queda.

Em 2004, o país entrou para a União Europeia (UE), o que possibilitou a maior abertura do seu mercado e o desenvolvimento da indústria. Mas tal como todos os países da comunidade, a partir de 2007, a Polónia foi “arrastada” pela crise económica e financeira da Europa, começando aí o declínio social.

 

O ano de 2015 marcou a mudança na ideologia política vigente. O partido da extrema-direita Lei e Justiça ganhou as eleições legislativas (com 37,58% dos votos) e o seu candidato presidencial, Andrzej Duda, saiu vitorioso com 51,5%, na segunda volta. Desde então, o sistema político tem sofrido muitas mudanças, começando pelas decisões “anti-europa” e “anti-imigração” e passando pela “quase-fusão” do poder judicial com o executivo, onde o novo governo aprovou leis para enfraquecer o tribunal constitucional e aumentar o controlo estatal dos media.

Durante a sua apresentação, Marcin Polakowski exibiu alguns anúncios propagandísticos de partidos polacos em 1998, 2004 e 2015. “Observou-se uma nítida mudança no sistema de comunicação política, com os partidos de extrema-direita a inovarem, conseguindo chegar a eleitorado que nunca votou ou que ultimamente não votava, através de promessas de ajuda aos mais carenciados e, sobretudo, aos jovens e idosos”, concluiu o docente. O sucesso da propaganda destes partidos foi também conseguido pela grande aposta nas novas tecnologias e redes sociais online, sendo o Facebook e o Twitter as principais redes de “propaganda gratuita”.

 No decorrer do debate foi abordado o tema da UE, uma temática sensível para a opinião pública polaca: “A permanência na UE é um tema que começa a marcar a agenda”, sublinhou, acrescentando que “a UE não é capaz de formular uma narrativa europeia convincente”. A Polónia é agora um país com muitas dúvidas sobre o seu papel nesta instituição e as mais-valias que a mesma lhe proporciona. A política de acolhimento de refugiados e a questão da insegurança constituem os pontos mais sensíveis da discussão.

Sabia que…

  • A empresa portuguesa Jerónimo Martins é detentora da maior cadeia de supermercados na Polónia, tendo um papel importante no desenvolvimento económico daquele país?
  • No último mês foi noticiado o crescimento do número de ocorrências de atos xenófobos dos polacos para com os estudantes portugueses?
  • Segundo dados de 2014 da OCDE, a Polónia encontra-se no top 5 dos países com piores condições laborais (num universo de 32)?

 

 

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Sobre o/a autor/a

Finalista do curso de Ciências da Comunicação - vertente de jornalismo. Curiosidade, proatividade, prazer, dedicação. Quatro estados-de-ser que juntos produzem, a meu ver, um bom profissional de comunicação. Sim, porque não basta ser curioso ou proativo se depois o trabalho desempenhado não nos dá prazer e diminui a nossa dedicação. Na nova Era digital, muitas mudanças estão a suceder-se e desejo acompanhá-las de perto e tentar adaptar o jornalismo ao mundo das multi-plataformas, bem como evitar a "morte" de qualquer plataforma de transmissão jornalística.

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