#Curtas: um olhar vale mais que uma palavra

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A curta-metragem “A Ordem das Palavras”, de Sara Alves, alumna da FCSH/NOVA, mostra a sua visão pessoal do tema “Igualdade de género/ Discriminação em função do género” sem pronunciar uma palavra. E já lhe valeu um prémio.

Foi com a curta-metragem “A Ordem das Palavras” que Sara Alves venceu o concurso “STOP- Sem Tabus, Opressões e Preconceitos”, lançado pelo Concelho Nacional de Juventude em 2015, demonstrando quais as palavras de ordem no mundo de hoje em relação ao papel da mulher.

A realizadora, licenciada em Ciências da Comunicação pela FCSH/NOVA, criou uma curta-metragem sem voz, apenas com algumas palavras e frases, e concebida maioritariamente a preto e branco: algo bastante simples, mas marcante, o que talvez lhe tenha proporcionado o merecido prémio. Esta escolha é visível tanto nas frases que vão aparecendo ao longo da curta, como na roupa dos próprios personagens: a rapariga, vestida de branco – metáfora da pureza, a inocência, submissão –, e os rapazes de preto, demonstrando exatamente o oposto.

A ação do filme desenrola-se num suposto palco com uma rapariga no centro – a representar as mulheres no mundo de hoje. Entretanto, vão entrando e saindo rapazes que deambulam pelo palco e usam a “mulher” como objeto para aquilo que lhes apetece. Estes vão colando as ditas “palavras de ordem” em diversas zonas do corpo da rapariga, estando esta imóvel e mostrando-nos aquilo que realmente sente apenas através do olhar – olhar este que realmente marca muito a curta. Estes acontecimentos, conjugados com frases que nos dão dados reais em relação ao tema em questão e que vão passando ao longo dos cerca de 2 minutos de filme, pretendem fazer o público pensar naquilo que ainda acontece em pleno seculo XXI.

Esta curta-metragem apresenta ainda uma banda sonora bem escolhida que dá emoção à ação e serve de certa forma como uma linha condutora. A música presente, intitulada “The Last Day”, tem também a capacidade de despertar sentimentos no público, ao evocar, em alguns momentos, repudio e ansiedade junto daqueles que observam o filme. Podemos ter também em consideração que a banda sonora escolhida tem a voz de uma mulher, o que está, decerto, relacionado com o próprio tema deste trabalho.

Além da banda sonora, existem apenas dois sons audíveis durante toda a ação – um grito conjunto de dois rapazes e o suspiro da rapariga no final quando consegue arrancar o papel onde se lê “Submissão” que está colado na sua boca. O facto de estes serem os únicos sons da curta tem muito que se lhe diga. O grito protagonizado pelos dois rapazes quando agarram o pescoço da rapariga quer demonstrar, nada mais nada menos, que a violência sofrida pelas mulheres à volta do mundo. Pode ainda querer dar a ideia da superioridade e força do homem em relação à mulher que não emite qualquer som enquanto a ação se desenrola. Já o suspiro final da rapariga parece querer representar a libertação, ou tentativa de liberdade, por parte das mulheres em relação àquilo que lhes é ainda imposto. Pode também querer mostrar o desespero pelo qual muitas mulheres ainda passam. Para além disso, este som marca o final da curta, sendo por isso um elemento bastante importante da mesma, podendo ainda transmitir aos espectadores aquilo que eles próprios sentem ao ver o filme e ao colocar-se no lugar da rapariga.

Sara Alves apresenta-nos neste trabalho a mulher como um objeto nas mãos dos homens, que lhe fazem o que querem, sem que esta consiga fazer nada. As palavras coladas no seu corpo vão desde “Demérito”, “Objeto” a “Submissão” e os toques dos rapazes na rapariga chegam até a ser chocantes, tudo isto para tocar na sensibilidade do espectador e mostrar, apenas um bocadinho, daquilo que realmente acontece.

Um trabalho bastante profissional e eficaz. Nota-se que os recursos que Sara possuía para realizar esta curta-metragem não eram muitos; no entanto, a mensagem está lá, o que o torna ainda mais poderoso.

“A Ordem das Palavras” é um grito de ajuda e, ao mesmo tempo, de apoio a todas as mulheres do mundo. De forma simples, mas bastante eficaz, o espectador é arrebatado por palavras, frases e um olhar tão fortes que é impossível ficar indiferente. A realizadora consegue mostrar com este filme que é possível falar sem pronunciar uma palavra.

A curta-metragem de Sara Alves consegue realmente cumprir o seu principal objetivo: chamar a atenção para o problema que ainda existe da igualdade de género e levar-nos a, pelo menos, pensar sobre o assunto.

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