Stand-up às quintas

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Todas as quintas-feiras à noite, o Cinema City Alvalade promove espetáculos de Stand-Up Comedy com entrada livre. Entre os muitos que sobem ao palco para atuar, encontram-se dois alunos da FCSH/NOVA.

Maria sobe ao palco, pousando a sua cábula numa das colunas de som e agarra o microfone para dar início à sua performance. “Quem é que aqui gosta de piropos?”, pergunta ao público da pequena sala do Cinema City Alvalade, em Lisboa. A questão pode parecer um pouco descabida assim descontextualizada, mas aqui é só mais uma das muitas que serão feitas esta noite. Maria Lázaro, aluna da FCSH/NOVA está a dar início à sua apresentação de stand-up comedy, num espetáculo que acontece todas as quintas-feiras naquele espaço.

O conceito é simples: seis pessoas, mais ou menos experientes na área, têm oportunidade de atuar. Para as apresentar, um Mestre-de-Cerimónias, não só um simples apresentador, mas também um integrante ativo no espetáculo. Jorge Moura, o MC desta noite, reconhece, entre o público, assíduos no espaço, conversando com eles e incluindo também aqueles que aparecem pela primeira vez, tornando os tópicos de conversas em piadas.

Maria não participa todas as semanas. Às vezes também aparece em espetáculos promovidos no Popular Alvalade, às quartas-feiras, e no Rocket Bar, no mesmo dia que no Cinema City. Segundo ela, já houve outros locais que promoviam noites de stand-up: “Quando havia o Comedy Club [na Avenida Duque de Loulé], havia mais espetáculos”. A falta de aposta nesta área justifica também o parco número de profissionais exclusivos da área do stand-up. “Em Portugal, há tipo cinco pessoas a fazer carreira disto”, explicita Daniel Fernandes, também aluno da FCSH/NOVA, que entretanto tomou o lugar de Maria no palco.

Fazem ambos stand-up há cerca de um ano, mas é notório o seu conhecimento em relação à trajetória do humor. Quando Raul Solnado deu os primeiros passos, não em stand-up propriamente dito mas em espectáculos de revista, já os EUA “estavam na segunda fase”, garantem. Aqui, o crescimento tem sido mais lento, iniciando-se com o Levanta-te e Ri. “Isto é uma cena tipo Netflix, só vai chegar cá muito mais tarde”, comenta Maria. Segundo Daniel, há uma justificação de mentalidades para esta desigualdade: “Aqui leva-se muito a sério a pessoa com o microfone”.

No Cinema City Alvalade, o ambiente é descontraído e a barreira entre palco e público não existe. É constante a entrada e saída de empregados do bar a atender os pedidos entre os presentes de forma atarefada. Quando um pires cai ao chão e se parte, alguém grita “Mazel Tov” da outra ponta da sala. A mais pequena circunstância pode ganhar proporções maiores, como é o caso do microfone que passou uma parte considerável do espetáculo a falhar, com várias propostas de resolução do problema: “O truque é mudar as pilhas entre atuações”, sugeriu o MC. “Talvez se pegarmos numa certa maneira, isto funcione”, tentou um dos outros comediantes.

Com o passar das várias atuações, também é notória a diferenças de estilos nas seis performances. Mesmo entre Maria e Daniel podemos encontrar essas distinções: Maria é mais mordaz, sem papas na língua, com pouca interação, já Daniel prefere falar com o público para introduzir as suas piadas e com uma pitada de humor self-deprecating. “Depende um bocado do estilo de humor”, explica Maria. “Há pessoas mais nonsense, outras mais de observação”. Daniel completa: “Há quem escreva mais os textos e é quase teatro. Eu tento falar mais com o público e ela escreve e fala com o público”.

Com as seis atuações findas e uma foto de família para a posteridade, é tempo de fazer o balanço da noite. Maria comenta que se esqueceu de piadas e que os problemas técnicos também não ajudaram: “Para o que estava, não me correu mal”. Daniel parece mais descontente com o seu desempenho e não tão positivo como a amiga.

Aos poucos, a sala vai-se esvaziando. Maria e Daniel ficam à conversa com os que ainda estão presentes. Bebem-se os últimos copos e fumam-se os últimos cigarros. Para a semana há mais.

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