A canção de Janeiro

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Quando lhe deram um violino, trocou-o por uma guitarra. Começou a cantar nas escadas de sua casa porque era o sítio com melhor acústica. Deixou Coimbra por Lisboa, ingressou no curso de Ciências Musicais na FCSH e começou a estudar Jazz no HotClub. Hoje é mestrando de Ciências da Comunicação na mesma faculdade, já lançou um EP e prepara o primeiro álbum.

Nasceu em Coimbra, dia 21 de Março de 1994. Tem 22 anos. Ocultou o primeiro nome, Henrique, à procura do que podia ser sonante. Olhou para os seus quatro nomes e pensou: “Ok, Janeiro vai ser”. Ainda antes do lançamento do EP pensou em lançar-se como Henrique Janeiro, “na ideia daquela malta tipo António Zambujo, Rui Veloso, que põem sempre o primeiro e último nome”, explica. No entanto, como ninguém diz António Zambujo, mas sim, Zambujo, decidiu “encurtar a cena” e chamar-se só Janeiro.

“A música sempre fez parte da nossa vida e, consequentemente, da dele”, contam os pais. Janeiro lembra-se do pai ouvir “aquele rock”, como Lou Reed e Pink Floyd, e da sua mãe estar sempre a ouvir “aquela bossinha mais soft”, como Betânia e Caetano. Jazz ouvia menos, o que acha estranho porque ouve imenso jazz agora. Janeiro sempre teve algumas características muito próprias. “Era frequente encontrá-lo sentado à conversa com amigos, com um ar patusco, perna traçada, muito interessado e argumentando sempre”, recordam os pais. Criativo, com espírito de iniciativa, envolvente e muito persuasivo, são alguns traços que os pais lhe apontam já de criança. Uma vez teve um momento “René Magritte”. Resolveu pintar todos os botões de uma banqueta muito clássica numa loja de móveis. Posteriormente, essa banqueta passou a habitar o seu lar. “Ficou bem mais interessante pintada”, confessa o pai Francisco.

O músico adorava a loja de instrumentos e passava horas à conversa com os donos. O seu primeiro instrumento foi o piano. “O piano é de família. Da bisavó, avó e pai, todos tocavam”, relembra o pai. Contudo, Janeiro não gostava do professor, até “chorava que não queria ter aula”, revela o próprio. Descobriu verdadeiramente a paixão pela música quando o pai lhe ofereceu um violino no Natal. Janeiro disse-lhe que não queria um violino. Então o pai foi trocá-lo por uma guitarra. A partir daí, começou a tocar e as coisas foram evoluindo de forma natural. “Fomos a Londres e ele veio de lá com uma Fender Stratocaster igual à do John Mayer”, relembra Francisco.

Começou a cantar cerca de um ano depois de aprender a tocar guitarra. Em Coimbra, sentava-se nas escadas de sua casa porque era o sítio com melhor acústica. Lembra-se de um dia ver a sua mãe no fundo das escadas a virar-se para o seu pai a dizer “Porra!”. Foi aí que percebeu que estava a soar bem. Tinha a mania de tocar John Mayer e fazia uns covers. Mesmo assim, considera que era desafinado e que não conseguia controlar as cordas vocais.

“O Henrique construiu desde cedo. Compôs, tocou ao vivo, organizou grupos, reuniu músicos, deu espetáculos e a iniciativa foi sempre dele”, dizem os pais. Ainda em Coimbra, Janeiro tinha uma banda, os The Carpet. O primeiro concerto foi numa casa de fados chamada ‘À capela’, nas docas de Coimbra. Não correu muito bem
porque “a malta não estava ensaiada”, mas considera que “um músico tem de passar por isso, estar em palco e sentir-se ‘um merdas’, isso dá imensa força”. Tinham 13 ou 14 anos. Entretanto, ganharam um concurso e foram gravar em estúdio. Tem memórias vagas dessa época. Lembra-se que saiu uma maquete muito “mázinha” e que não sabia tocar muito bem.

Os pais de Janeiro sempre acreditaram no seu filho. A certa altura, decidiu tirar um curso tradicional como Gestão, Direito ou Medicina. Mas os pais disseram-lhe para seguir o que o fazia feliz. Agradece-lhes imenso por isso, “porque nem toda a gente tem essa sorte de ter uns pais que consigam pensar um bocadinho à frente: ok, mesmo que ele não seja incrível agora, ele pode ficar, pode evoluir”. Os pais acrescentam que o seu filho decidiu que “ser economista rapidamente remeteria a sua grande paixão para um papel secundário. E os 17 valores de média do 12º ano também poderiam ser utilizados para estudar música”.

Deixou Coimbra e veio estudar para Lisboa aos 18 anos. Ingressou em Ciências Musicais, na FCSH/NOVA. “Foi um plano B, mas que eu fico muito feliz que tenha acontecido. Eu queria entrar para a ESMEL (Escola Superior de Música de Lisboa) em Guitarra Jazz. Só que eu não sabia tocar Guitarra Jazz”, revela. Teve aulas intensas de jazz durante 8 meses com João Freitas, seu professor em Coimbra, mas não conseguiu entrar. Entravam os três primeiros. Ficou em 5º.

Escolheu como recurso Ciências Musicais e, ao mesmo tempo, complementar a teoria deste curso com a prática do Hot Club – escola de Jazz em Lisboa. Diretamente, não houve alguém em Ciências Musicais que o influenciasse muito. Indiretamente, acha possível que lhe tenham aberto os horizontes musicais, especialmente para a música clássica.

O seu tempo é dedicado exclusivamente à música. Neste momento a música é profissão e o hobby é o mestrado em Comunicação e Artes, variante de Ciências da Comunicação, na FCSH. Janeiro nunca levou muito a sério a academia. No entanto, considera que o mestrado está a fornecer boas ferramentas. Cadeiras como Marketing estão a ser muito importantes porque “a dada altura começa-se a ser um produto”. Assim como uma cadeira de Dança onde se pensa nas coisas de outro prisma: “Pensas na peça Sagração da Primavera do Stravinsky e de repente eles dizem-te: não, não, a Sagração da Primavera é do Nijinsky, que é o coreógrafo”. Espaços Performativos é outra das cadeiras importantes para um músico, considera. “Quando subo a um palco estou a fazer uma performance, o meu corpo está a ocupar um espaço e estou a fazer algo com o público”, confessa Janeiro.

Sobre a gravação do primeiro EP, Janeiro diz que essa foi uma ideia “maluca”. Dele e de Samuel Martins que produziu o álbum. “Conhecemo-nos no curso de Ciências Musicais e basicamente foi passado uma semana que ele me disse que queria gravar uma EP”, revela o produtor. “Eu tinha umas canções e pensei – E se gravássemos a cena?”, explica Janeiro. Samuel Martins acrescenta que “exatamente nesse dia tinha mandado vir um microfone, que era basicamente aquilo que faltava”. Com um microfone de cem euros muito mau, um teclado MIDI e um computador, gravaram tudo no quarto do produtor. Quarto esse com problemas de isolamento. “Se alguém passasse no corredor ou um cão lá fora a ladrar, a gravação ia por água abaixo e
tínhamos de repetir”, revela Samuel.

Não sabiam bem mexer no software, foram aprendendo com o processo e confiaram na intuição. “Nós estávamos à frente do computador, sacámos um programa e começámos a ver como aquilo se utilizava. Íamos fazendo e descobrindo como é que se gravava”, recorda Janeiro. Entretanto, misturaram o disco com o cantor Benjamin. “Foi fixe o input dele para a EP. Ele próprio já tinha outras noções de dimensionalidade sonora que nós não tínhamos”, reconhece o músico. Janeiro já não se identifica muito com o som do primeiro EP. “Estou a pensar noutras coisas para o disco”, refere. Ainda não começaram as gravações mas já tem tudo pensado.

O álbum cantado todo em português, vai ter influências da música popular portuguesa e vai ser acompanhado por uma banda, com sopro e cordas. E especialmente para o álbum, Janeiro compõe tudo, à exceção da canção Triste Agonia, escrita por António Avelar de Pinho. “Ele musicou uma letra que lhe entreguei para ver como se safava. Safou-se muito bem”, assegura António. Janeiro quer lançar o primeiro single no próximo mês de Janeiro, como não poderia deixar de ser.

Posteriormente, segue-se o álbum em Fevereiro ou Março de 2017. As influências na música do canto-autor são “a canção popular portuguesa, com os acordes do jazz e, às vezes, aquela ginga do fado”. Começou a compor há cerca de três anos. Sempre foi “um bocadinho intelectualóide da literatura” e percebeu que gostava de escrever em português. Começaram a sair canções por cima de poemas.

Diz que se inspira na vida em geral. Em vivências, amor, coisas que acontecem no dia-a-dia. Gosta de “pôr à superfície coisas que as pessoas normalmente não falam”. Por exemplo, a canção As duas que és, retrata uma mulher que está entre a razão e a emoção, entre a questão do coração e do cérebro. “Há imensas mulheres e homens que estão nessa situação e, normalmente, não se fala nisso”. Janeiro gosta de puxar os assuntos que lhe são sensíveis e que as pessoas desconhecem de certa forma. “Não desconhecem emocionalmente, porque o sentem, mas nunca houve ninguém a materializá-lo numa letra ou numa canção”.

Inspira-se a olhar para o mar ou em situações banais como a andar na rua. Começa-lhe a vir uma letra à cabeça, reconhece. O processo de criação é simples. Costuma gravar tudo com o gravador de voz do telefone. Muitas vezes só o trauteio. “Escrevo uma letra. De repente, lembro-me de uma canção por causa de alguma coisa e junto as duas. E já me aconteceu estar a sair ao mesmo tempo a letra e a canção. Como também já me aconteceu darem-me letras”, explica Janeiro. A namorada, Mariana da Bernarda, também música de profissão, conta uma história diferente. Revela que Janeiro faz as canções quando está na casa de banho. “Às vezes é chato quando estamos a meio de uma conversa e ele desliga porque está a pensar numa música. Já não está na conversa. Fica ali o tempo todo meio ausente até ir à casa de banho”, comenta Mariana.

Janeiro admite que o impulso para a composição poderá ter surgido deste novo movimento da música portuguesa que surgiu há sensivelmente 6-7 anos, com Samuel Úria, B Fachada, entre outros. “Depois há um gajo que me incentiva todos os dias a escrever que é o Carlos Tê. Era quem escrevia para o Rui Veloso. São as letras mais bonitas do mundo em português”, constata. O Rui Veloso é também uma grande referência para o cantor. “É o maior compositor português, sem dúvida alguma”, assegura.

O primeiro grande concerto de Janeiro foi no Vodafone Mexefest 2015. “Estavam para aí umas 400 pessoas”, recorda. Entretanto, esteve no Bons Sons e no NOS D’Bandada. Este Verão não espera atuar em nenhum festival para se concentrar somente no disco, porém admite que um dia “gostava de encher o MEO Arena, embora o som lá não seja assim nada de especial” e de tocar no Tivoli porque “tem uma sala bonita e grande acústica“.

Os sonhos para o futuro passam por continuar a compor para si e para outraspessoas. “Quero que as pessoas venham ter comigo com letras e me peçam para fazer canções”, realça. Quer afirmar-se no panorama musical português enquanto cantor, compositor e escritor. “Espero que a malta consiga ouvir qualquer canção interpretada por mim e que possa dizer ‘Aquele é o Janeiro’”, sublinha. Fazer discos, discos e mais discos é a sua grande ambição.

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