Dois atletas separados por um curso

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Com o início de mais um ano lectivo, são vários os novos alunos que ingressam no Ensino Superior com o estatuto de atleta de alto rendimento. Para além da natural adaptação às exigências dos respectivos cursos, têm ainda que gerir a sua agenda para continuar a alimentar a paixão pelo desporto. Ainda assim, esta paixão nem sempre prevalece e alguns são mesmo obrigados a abdicar dela em prol dos estudos.

Miguel Diz, 19 anos, já pratica karaté desde os seis, muito em parte devido à influência do seu progenitor: “O meu pai é um dos meus treinadores actuais, sendo que ele também foi competidor. Apesar de não estar em Lisboa, continua a acompanhar-me.”

Oriundo de Pombal, onde, aliás, continua a tratar de toda a burocracia relativa à modalidade no seu clube, o Núcleo Desportivo Amador de Pombal (NDAP), Miguel é um dos múltiplos estudantes que foi forçado a mudar de localidade para prosseguir os estudos, com a particularidade de usufruir do estatuto de alto rendimento, pretendendo dar continuidade à sua paixão pelo karaté noutra cidade que não a sua.

No entanto, o caso deste estudante de Medicina assume contornos específicos: este já é o seu segundo ano na Universidade, após a passagem pelo Instituto Superior Técnico, onde frequentou Engenharia e Arquitetura Naval durante um ano. A oportunidade de mudar para o “curso que sempre quis” surgiu graças ao estatuto de alto rendimento: “Consegui o estatuto de alto rendimento, que ainda não tinha, uma vez que só se consegue com determinados resultados, e constatei que conseguia estar no curso que queria, porque sempre quis Medicina desde mais novo”, confessa.

A mudança para a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa(FCM/NOVA) representou o culminar de um ano de muito trabalho e, simultaneamente, de muito sucesso. De facto, Miguel, cujos treinos lhe ocupam todos os dias úteis da semana (três deles dedicados ao karaté, sendo os outros dois reservados ao trabalho de ginásio), conquistou, em Maio passado, a Medalha de Bronze no Campeonato da Europa Seniores Kumite Equipa, realizado em França, sendo esta precedida pelo 5º lugar no Campeonato da Europa de Sub-21 Kumite, na categoria -75kg, no Chipre.

No seu horizonte já está a participação no Campeonato do Mundo, que vai ter lugar na Áustria no final do mês de Outubro, algo que não lhe altera o foco do essencial: conciliar o rendimento desportivo com os estudos, continuando a fazer face às exigências do curso de Medicina, onde se “tem que ir estudando todas as semanas”, o que obriga a que se “aproveite todos os momentos para estudar e treinar”: “Ainda por cima, eu estou deslocado, tenho que cozinhar, arrumar a casa, entre outras coisas”, lembra.

Para além de tentar conciliar os treinos de Karaté com o curso, Miguel tenta reservar o pouco tempo disponível que lhe resta para a sua vida social. Apesar de reconhecer que às vezes tem que realizar alguns sacrifícios, não deixa de considerar que é possível compatibilizar ambas as vertentes: “Como atletas, gostamos do que fazemos, senão não o fazíamos. É sempre possível conciliar a vida social com a vida desportiva e académica, mas claro que há momentos em que temos que abdicar de certas ocasiões”, afirma.

O mesmo curso mas um destino diferente

Constança Lopes, 18 anos, também é estudante de Medicina na FCM/NOVA e praticou ginástica acrobática durante 10 anos, primeiro no Grupo Desportivo de Carcavelos e depois no Ginásio Clube Português. Tudo começou, recorda, como um mero divertimento: “Comecei nos trampolins, mas era assim tipo brincadeira. Até que um dia a treinadora da ginástica me chamou, comecei a ir lá e, entretanto, fiquei e adorei.”

Durante este período, foi sempre extremamente exigente conciliar a sua dedicação à ginástica acrobática com os estudos no Ensino Secundário, em grande parte devido à carga horária dos treinos: “Treinava quatro horas por dia, seis dias por semana. Tive sempre boas notas, mas era extremamente cansativo. Precisava imenso de dormir e nunca tinha horas para isso”.

Tal facto não a impediu de ingressar no Ensino Superior no curso que realmente queria, registando simultaneamente uma excelente performance desportiva que lhe permitiu adquirir o estatuto de alto rendimento: ficou em primeiro lugar na Qualificativa, no TWIST, a primeira prova de apuramento para o Mundial, e no LIAG, prova internacional de clubes. A estes títulos, Constança juntou, no presente ano, o de Campeã Nacional e o 8º lugar alcançado no Campeonato do Mundo, que decorreu na China e que foi, sem dúvida, a prova que mais a marcou pela “sensação de pertencer à selecção de Portugal”.

O ritmo frenético que marcou a sua agenda diária ao longo destes 10 anos levou-a a tomar a árdua decisão de deixar a ginástica acrobática, numa altura em que tinha atingido, possivelmente, a plenitude da sua forma. Apesar da mágoa, não deixa de considerar ter-se tratado de uma decisão acertada: “Tomei a decisão de sair para conseguir conciliar as coisas. Até foi antes de vir para Medicina, porque nós treinamos em trios ou pares e eu não me quis estar a comprometer para chegar a esta altura e ver que não ia conseguir. Além disso, se eu continuasse ia ascender de escalão, o que aumentaria ainda mais a exigência”.

Actualmente, a jovem reconhece que tem mais tempo livre, o que lhe permite gerir melhor o seu dia-a-dia: “A minha vida antes era escola-casa-treino, agora fiquei com mais algum tempo. Quando não tenho aulas, fico na Universidade a estudar e não tenho horário para ir para casa. Agora sinto que sou eu que coordeno”.

Mas houve outro factor que pesou na decisão de Constança: “A ginástica acrobática não é um desporto olímpico, não podemos fazer disto uma vida profissional. Se fosse algo que pudesse fazer futuramente, claro que me tinha empenhado mais e pensado melhor”, admite, soltando o desejo para que nos Jogos Olímpicos de 2024, já seja considerado um desporto olímpico.

Miguel também não põe a hipótese de prosseguir uma carreira profissional, até porque “em Portugal ninguém pratica karaté profissionalmente, somos todos amadores”. “Não recebo nada do karaté, tenho mais que pagar do que receber, mas enquanto der para conciliar com os estudos e com a minha vida profissional vou continuar a praticar, porque é algo que eu realmente gosto”.

 

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Sobre o/a autor/a

Estudante de Ciências da Comunicação( 3ºano) na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Apaixonado por futebol e pelo desporto em geral. Natural da Figueira da Foz.

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