Sofia Diniz: Levar a História da comunidade à comunidade

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Terminou a licenciatura e começou por fazer inventários para a Direção-Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais. Atualmente integra o Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa onde está a terminar o doutoramento sobre móveis do século XX e a encomenda pública. Quer «desmistificar a ideia de que a História é uma seca», com aproximações à comunidade, como tem conseguido com o projeto Memória para Todos.

Escolheu História da Arte quando ingressou no ensino superior, em 1995, por uma questão muito prática: «Gostava muito desta ideia de contar e explicar como foram as coisas. Quais as razões de este edifício estar aqui, de aquele quadro ter sido pintado ou de aquele edifício ter desaparecido. Contextualizar essas mudanças, perceber porquê.»

Confessa que nunca teve a mínima vocação para a Matemática e, por isso, diz que Humanidades sempre foi o seu caminho. No curso de História da Arte – na altura, uma variante do curso de História – conseguiu encontrar a conjugação de vários interesses: a estética, a arquitetura e a vontade que sempre teve em querer saber como é que as coisas tinham acontecido. Teve sempre o apoio dos pais, embora tivessem ficado um bocado apreensivos com «o que é que ia sair dali». «As Humanidades eram esta coisa que as pessoas viam um bocado como diletante». Mesmo assim, Sofia sempre teve a convicção de que, acima de tudo, queria acordar todos os dias e fazer alguma coisa «minimamente interessante».

Em 1999, quando terminou a licenciatura em História da Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, conta que a passagem para o mestrado foi automática. Queria fazer algo relacionado com História da Arte, mas também com História Moderna e dos Descobrimentos, e falou com o professor João Paulo Oliveira e Costa, que lhe deu luz verde. O professor relembra que Sofia fazia parte de uma turma de alunos muito interessantes e muito interessados. «Ela tinha potencialidade para ser uma historiadora na área da história da expansão e dos descobrimentos, mas ela gostava era de História da Arte, sempre teve esse bichinho.»

Ao mesmo tempo, teve a oportunidade de fazer um estágio na Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), onde integrou a equipa do Inventário do Património Arquitetónico, na secção do património das ex-colónias. «Quando eu entrei, estava uma equipa a sair para Cabo Verde para fazer o levantamento do Inventário Português Além-Mar, tema que coincidiu com a área que tinha escolhido para o mestrado.»

«Conjugaram-se essas duas coisas, na altura. Até ao final de 1999, fiz o estágio e depois, em 2000, a minha diretora quis continuar comigo.» Entre 2004 e 2006, conta que fez parte de um projeto designado Estudo da Arquitetura de Serviços Públicos em Portugal no Século XX: a Arquitetura Judicial e Prisional Portuguesa no Século XX, enquanto bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia. No âmbito desse projeto, visitou prisões e centros educativos em todo o país, do qual resultou a publicação de um livro.

Filomena Bandeira, também ex-aluna da FCSH/NOVA, conta que já estava na Direção-Geral quando Sofia se juntou à equipa de inventário. «A Sofia foi trabalhar para o meu gabinete; eu trabalhava no Inventário de Arquitetura do Século XX, mas tínhamos um convívio muito estreito porque a acompanhei em todo o processo inicial.» Uns anos depois, quando surgiu o estudo sobre a Arquitetura Judicial, Sofia foi associada ao projeto, do qual Filomena já fazia parte. «Foi um contacto mais estreito, porque implicou viagens e saídas… É nas viagens que as pessoas se conhecem e que se percebe se se dão bem ou mal, e nós, de facto, dávamo-nos muito bem.» Visitaram prisões muito interessantes, do ponto de vista arquitetónico e histórico, e muito marcantes e intensas, do ponto de vista emocional.

Com imensa satisfação, Filomena relembra que como viajavam em equipa, tinham muito tempo para refletir sobre tudo. «Éramos uma equipa muito interessada, muito envolvida.» Tiveram a oportunidade de contactar com histórias de vida incríveis, durante as visitas aos estabelecimentos prisionais e foi isso mesmo que as uniu. «Enquanto eu era mais tagarela, a Sofia era mais reservada; conservava alguma distância do tema que estava a ser tratado, porque era um tema complicado. Era, de facto, muito empenhada. Mas tem outra característica muito importante: adere muito a projetos e a ideias novas.»

Com um sorriso enorme, Sofia afirma que foi um período fantástico da sua vida, que dali surgiram imensas amizades que mantém até hoje (como é o caso de Filomena), que teve oportunidade de ver coisas incríveis e que aprendeu muito a nível profissional: «Aprendi muito, foi a minha escola para tudo.»

Em 2008, defendeu a tese de mestrado, intitulada A Arquitetura da Companhia de Jesus no Japão. A criação de um espaço religioso cristão no Japão dos séculos XVI e XVII, já depois de ter deixado a DGEMN, em 2007. Nesse mesmo ano, ajudou no arranque do Museu do Oriente e, mais tarde, integrou a equipa administrativa e de gestão de projetos do Centro de História de Além-Mar (CHAM), enquanto assistente da direção, na FCSH/NOVA, onde esteve durante três anos, participando também em congressos e em publicações. João Paulo Oliveira e Costa, diretor do CHAM, revela que Sofia desempenhou este trabalho «com a qualidade e a dedicação que sempre teve» e que, de uma maneira geral, «é uma pessoa eficiente, tranquila e um excelente membro de equipas de investigação.»

História para a comunidade

Em 2011, arriscou e candidatou-se a uma bolsa de investigação científica, de três anos, para o projeto Móveis Modernos. A Atividade da Comissão para a Aquisição de Mobiliário no âmbito da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (1940-1980). «Um dia, apareceu-me na caixa de correio uma bolsa para um projeto promovido por uma pessoa com quem eu já tinha trabalho na Direção-Geral e achei que podia ser uma experiência interessante, uma vez que já conhecia muito bem o arquivo.»

O arquiteto e professor João Paulo Martins, um dos membros do júri da atribuição dessa bolsa de investigação e responsável pelo projeto, conta que conheceu Sofia quando ela foi para a Direção-Geral. «Quando abrimos o concurso para os Móveis Modernos, foi com alguma surpresa, mas com muita satisfação, que vi que a Sofia se tinha candidatado.» Conta que a experiência que Sofia tinha por já ter trabalhado em investigação e por conhecer muito bem os mecanismos e as pessoas envolvidas «foi um contributo fundamental para o projeto».

«História do Mobiliário e do Design não era aquilo em que ela tinha trabalhado até à altura, mas com flexibilidade e inteligência e com a capacidade de adaptação que tinha, imediatamente se colocou a par de tudo e trabalhou muito bem», diz João Paulo Martins. Sofia e o resto da equipa investigaram móveis, a encomenda pública e os edifícios públicos. Afirma que o que se trabalhava normalmente eram joias da coroa, mas que nunca ninguém se tinha lembrado de estudar o mobiliário para edifícios públicos.

Numa primeira fase, Sofia, juntamente com a outra bolseira, fez uma leitura aprofundada do arquivo. «A coleção tinha um início e um fim, de 1940 a 1980, estava intacta e o que fizemos foi varrer 40 anos de produção da Direção-Geral para o Estado Novo.» Em seguida, selecionaram edifícios que interessavam para o projeto e foram refazer essas histórias. «Não tivemos tempo de ir visitar todos os sítios que escolhemos, porque éramos só duas no terreno a tempo inteiro.»

Para João Paulo e o resto da equipa, as duas bolseiras eram «os olhos e as mãos» dos investigadores. «Elas ouviam as nossas inquietações e a partir daquilo que encontravam nos documentos, estabeleciam laços, procuravam responder às nossas perguntas e levantar outras, fazendo avançar a investigação e construindo um retrato daquilo que procurávamos.» As visitas que fizeram a escolas, hospitais, pousadas e tribunais, «eram um bocadinho entre o jornalístico e o detectivesco»: colavam as peças do puzzle e reconstruíam a história de determinado móvel ou de determinada instituição.

O projeto chamava-se Móveis Modernos, o que, diz João Paulo, era um bocado irónico, uma vez os móveis já tinham 40 anos. «Quando íamos falar com as pessoas, referíamo-nos a móveis antigos e elas não percebiam muito bem aquilo que queríamos.» Por outro lado, Sofia afirma que os móveis eram modernos porque a equipa achava que correspondiam ao que estava a ser feito lá fora: «Dentro de um contexto conservador, eram propostas perfeitamente alinhadas com aquilo que se fazia lá fora.»

Completamente rendida, Sofia relembra que quando chegavam às instituições, as pessoas ainda estavam sentadas nas cadeiras de que estavam à procura. A certa altura, conta que os funcionários mais antigos percebiam do que é que a equipa estava à procura e diziam que tinham mais móveis “daqueles” em armazém. «Era muito interessante. Íamos com os desenhos originais e parecíamos uns tontinhos a dizer “É igual, João Paulo, é igual”. E quando fazíamos os relatórios, púnhamos os desenhos e as fotografias que tínhamos tirado na visita lado a lado, aquilo colava e nós estávamos a contar uma história.»

Sofia assume que, acima de tudo, houve um grande cruzamento de informação entre história da arquitetura e do mobiliário e todo o contexto histórico que envolvia as instituições, e que isso foi uma grande valência do trabalho. «A produção artística, seja ela qual for, não existe sem um contexto político ou económico. Se encontro, por exemplo, uma cadeira da Estação Agronómica Nacional, tenho de ir perceber o que foi a Estação Agronómica Nacional; tenho de perceber que material foi utilizado, com que propósito e por que é que recorrem àquele tipo de mobiliário.»

João Paulo Martins descreve Sofia como tendo sempre uma enorme disponibilidade, uma enorme vontade de chegar às respostas. «A Sofia vivia isso com muita intensidade, mas, ao mesmo tempo, com uma enorme serenidade, com bom senso e sem desanimar».

Um dos resultados do projeto foi, para além da publicação de um livro, uma exposição, que se realizou no MUDE (Museu do Design e da Moda, Coleção Francisco Capelo), com o título O Respeito e a Disciplina que a todos se impõe. Mobiliário para Edifícios Públicos em Portugal (1934 – 1974), de 24 de julho a 2 de novembro de 2014. «A ideia era contar uma história. A história do funcionário público que também é arquiteto e que desenha uma cadeira porque é preciso mobilar uma repartição de finanças, por exemplo. A história do dia-a-dia.»

O segundo piso do MUDE encheu-se de móveis vindos de todo o país, que chegaram à Rua Augusta tal como se encontravam nas instituições a que pertenciam. «O que nós quisemos foi trazer cá para fora aquilo que andávamos a investigar. E foi bom perceber que isto foi tentacular, porque depois houve pessoas que continuaram as pesquisas sobre o assunto.»

Exposição «O respeito e a disciplina que a todos se impõem», realizada no MUDE (Lisboa), em 2014 http://pedrita.net/?portfolio=respeito-e-disciplina

Pormenor da exposição «O respeito e a disciplina que a todos se impõem», realizada no MUDE (Lisboa), em 2014.
http://pedrita.net/?portfolio=respeito-e-disciplina

Vários projetos

Sofia Diniz compõe, atualmente, a equipa de investigadores do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, onde está a dewsenvolver a sua tese de doutoramento, que «decorre e é completamente devedora do trabalho de investigação» que realizou no projeto Móveis Modernos.

Luísa Castro Caldas, amiga de Sofia desde os tempos da Direção-Geral, afirma que atirar-se para o doutoramento e para o tema do mobiliário foi a melhor decisão da vida de Sofia, que é um nicho «que lhe assenta muito bem: «Eu abandonei facilmente a História da Arte, mas para a Sofia é muito importante. Tenho imenso respeito pelo amor que ela tem à História da Arte.»

Em 2014, aquando da sua entrada no IHC, foi convidada por Fernanda Rollo, na altura presidente do Instituto e uma das suas orientadoras de doutoramento, a integrar um projeto intitulado Laboratório de História. O projeto consiste em levar a História e os motes da investigação universitária à comunidade.

No caso da Sofia, acompanhou os trabalhos de pesquisa de algumas alunas do Liceu Camões. Entre elas, Joana Almeida Flor, que recorda esta experiência com imensa emoção: «Tínhamos de escolher um tema da História de Portugal e eu escolhi um relacionado com História da Arte. A cada um de nós era atribuído um tutor e calhou-me a Sofia. Foi um acontecimento muito feliz na minha vida», diz. «Muito mais do que me ajudar na parte logística dos trabalhos e de me ter aberto completamente os olhos para um mundo diferente, foi uma pessoa que sempre me apoiou e que foi decisiva na minha opção de ir para História da Arte», confessa, após ter entrado em setembro deste ano na FCSH/NOVA.

Memória para Todos, projeto ao qual também pertence e que está a decorrer atualmente, consiste num levantamento de memórias junto da comunidade. No seu caso, integra a equipa de recolha de memórias das Avenidas Novas, podendo contar com memórias e testemunhos dos habitantes daquela zona da cidade de Lisboa. A exposição foi inaugurada no dia 30 de setembro, na galeria C1.10 do Picoas Plaza, em Lisboa.

Sofia, à esquerda, com alguns dos membros de projeto «Memória das Avenidas».

Para Sofia, estes dois projetos do IHC embora marginais ao tema da sua investigação são complementares. O laboratório, diz, é uma forma de devolver aos alunos, neste caso, do secundário, aquilo que aprendeu ao longo dos anos. O projeto das memórias é uma forma de aproximação à comunidade e de ter contacto com histórias de vida incríveis, que podem vir a ser pertinentes para o estudo que está a desenvolver.

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Sobre o/a autor/a

Estuda Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Adora ler e escrever. Quer ser jornalista.

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