Canto do Papão Lusitano: 50 anos depois

0

O Teatro Taborda estreia hoje, dia 9 de março,  Canto do Papão Lusitano, fruto de uma parceria entre a FCSH/NOVA e o Teatro da Garagem. A peça, que comemora 50 anos desde a sua primeira apresentação, é um convite à reflexão sobre a guerra colonial. Está em cena até 19 de março.

 Teatro Taborda. 21h30. Abrem-se as portas do auditório. As cortinas sobem. Segue-se o primeiro ato.

Primeiro ato: o projeto

Cláudia Madeira, docente do Departamento de Ciências da Comunicação da FCSH/NOVA, descobriu o texto de Peter Weiss enquanto fazia um trabalho de pesquisa acerca de representações artísticas sobre a guerra colonial portuguesa. Teve vontade, desde logo, de realizar algo em torno dele: o texto é praticamente desconhecido em Portugal e permite refletir sobre questões relacionadas com a guerra colonial que foram silenciadas pelo tempo. “Eu vejo precisamente esta peça como um instrumento de reflexividade”, sublinha.

A mesma ideia é partilhada por Carlos Pessoa, encenador da peça e membro da companhia Teatro da Garagem, que vê esta obra “como uma oportunidade de refletir e de fazer um luto em relação a circunstâncias que afetam as gerações mais recentes, nomeadamente o horror e a violência deixados pela guerra colonial”.

O Canto do Papão Lusitano foi escrito por Peter Weiss, em 1965, e encenado pela primeira vez em 1967, no Scala-Teatern, em Estocolmo (Suécia). Trata-se de uma peça de teatro documental, ou seja, baseada em factos reais, mas que, ao mesmo tempo, não exclui uma abordagem estética e poética, explica Cláudia Madeira, retratando o regime fascista e o colonialismo português em dois países africanos, Angola e Moçambique.

Tudo começou com um workshop no âmbito da disciplina de Teorias do Drama e do Espetáculo, lecionada por Cláudia Madeira, da licenciatura em Ciências da Comunicação da faculdade. Durante este workshop, Carlos Pessoa demonstrou interesse em reencenar o texto e vários alunos quiseram também participar como atores na peça. Cláudia Madeira ficou responsável pela dramaturgia.

Entretanto, foram realizadas no Teatro Taborda duas mesas redondas compostas por investigadores, encenadores e artistas com o objetivo de refletir sobre questões levantadas por este texto, segundo a docente, fundamentais para entender o período que retrata – os anos de 1960 -, mas também a contemporaneidade que é influenciada por ele.  “É provável que outros projetos possam surgir a seguir”, sublinha Cláudia Madeira.

Segundo ato: os atores

O Canto do Papão Lusitano é representado por atores do  Teatro da Garagem e por vários alunos da licenciatura em Ciências da Comunicação da FCSH/NOVA. Sobre trabalhar com alunos que nada têm que ver com o meio artístico, Carlos Pessoa mostra-se muito satisfeito: vê neles um estímulo para os artistas mais experientes, pois trazem novas questões, o que acaba por enriquecê-los enquanto artistas e pessoas, permitindo fazer um “teatro poroso, um teatro aberto, e muito estimulante”.

O encenador refere também a importância desta experiência na aquisição de conhecimentos e ferramentas para o futuro destes jovens: “adquiriram novos conhecimentos, aprenderam a conhecer a sua voz, o seu timbre, aprenderam também alguns requisitos da linguagem da técnica do dizer”. Rita Antunes, uma das estudantes que participam neste projeto, reforça esta ideia: “Sabia que ia aprender imenso”. “Todos os membros do grupo receberam-nos de braços abertos e disponibilizaram-se para nos ajudar, proporcionando-nos uma experiência inesquecível”, acrescenta, salientando o bom ambiente, de camaradagem e entreajuda, que se sente nos bastidores do espetáculo.

No entanto, segundo o ator Nuno Pinheiro, da companhia Teatro da Garagem, “o melhor disto, para além de partilhar conhecimento, noções teatrais ou conheceres pessoas novas, é formar pessoas de teatro, no sentido de pessoas que fazem teatro e, que por já terem passado por este processo, vão ter sempre uma perspetiva diferente perante o teatro e que passarão a participar na plateia de forma mais ativa e emancipada”. Esta ambição do ator acaba por transparecer no discurso da Rita Antunes ao afirmar que este projeto lhe deu “ainda mais vontade de continuar a fazer teatro”.

Terceiro ato: a peça e a nova encenação

A figura central desta obra é o Papão, uma entidade abstrata que representa as várias forças, instituições e personalidades que defendiam e apoiavam a continuação do regime português e do colonialismo. “Há um contexto político que se viveu e que se vive neste momento, então há uma atualidade assustadora, quase cíclica que eu identifico sobre essas comparações. No texto temos sempre uma referência ausente a um papão e, atualmente, há vários papões facilmente identificáveis, como um Trump, uma Le Pen… Mas apesar de termos informação, de não serem papões abstratos e serem individualidades específicas e identificadas, parece que não há nenhum retorno, que não há nenhuma vantagem, como não havia na altura, em sabermos quem são”, observa o ator Nuno Pinheiro.

Relativamente à nova encenação do Canto do Papão Lusitano, Carlos Pessoa explica que “há uma representação não convencional, mais ligada a uma perspetiva de instalação, de performance, há uma abertura para se descobrirem os gestos e as ações exatas”. Esta peça acaba por fugir àquilo que é um espetáculo teatral tradicional, sem que, no entanto, este tipo de representação esteja completamente ausente.

O espaço acaba por assumir um papel central no espetáculo, revela Carlos Pessoa. “Esta encenação está muito centrada no espaço, na relação com o espaço e de uma imersão do espectador no espaço. É o espaço que determina tudo. O espaço do teatro quase que se metamorfoseia. O espaço adquire uma plasticidade muito grande e uma significação muito forte.”

Este novo aproveitamento do espaço resulta de uma procura em envolver mais o espectador. “Esta encenação ocorre ao contrário do costume: as pessoas não se sentam na plateia, a maior parte dela foi mesmo retirada e, portanto, há uma imersão no espaço, ou seja, são convidadas a participar de um modo físico. É um espetáculo de envolvências, de atmosferas”, sublinha.

“A nível formal,  o espetáculo  demonstra que se pode fazer teatro de várias formas, ou seja, mostra outras maneiras de fazer e como é que o público também pode estar envolvido”, esclarece Nuno Pinheiro, acrescentando que “há uma inversão dos lugares, um ambiente sonoro gravado em detrimento de um sonoro ao vivo, há partes gravadas, partes ao vivo, há espectadores no palco, atores na plateia”.

As cortinas fecham-se. As luzes apagam-se. A porta do auditório fecha-se. Por hoje, acabou. A peça pode ser vista de quinta a domingo, às 21h30, até dia 19 de março, no Teatro Taborda, na Costa do Castelo.

Créditos da fotografia: São Ludovino.

Partilhe.

Sobre o/a autor/a

Rita Jorge

Encontrei na Comunicação uma janela aberta para explorar o mundo e deixar nele a minha marca. Doida por desporto, sou aquela maluquinha que anda na rua agarrada ao telemóvel a ver os resultados dos jogos ou a ver aquela bateria de surf fantástica. Mas sou também uma eterna insatisfeita, para quem nada é suficiente, por isso não viro a cara a qualquer desafio que surja.

Envie uma resposta

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.