Raquel Lourenço – o percurso de uma campeã

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É a melhor aluna do curso de Ciências da Comunicação da FCSH/NOVA, portadora do recorde universitário de barreiras e bolseira de investigação. Raquel Lourenço é uma atleta de alta competição no desporto e na vida.

Os seus movimentos a caminho dos blocos são estranhos, mas são parte de uma “uma espécie de ritual” que ajudam a “libertar a tensão”. Ali, antes do tiro de partida, não se deixa afetar pelos nervos – o seu foco está na meta. “Até posso estar nervosa, mas assim que vou para os blocos, começa a passar, e quando dão o tiro, passa tudo.” Mas nenhuma prova começa para Raquel Lourenço se não for “à casa de banho”.

Com várias medalhas conquistadas como barreirista, Raquel tem-se afirmado no panorama desportivo nacional. Atualmente, a sua prioridade passa por melhorar o tempo entre barreiras. “A Raquel não é uma atleta super rápida”, explica Mário Rato, o seu actual treinador. Desde que é juvenil “fez sempre mínimos para ir aos campeonatos, mas no sprint nunca conseguiu fazer, exceto num escalão”. Perante este facto, a mãe, Rute Lourenço, tem uma teoria: “A Raquel nunca gostou de caminhos lineares. As barreiras são mais desafiantes, obrigam a superar-se”.

Nasceu em Almada a 11 de Outubro de 1996. Cedo mostrou ser dona de uma personalidade vincada. “Nunca gostou de dormir. Desde os 15 dias que dorme durante toda a noite. De dia só dormitava”, conta a mãe de Raquel. Quando entrou no infantário, isto revelou-se um problema: “Como ela não dormia a sesta, teve que ir para a turma dos mais velhos.”

Sempre gostou de correr. Aos três anos já trepava para cima das mesas, o que levou os pais a adotarem medidas drásticas: “Tivemos que tirar todas as cadeiras da cozinha. Assim era mais difícil ela conseguir subir à mesa. E mesmo no quarto, se precisasse de alguma coisa que estivesse no cimo da estante, não pedia a ninguém. Simplesmente subia a prateleira”, relembra Rute Lourenço. Devido à sua vivacidade, os avós e os tios não a levavam ao parque porque não a conseguiam controlar: “Ela queria subir aos muros, pendurava-se de cabeça para baixo…”. O facto de não demonstrar medo era, segundo o pai, Luís Lourenço, um “prenúncio de que iria gostar de modalidades de risco”.

No entanto, a sua energia nunca foi um entrave quando precisa de se concentrar: “Quando tem que fazer algo que exige atenção, como estudar, a Raquel consegue abstrair-se de tudo o que está à sua volta, mesmo num ambiente cheio de estímulos”, explica a mãe. Esta capacidade ainda hoje a define.

Aos três anos entrou para a ginástica, o que para Raquel “foi uma festa, pois podia correr e saltar à vontade”. Já nessa altura encarava a ginástica com alguma seriedade: “Não queria faltar aos treinos e estava a preparar-me para competições nacionais”, explica. Saiu da ginástica aos 9 anos. “Os meus pais achavam que eu não estava feliz ali – era um ambiente fechado e muito competitivo.”

Aos 10 anos foi para a natação. Apesar de gostar de nadar, cedo percebeu que aquele não era o seu destino. “Não queria entrar para competição porque não via grande vantagem nisso. Treinava sozinha ou com pessoas que mal conhecia… Simplesmente não estava para aí virada.”

No final do sexto ano inscreveu-se no atletismo. “Fui para o atletismo porque a minha amiga gostava de atletismo, senão não sabia muito bem o que fazer”. O seu primeiro treinador foi à escola onde estudava fazer uma espécie de captação. Raquel e a amiga ficaram interessadas e foram falar com ele. “Disse-nos para experimentarmos o atletismo na Casa do Povo de Corroios, onde ele ia treinar. Fomos e acabamos por ficar as duas”. A amiga acabou por sair, mas Raquel continua lá a treinar até hoje.

O seu entusiasmo pelo atletismo contagiou toda a família. “Nós íamos levá-la ao treino e ficavamos a assistir”, conta o pai. Tanto o pai como a mãe já tinham praticado desporto na juventude. Mas, quando Raquel começou sua a actividade no atletismo, todos se entusiasmaram, acabando “por recomeçar a atividade desportiva”. Primeiro o pai, depois a irmã, Andreia. A mãe rendeu-se em último lugar. Hoje, treinam juntos todos os dias, embora pratiquem diferentes disciplinas.

Para Andreia, Raquel é a sua muleta: “Quando alguma coisa não está a correr bem no treino, a minha irmã faz-me tentar novamente”. Tem na irmã um modelo a seguir, “não só no atletismo, mas também na escola”.

Como era infantil, Raquel teve que experimentar todas as modalidades do atletismo. “No primeiro ano não sabia muito bem o que estava a fazer, era muito trapalhona, tinha os pés tortos.” Ao começar a ganhar algumas provas de marcha e barreiras apercebeu-se “que gostava daquilo”. Começou a dominar a técnica e aplicou-se nos treinos. Mário Rato confidencia que Raquel, no início, o enganou. “Quando ela apareceu, mal sabia correr. Agora já corre melhor, mas quem a vê não diz que é a atleta que é.”

Competiu como barreirista pela primeira vez aos 12 anos, no campeonato regional. Na primeira jornada, de entre as três opções propostas precisava escolher duas. Escolheu barreiras. A outra, já não se lembra. Nessa prova, ficou fora do pódio. “Fiquei em 4º ou 5º. Não correu bem nem mal, fiz o que sabia.” Mas na sétima jornada conseguiu a pontuação máxima. Venceu nas barreiras e na marcha. No final de todas as jornadas, acabou por ficar em terceiro lugar, apenas com um ponto de diferença do segundo lugar. O seu desempenho neste campeonato valeu-lhe o prémio Atleta Revelação. “O Diogo, o meu treinador da altura, achou que eu merecia um outro prémio. Inventou o Atleta Revelação e deu-mo a mim, pois quando entrei era desajeitada, mas no final já sabia fazer umas coisas.”

No entanto, a sua inserção no mundo do atletismo não foi um mar de rosas. “Quando a Raquel entrou disse que era muito competitiva e as outras miúdas levaram a mal, gozaram com ela”, relembra Mário Rato. A situação agravou-se quando Raquel se começou a impôr enquanto atleta. “Nessa altura ela não era politicamente correta. O que tinha a dizer dizia, não estava com papas na língua. Então houve algumas situações um bocado complicadas”, relembra a mãe. “Essas situações custavam-lhe, mas sempre lhe deram mais força. E felizmente esse período passou.”

Teimosia e persistência são as suas palavras de ordem. “Quando mete na cabeça que tem que fazer alguma coisa tem que fazer mesmo. E quer fazer bem. Se não for para fazer bem, não faz.” Uns dias antes da sua primeira representação pela seleção de Setúbal, lesionou-se a jogar volei na escola. Os pais tentaram demovê-la de participar na prova, mas sem sucesso. O médico da federação também entrou na discussão, mas foi inútil – Raquel estava decidida a competir. “Fez a prova com o pé ligado, parecia quase gesso. E fez tudo até ao fim. Quando acabou estava branca, pálida.” Ficou em segundo lugar no pódio e conseguiu uma projeção a nivel nacional.

Seguiram-se outras provas e mais medalhas foram conquistadas. Ao todo não sabe dizer quantas ganhou. Inicialmente contava-as, mas depois começou “a dar mais valor a umas do que a outras. Nem todas significam o mesmo.” Na memória ficarão as que ganhou no seu último Olímpico Jovem. “Fiquei em segundo nas barreiras, o que era mais ou menos esperado. Mas fiquei também em terceiro no salto em comprimento. E isso ninguém esperava, nem eu.” Acabou também por bater o seu recorde pessoal no salto em comprimento.

Mas o atletismo não lhe trouxe só medalhas. “Conheci o André no atletismo. Ele fazia-me rir, era bem-disposto. Dizia disparates, metia conversa – o oposto de mim.” Nos momentos em que precisava de ajuda “ele estava lá”. Antes de encontrar um namorado, “encontrou um amigo”, alguém que a aceitou sem reservas. “Se ela precisa de espaço e de tempo para estudar e treinar, tenho que respeitar isso”, explica André Leal, também atleta. Estão juntos há pouco mais de quatro anos. O facto de treinarem juntos e terem o mesmo treinador ajuda na estabilidade da relação: “O treino acaba por ser um bocado o salvador da situação. A disponibilidade de horários da Raquel não é tão grande, e nas pausas metemos a conversa em dia”, explica.

Vida Académica

No básico foi sempre aluna de mérito, apesar de treinar quatro vezes por semana. Da parte dos pais nunca foi necessário controlo para não se desleixar nos estudos. “A exigência que tem nos estudos é a mesma que tem no desporto – tentar sempre o máximo. Nunca foi preciso impormos nada nem estarmos a pressionar nada”, explica o pai. De quem herdou estas características não sabem dizer. “É algo dela, foi sempre assim.”

Nem sempre conciliar os estudos com o desporto se revelou fácil. Um ano particularmente difícil foi o 9º. “Os professores queriam-nos preparar para o secundário e então davam-nos muitos trabalhos. E no 9º ano há muitas disciplinas. Eu acordava cedo e deitava-me tarde. Foi complicado.” Os colegas de turma também não ajudaram. “Eu gostava muito de desporto, logo aí era um bocado diferente das outras miúdas, e gostava de ter boas notas.” Não é que gostasse muito de estudar, simplesmente agradava-lhe o “resultado do estudo. E elas achavam aborrecido estudar e tentavam fazer-me sentir que eu não era normal”, desabafa. O facto de não ser politicamente correta não ajudou: “Se me fizessem sentir mal, não conseguia responder bem.” Nesta fase os amigos revelaram-se um apoio essencial: “Ao estar com eles, conseguia abstrair-me de tudo o resto.”

Esta situação acabou por moldar alguns aspetos da sua personalidade: “Eu era muito extrovertida na infância. Com estas experiências comecei a ficar mais calada”. Encontou na escrita um refúgio e um modo de se expressar: “Tenho um bocado de medo de, na oralidade, usar as palavras erradas. Ao escrever tudo é pensado, digo o que quero, revejo imensas vezes”. Contudo, com o passar do tempo, está a perder progressivamente o medo de falar: “Agora está mais confiante do que quando a conheci, aprendeu a enfrentar e quando quer falar fala”, garante o namorado.

Hoje, Raquel está certa que o seu futuro profissional passará pelo jornalismo. Mas, no 9ºano, as dúvidas eram muitas. Para tentar perceber qual o caminho a seguir, fez testes psicoténicos orientados pela psicóloga da escola. O resultado revelou-se inútil. “Segundo a psicóloga eu podia seguir tanto Humanidades como Ciências. Mas depois ela disse: ‘Se calhar, opta por humanidades. Mas humanidades sem contacto com pessoas. Jurista, numa biblioteca ou fechada numa sala, mas sem pessoas’, e eu senti-me a pessoa mais antissocial do mundo”, relembra. Nesse dia chegou a casa “indignadíssima”, conta a mãe.

O gosto pela escrita levou-a para as Humanidades. “Decidi que para estudar iria incidir na escrita, mas não literária.” Da escrita para o jornalismo não sabe bem como se deu o salto. “Sabia que o jornalismo era uma forma de contar o mundo, de dar a conhecer o mundo, de eu própria saber mais coisas e chegar a mais pessoas.”

Estuda Ciências da Comunicação na FCSH/NOVA. Está no terceiro ano de licenciatura. Descobriu o curso por acaso. “No secundário um colega tinha um manual de cursos da Lusófona e vi lá que uma forma de chegar a jornalista era através das Ciências da Comunicação.” Como a Lusofona é privada, investigou e descobriu o curso na Nova. Foi ao dia aberto da faculdade, gostou do ambiente e na altura de se candidatar ao ensino superior não teve dúvidas: A Nova foi a sua “primeira opção”. Colocou uma segunda hipótese porque “parecia mal colocar só uma.” Foi a terceira melhor média de entrada no curso nesse ano.

No final do primeiro ano de licenciatura, recebeu um prémio por ter a média mais alta do curso. “Tinha noção de que a minha média deveria ser das primeiras, mas tive a certeza quando recebi uma carta da universidade a convidar-me para ir à cerimónia.” Para Raquel, a distinção foi a prova de que conseguia conciliar tudo. “Quando entrei para a faculdade achava que ia correr bem, mas não sabia se ia correr assim tão bem. Ao receber a carta tive a certeza de conseguir estar à altura das expectativas que tinha para mim.”

O sucesso académico de Raquel não surpreende quem consigo treina todos os dias. “É difícil, mas ela é empenhada, acho que consegue”, diz Diogo Martins, colega de treino de Raquel. Também o treinador não fica admirado: “Ela é tão competitiva e aplicada no desporto que acho que acaba por o ser também nos estudos”. Mesmo quem não convive tanto com Raquel nos treinos acaba por ter noção do seu sucesso escolar: “Conheço a Raquel há pouco tempo, mas sei que é boa aluna. O namorado dela faz-lhe uma excelente publicidade a esse nível”, revela Andreia Messias.

Com a faculdade, o volume de trabalho aumentou e simultaneamente o tempo de descanso diminuiu. “Há momentos em que é mais fácil e momentos mais difíceis. Quando tenho muitos trabalhos e textos para ler é complicado. Chego a casa tarde e não posso acordar muito mais cedo.” Esta situação acaba por se refletir nos treinos: “Ultimamente sente-se cansada… O ritmo do treino aumentou e ela descansa pouco, perde noites a estudar”, comenta Mário Rato. Mas a sua dedicação não diminui: “Mesmo cansada, grande parte das vezes, faz o treino todo”. Também Pedro Ferreira, colega de treino de Raquel desde 2012, diz não treinar todos os dias, mas que quando vai “ela está cá sempre, o que só mostra o seu empenhamento”.

A sua dedicação leva a que, por vezes, não respeite o seu corpo: “O ano passado lesionou-se porque estava cansada. Mas decidiu fazer o treino de barreiras como se estivesse tudo bem. Claro que ia acabar por se lesionar”. Agora aprendeu a resguardar-se: “Quando está cansada fala com o treinador”, explica André.

Novos desafios

Atualmente, Raquel Lourenço defende o Juventude Vidigalense. No dia em que fez 19 anos, recebeu uma mensagem do porta-voz do clube a elogiar as suas marcas da época passada juntamente com uma proposta para representar o clube. “Ponderei bastante. Sabia que ia deixar de ser atleta de Setúbal e passaria a representar Leiria. Também não sabia qual seria a reação do meu treinador, dos meus colegas e do meu namorado… E de repende tudo ficava mais sério.” A resposta não foi imediata. “A Raquel teve muita dificulade em sair da Casa do Povo. Eu incentivei-a porque o clube de Leiria dá-lhe mais possibilidades, mais competição, projeta-a mais”, diz Mário Rato. Acabou por aceitar. E não podia estar mais satisfeita. “No Juventude Vidigalense coexiste muito um espírito competitivo, mas ao mesmo tempo somos quase uma família, o que se enquadra mais ou menos na minha personalidade”.

Em outubro deste ano, foi homenageada pela Câmara Municipal de Leiria, devido aos seus resultados na época passada, quer pelas provas individuais, quer pelas prestações em grupo. “É bom saber que alguém repara naquilo que acontece na pista”, comenta Raquel.

A acrescentar à faculdade e ao desporto, em junho deste ano passou a intregrar o CIC.Digital, centro de investigação. Tudo se deveu a um trabalho que fez sobre a RTP1 para a cadeira de História dos Media. “Um dia, o professor Cádima viu-me na faculdade e perguntou-me se queria fazer parte de uma investigação que ia iniciar sobre a RTP1 e a RTP2. Disse também que se lembrava do meu trabalho sobre a RTP1 para a sua cadeira.” O “sim” foi imediato. Candidatou-se a uma bolsa para a investigação e atualmente é investigadora bolseira. Garante estar a gostar, “apesar de estar tudo ainda muito no início”. Assegura ser difícil conciliar todas as atividades, mas está “contente por ter a oportunidade de conhecer uma programação mais cultural”, ao mesmo tempo que sente que não está a trabalhar. “Não sinto que estou a perder tempo a ver TV quando tenho coisas relacionadas com a faculdade para fazer.” De certa forma, a Investigação proporcionou-lhe mais momentos de lazer sem que se sinta culpada.

Se é algo para fazer no futuro, ainda não sabe dizer. Mas a mãe não tem dúvidas: “Acho que a investigação tem tudo a ver com ela”. O namorado partilha a opinião: “É algo que sinto que ela gosta e que a vai diferenciar no currículo”.

Relativamente aos planos para o futuro, garante estar tudo em aberto. “Gosto de ter uma parte planeada e outra que vai surgindo”. Para já, e no que ao atletismo diz respeito, quer continuar a ter bons resultados e melhorar o seu recorde pessoal, “mesmo que não chegue a ir aos Jogos Olimpicos”. No que toca à faculdade, “acabar a licenciatura e cumprir os projetos da investigação” são os seus desejos. Depois,“descansar, ir ao teatro e viajar” constam na sua lista de planos. E, como não quer casar num futuro próximo, pretende “continuar a namorar”.

 

 

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