Estado Português homenageia portugueses mortos nos campos nazis

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O Ministério dos Negócios Estrangeiros irá homenagear, pela primeira vez, os portugueses vítimas do terror nazi com a colocação de uma placa no Muro das Lamentações do Campo de Concentração de Mauthausen (Áustria). A homenagem decorrerá no dia 7 de Maio, dia da libertação daquele campo de concentração.

Esta homenagem decorre do trabalho de uma equipa internacional de investigadores que identificou centenas de portugueses sujeitos a trabalhos forçados em vários campos de concentração alemães durante a II Guerra Mundial. “Morreram muitos portugueses nos campos de concentração na Alemanha, muito mais do que se supunha”, afirma Fernando Rosas, do Instituto de História Contemporânea (IHC) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

Este é o culminar de um projecto de investigação que se iniciou há cerca de três anos e que terminará em Novembro com uma exposição e conferência internacional no Centro Cultural de Belém. Nessa exposição, para além de ser feito um enquadramento geral sobre o trabalho forçado na Alemanha nazi, será abordada a mobilização dos portugueses para os campos de concentração: “Além de propormos uma explicação acerca da forma como eles foram parar ao trabalho forçado na Alemanha, também tentamos contar vários casos individuais, que entretanto detectámos e pudemos, pelo menos parcialmente, reconstituir”, conta Fernando Rosas.

São casos como o de Émile Henry, português nascido em Moçambique filho de pais franceses, obrigado a cumprir serviço militar na França ocupada, do qual fugiu, tendo acabado por ser preso junto à fronteira espanhola. Foi então violentamente interrogado e, depois, enviado para o campo de concentração de Buchenwald (na Alemanha) como preso político. Conseguiu sobreviver ao campo e regressar a Portugal onde, em 1945, publicou o livro “A Morte Lenta” — um dos objectos raros que estará patente na exposição.

O modo como os portugueses chegaram aos campos de trabalho forçado e de concentração pode ser classificado em dois grandes grupos: aqueles que emigraram para a Alemanha no início da guerra em busca de trabalho melhor remunerado e que, depois, acabaram por ficar presos no país e a trabalhar sem receber; e aqueles que foram deportados pela França colaboracionista ou presos por terem relações com a Resistência e outras organizações anti-nazismo. “Todo o sistema concentracionário comportava milhões de trabalhadores forçados que trabalham em todas as actividades indispensáveis ao funcionamento da economia e vida civil alemã, porque os homens estão todos na guerra”, acrescenta Fernando Rosas.

Para descobrirem os portugueses que trabalharam e morreram nestes campos, os investigadores visitaram e estudaram os arquivos de vários campos de concentração nazis (sobretudo os de Mauthausen e Buchenwald) e também os arquivos relacionados com o transporte de comboio dos prisioneiros para os campos, que foram metodicamente elaborados e mantidos pelos alemães, estando hoje a cargo de instituições especializadas.

Do governo português da época, os historiadores não encontraram qualquer intervenção junto das autoridades alemãs ou dos campos de concentração onde se encontravam portugueses. Fernando Rosas afirma mesmo que “o governo fez tudo o que foi possível para eliminar a notícia de qualquer envolvimento de portugueses, quer como vítimas nos campos de concentração ou nos campos de prisioneiros, quer como colaboradores.”

A equipa de investigadores que, para além de Fernando Rosas, inclui Ansgar Schaefer, Cláudia Ninhos, António Carvalho, Cristina Clímaco e António Muñoz, foi financiada pela fundação alemã EVZ — “Memória, Responsabilidade e Futuro”, especializada no financiamento de projectos de investigação sobre o trabalho forçado na Alemanha. Contou ainda com o apoio do Goethe-Institut de Lisboa e da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da NOVA.

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