Praxe: um olhar renovado

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“É rastejando que se ascende aos tetos?” A provocação dirigida aos estudantes universitários ficou imortalizada na voz de Sérgio Godinho. Afinal, a praxe é sinónimo de integração ou humilhação? O assunto tem dividido a Academia e a sociedade. Na FCSH/NOVA, não falta quem queira lutar por uma integração mais democrática dos novos alunos.

Um vigoroso Sol de Março abrasa as ruas da cidade. É dia de praxe na FCSH. Do outro lado da rua, o sino da igreja bate quatro badaladas que ecoam na tarde calma. Hora de reunir o curso de Ciências da Comunicação e seguir em direção ao Parque Eduardo VII, onde decorrerão as atividades preparadas para hoje. As capas pousadas nos ombros dos estudantes tingem a Avenida de Berna de negro. Os cânticos entoados em uníssono atraem os olhares indiscretos de quem passa. A incessante dança das vidas citadinas abranda para ver passar a praxe. Há uma desconfiança instalada nos olhares, fruto de décadas de acesa discussão em torno dos abusos associados a esta tradição académica.

As origens da praxe, então designada “investida”, remontam ao século XVII. Em Coimbra, os novos alunos eram recebidos com castigos e insultos. A ordem lavrada por D. João V, em 1727, determinaria a primeira proibição destes rituais de iniciação. Mas a praxe continuaria a trilhar um percurso marcado por sucessivas polémicas e contundentes contestações. No decorrer do século XX, várias foram as vezes em que a controvérsia ocupou as primeiras páginas dos jornais. O Diário de Lisboa, por exemplo, foi palco de uma inflamada discussão sobre o assunto. “Se há caloiros que tudo suportam, há os que não sofrem sem raiva no coração as humilhações impostas por indivíduos tantas vezes intelectualmente coxos”, lê-se num excerto citado pelo jornal Público.

Em Dezembro de 2013, o “caso do Meco” voltou a ditar uma viragem na atenção mediática sobre este fenómeno. Na esteira deste caso, as equipas ministeriais com a pasta do Ensino Superior começaram a encarar as praxes abusivas como um fenómeno a ser combatido. A integração feita pela praxe “acarreta um preço que consiste na submissão dos novos estudantes aos seus colegas mais antigos, num jogo onde a fronteira entre a brincadeira e a humilhação nem sempre é clara”, segundo conclui o estudo intitulado “A Praxe como Fenómeno Social”, divulgado em Março de 2017. Não obstante, o relatório, que foi realizado a pedido do Governo, constata que nem todas as praxes promovem de igual forma a subjugação e humilhação dos novos alunos. Existe uma multiplicidade de praxes: de exercício físico e punição, de medo e susto, de “nojo”, de troça, praxes lúdicas, com charadas e jogos. Ainda que com um “peso meramente residual”, também existem praxes com uma “intenção pedagógica, com visitas às cidades e ações de solidariedade social”.

Uma praxe pedagógica

Por fim, chegamos ao Parque Eduardo VII. Hoje é dia de “Praxe de União”. O objetivo é cimentar as relações entre os alunos. Num dos jogos, os caloiros são desafiados a tirar um rebuçado de um alguidar e a comê-lo sem usarem as suas próprias mãos. Depois de algumas tentativas, os estudantes percebem que a chave do jogo é, na verdade, muito simples: basta que levem o rebuçado à boca dos colegas. Joana Calado, aluna do 3º ano e porta-voz da Comissão de Atividades Académicas de Ciências da Comunicação (CAACC), afirma que “a partir de jogos como este é mais fácil transmitir uma mensagem muito importante: no mundo universitário eles têm de ser unidos, têm de se ajudar uns aos outros”. A estudante defende que esta é, sobretudo, uma praxe pedagógica: “o nosso objetivo é que eles se divirtam, conheçam pessoas e aprendam”.

A atuação de todos os praxantes é norteada e limitada pelo “Código de Praxe” do curso, onde é frisado que a praxe se deve desenrolar em “ambiente de festa”, não servindo para “ocultar cobardia, violência ou quaisquer outros atos que possam pôr em causa a integridade física, moral, psicológica, religiosa e financeira dos novos estudantes”. Ainda assim, a porta-voz da Comissão de Atividades considera que este limite “é uma linha muito ténue”, concluindo que “os caloiros é que sabem quais são os seus limites e o que é que os ofende”.

Ainda que a CAACC tenha assumido o objetivo de incentivar uma comunicação aberta e bilateral entre praxados e praxantes, a estrutura hierárquica que rege as relações estabelecidas no seio da praxe continua a ser preservada, dado que esta é, segundo Joana Calado, “uma condição que temos de enfrentar ao longo da vida”. Contudo, “na praxe” – afirma – “o respeito é exigido entre todos. Tem de ser mútuo”.

Apesar do receio que inicialmente sentia em relação às praxes, Maria Inês Gaibino, aluna do 1º ano da licenciatura de Ciências da Comunicação, decidiu participar nas atividades da primeira semana para poder formular o seu próprio juízo. A praxe superou todas as suas expectativas, principalmente por ter fomentado um “espírito de equipa e união muito forte”. “Enquanto caloira” – conta – “presenciei sempre uma praxe aberta a todos e onde qualquer um é livre de expressar ideias e opiniões”. Os momentos de que mais gostou, e que conquistaram a simpatia dos seus pais, foram os da “Praxe Solidária”, realizada por duas vezes no primeiro semestre.

O primeiro momento solidário aconteceu em Setembro. O desafio lançado pela CAACC consistia em dinamizar, durante uma tarde, o Jardim de Infância da Escola Rainha Santa Isabel. Por sua vez, em Dezembro realizou-se uma outra atividade, cujo propósito era o de angariar dinheiro para a Acreditar, instituição que apoia crianças com cancro e as respetivas famílias. Na Baixa de Lisboa, os estudantes cantaram músicas de Natal, dançaram e fizeram teatro de improviso. No final do dia tinham juntado 150 euros para a Associação.

Oriundo do Brasil, Wesley Machado, aluno do 1º ano da licenciatura, não tinha conhecimento desta tradição académica portuguesa. Chegou a Portugal há dois anos e afirma que o primeiro contacto que teve com a praxe, na primeira semana de aulas, o assustou. Porém, à medida que foi participando nas atividades e conversando com os seus colegas, integrou-se rapidamente. “Nunca senti ou presenciei nenhum ‘abuso de poder’. Sempre assisti a uma praxe abrangente, onde nos divertimos e respeitamos uns aos outros”, assegura.

Uma AlternAtiva à tradição

Em Julho de 2016, 100 personalidades subscreveram uma carta aberta, divulgada pelo Público, que insta as instituições de Ensino Superior a criarem atividades de receção e integração dos novos estudantes “que configurem uma alternativa lúdica e formativa às iniciativas promovidas pelos grupos e organizações de praxe”. A missiva, que uniu músicos, cineastas, deputados, jornalistas, atores, defende que, “em democracia, deve haver sempre lugar à escolha, mas só é possível escolher se houver opção, ou seja, alternativas consistentes”.

Maria Runkel Cardoso, aluna do 3º ano do curso de Antropologia da FCSH, respondeu ao apelo dos 100 signatários da carta. Em conjunto com Rebeca Amorim Csalog, que também frequenta o 3º ano do curso de Antropologia, criaram o movimento AlternAtiva, com a finalidade de oferecer aos alunos um espaço de convívio e dinamização cultural alternativo à praxe, à semelhança do que acontece na Universidade de Coimbra, desde 2014, com o Cria’ctividade.

Aquando da sua entrada no Ensino Superior, Maria confessa que a pressão que sentia para participar na praxe a inquietou, por ter medo de não se conseguir integrar na faculdade sem se envolver nas atividades praxísticas. No segundo ano, quando fez Erasmus, apercebeu-se de que a maior parte das cidades europeias têm organizações que integram os alunos novos através da promoção de convívios, roteiros pela cidade ou festas. Foi pela conjugação destas experiências que percebeu que seria relevante criar na FCSH um movimento que proporcionasse uma integração “sem hierarquias e humilhações”, norteado pelos “valores da igualdade, do companheirismo, da amizade e da justiça”. O projeto estruturou-se, desde o início, a partir de uma rede horizontal, sem qualquer divisão entre quem participa e quem organiza: “faz mais sentido todos fazermos para todos”, defende.

Esta iniciativa visa dinamizar a faculdade ao longo de todo o ano letivo, ainda que se concentre um maior número de atividades nos primeiros dias de aulas. No início do 1º semestre, de 19 a 30 de Setembro, a AlternAtiva organizou tardes de poesia no anfiteatro da Gulbenkian, concertos na esplanada da faculdade, workshops, convívios em jardins e miradouros, passeios fotográficos e roteiros temáticos por Lisboa. Maria reconhece que “a maioria das atividades não contaram com um grande número de pessoas, contudo, alguns concertos e tardes de poesia superaram as expectativas”. A organizadora refere, ainda, que o projeto conseguiu atrair vários estudantes de Erasmus, que “mostravam um especial fervor por conhecer pessoas e visitar a cidade”.

Maria Ferreira, aluna do 1º ano da licenciatura de Estudos Portugueses da FCSH, defende que a praxe tradicional não é uma forma de integração que possa ser credibilizada, dado que obedece a uma “lógica de hierarquização que por si só é ilegítima”. Desta forma, a estudante conta que encontrou na AlternAtiva “as melhores e mais pertinentes atividades, sem nunca faltar um sorriso”. Para a aluna, no contexto de uma faculdade de ciências sociais e humanas, revela-se fulcral a emergência de movimentos como este, que assumam “a marca cultural como orientadora”.

O objetivo primordial do projeto, que é pioneiro em Lisboa, passa agora por garantir que todas as pessoas que estejam interessadas no movimento tenham as ferramentas necessárias para o implementar noutras faculdades. Neste momento, a AlternAtiva já se estendeu à Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, mas Maria Runkel Cardoso assume a vontade de “criar uma rede de AlternAtivas pelas universidades do país”.

Ora, o debate travado em torno da praxe continua vivo e tem dado os seus frutos. Há vontade de mudar. Na FCSH, há quem almeje uma integração dos novos alunos que não se paute pela humilhação, pela violência e pela subjugação. Lutam para que o início do percurso académico, um novo ciclo marcado por inúmeros desafios, se processe num ambiente festivo e acolhedor. Um ambiente que, acima de tudo, não aniquile a capacidade de olhar criticamente o mundo. Até porque é o pensamento crítico que nos torna capazes de “ascender aos tetos”.

 

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Sobre o/a autor/a

Luís Eusébio

Norteia-me a ânsia de conhecer sempre mais, a curiosidade insaciável de quem constantemente (se) questiona. Define-me sobretudo o fascínio pela força que encerram as palavras. Desde sempre um incurável aspirante a jornalista, porque é no jornalismo que se alicerça a Democracia. É o valor da liberdade que me (co)move: e é exactamente por querer ser livre que quero ser jornalista.

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