UrbanWINS estimula cidades do centro de Portugal a ir além da reciclagem

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O UrbanWINS, do qual a FCT/NOVA é parceira, olha para os meios urbanos como organismos vivos e quer perceber o que as cidades consomem, digerem e descartam. Este projeto europeu, financiado pelo programa comunitário de pesquisa e inovação, Horizonte 2020, visa equacionar a prevenção, redução e reutilização dos resíduos através do modelo do metabolismo urbano.

Leiria, Viseu, Castelo Branco, Figueira da Foz e Penacova estão envolvidas no UrbanWINS. Apenas Leiria é cidade-piloto, mas todas contribuem para alcançar os objetivos preliminares do projeto: a compreensão do consumo de recursos e o conhecimento do destino que lhes é dado.

Dar vida a conceitos como o de economia circular é uma das ambições. “Não é uma palavra nova mas, pela primeira vez, está a ter um forte impacte junto dos órgãos de decisão e dos cidadãos. As pessoas estão mais interessadas em participar e mudar e isso é muito importante”, salienta Fausto Freire, coordenador do Centro de Ecologia Industrial, da Universidade de Coimbra.

Flávia Silva, subcoordenadora do UrbanWINS na FCT/NOVA, fundamenta que a escolha de Leiria se prendeu, entre outros fatores, com a escala. “O que se pretendia era algo mais regional e não uma área metropolitana como Lisboa ou Porto”. Além disso, “tendo em conta que o modelo já fora aplicado numa grande cidade como Gotemburgo (Suécia), agora o interesse era escolher meios urbanos de média dimensão, onde fosse mais fácil controlar as entradas e saídas de materiais e energia”, acrescenta a coordenadora na FCT/NOVA, Lia Vasconcelos.

Metabolismo urbano é a metáfora-chave deste projeto comunitário. “Há que analisar as cidades como organismos que vivem, crescem e se reproduzem. Os fluxos que circulam são resultado de decisões e importa conhecer os produtores e consumidores que as tomam”, destaca Suhita Osório Peters, coordenadora científica da CEIFAcoop – cooperativa dedicada à formação, consultoria e investigação ambientais.

Leonardo Rosado, investigador português que se licenciou na FCT/NOVA e tirou o mestrado e o doutoramento no Instituto Superior Técnico de Lisboa, é o autor do modelo do metabolismo urbano aplicado – tema da sua tese de doutoramento. Atualmente, leciona e é investigador na Universidade Técnica de Chalmers, em Gotemburgo. “O modelo já foi aplicado em Gotemburgo e, agora, a intenção é replicá-lo nas cidades-piloto do UrbanWINS, tornando-o o mais abrangente possível”, esclarece Flávia Silva.

Mas o modelo do metabolismo urbano não é bem-sucedido sem uma avaliação de ciclo de vida (ACV). Fausto Freire lembra que, para ser contabilizado o que entra, sai e se acumula nas cidades, é fundamental conhecermos bem todas as fases da vida de um produto. A ideia é serem avaliados os impactes diretos e indiretos. “Face a mercados globalizados, as transações internacionais de bens e serviços só vêm tornar estas avaliações mais complexas porque, hoje em dia, as etapas não se circunscrevem a territórios nacionais”, acrescenta.

Trabalho em curso

“O projeto foi lançado em junho de 2016 e, neste momento, a equipa europeia está a finalizar o levantamento de todos os dados necessários”, conta Lia Vasconcelos. Refere-se aos dados que estão a ser recolhidos nas 24 cidades europeias e que, posteriormente, serão utilizados para definir os Planos Estratégicos de Prevenção e Gestão de Resíduos, a implementar nas oito cidades-piloto: Cremona, Torino, Albano Laziale e Pomezia (Itália); Bucareste (Roménia); Leiria (Portugal) e Manresa e Sabadell (Espanha).

Leiria é única cidade-piloto portuguesa e a vontade de “uma gestão eficiente dos resíduos e melhor qualidade de vida urbana” foi a mensagem deixada pelo vereador do Ambiente de Leiria, Ricardo Santos, no seminário “Economia Circular e Gestão de Resíduos – Uma abordagem inovadora e participativa”.

No entanto, não está sozinha no UrbanWINS. No total, Portugal tem cinco localidades do centro envolvidas neste projeto. “Leiria é a única cidade onde os planos estratégicos serão postos em prática. Porém, Viseu, Castelo Branco, Figueira da Foz e Penacova também terão muito a ganhar porque estão entre as 24 cidades que já ficarão com a etapa inicial da análise adiantada”, explica a investigadora Flávia Silva.

O cruzamento entre o trabalho técnico-científico e o parecer dos cidadãos dá-se nas ágoras. Não atenienses, mas leirienses e virtuais. “A implementação de estratégias efetivas depende da partilha de ideias, dúvidas e sugestões e as ágoras físicas (na cidade-piloto de Leiria) e online (num fórum no qual qualquer um pode participar) foram a solução encontrada”, justifica Lia Vasconcelos. “Enquanto o debate virtual já começou a 20 de março, é no dia 29 de junho que se irá realizar a primeira ágora física de Leiria”, completa.

Da parte da FCT, o Waste@NOVA está responsável pelo tratamento técnico dos dados recolhidos e a WTeamUp estará focada no trabalho a desenvolver nas ágoras. Flávia Silva lembra que “à partida, este é um assunto que diz respeito a todos porque apesar de englobar 19 instituições de investigação, municípios, empresas, ONG ou entidades gestoras de resíduos, todos somos consumidores, produtores e gestores de resíduos no nosso dia-a-dia”.

No final, o objetivo é claro. “Contamos apresentar um modelo colaborativo capaz de analisar e quantificar o metabolismo urbano das oito cidades-piloto, a fim de o disponibilizar a qualquer autoridade pública que o queira pôr em prática”, informa a coordenadora Lia Vasconcelos.

Meta comunitária

De acordo com o pacote da economia circular da Comissão Europeia, até 2030, o objetivo dos estados-membros é reutilizar e reciclar 65% dos resíduos urbanos.

A coordenadora da CEIFAcoop, Suhita Osório Peters, enfatiza a importância de, em primeiro lugar, se minimizar o desperdício e, clarifica ainda, que reciclagem não é sinónimo de sustentabilidade – “Convém não esquecer que a matéria-prima da reciclagem é lixo e a ideia do UrbanWINS é, sim, dar privilégio ao prevenir, reduzir e reutilizar”.

Lia Vasconcelos revela-se otimista: “Havemos de lá chegar. Em Portugal, por sermos um país pequeno, torna-se mais fácil envolver as pessoas. Não há um fosso tão grande entre os órgãos de decisão e a população e somos uma sociedade de tradição oral, que facilmente cria redes e desenvolve um espírito comunitário”.

Com um orçamento global superior a 77 mil milhões de euros, Horizonte 2020 visa “garantir a liderança industrial na União Europeia até 2020 e contribuir para a concretização da Estratégia Europa 2020, estratégia centrada no crescimento inteligente, sustentável e inclusivo”. Os parceiros nacionais do UrbanWINS são a Câmara Municipal de Leiria, a Universidade Nova de Lisboa, a Universidade de Coimbra e a CEIFAcoop.

 

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Sobre o/a autor/a

Todos os dias são novas páginas da vida, prontas a serem escritas e permanentemente reescritas pela recordação e imaginação. A curiosidade e o sorriso são uma constante e a paixão pela natureza algo inato. Na busca de um amanhã mais sustentável, apresento-me como aspirante a jornalista ambiental que ambiciona dar voz e visibilidade a causas.

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