Gap Year: um ano para crescer

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Terminaste o secundário e não sabes o que fazer? Saíste da faculdade mas ainda não estás pronto para entrar no mercado de trabalho? Tirar um ano pode ser a solução. Uma pausa não tem de ser sinónimo de inércia. Pode significar pegar na mochila e ir à descoberta.

Estudar, entrar na faculdade, começar a trabalhar. Este é o trajeto planeado pela maioria dos jovens. Ainda assim, há quem opte por fazer um desvio, parar um ano. Fazer um Gap Year é precisamente isso. Um ano de intervalo que serve para viajar, fazer voluntariado, estagiar, ou simplesmente descansar e conhecer sítios diferentes. Este ano sabático normalmente é feito noutro país e pode acontecer ao longo da vida, em qualquer idade. No caso dos jovens, por norma, é realizado no final do ensino secundário ou da licenciatura.

A escolha de um curso não é uma decisão fácil de tomar. Que o diga Marta Salvador, 20 anos, aluna do primeiro ano de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA). Tal como tantos outros jovens, acabou o ensino secundário sem saber que rumo tomar. Aos 18 anos “tinha noção de que não queria ir para a faculdade”, sentia que seria um erro precipitar-se. Nesse sentido, começou a fazer pesquisas e a contactar pessoas que tinham passado pela mesma situação. Foi a um encontro nacional de gappers porque “queria conhecer experiências e ganhar ideias”. Depois de ouvir vários testemunhos, resolveu passar os próximos 10 meses a fazer voluntariado. Ao contrário dos seus amigos, que foram para a faculdade, a jovem decidiu embarcar nesta viagem.

Optou por fazer um Serviço Voluntário Europeu (SVE) coordenado pela Associação Mais Cidadania. O SVE é um programa, sem custos, que permite aos jovens entre os 17 e os 30 anos desenvolver uma ação de voluntariado num país diferente do seu, durante um período que pode ir até doze meses.

Marta partiu para uma pequena vila francesa chamada Brioude, na região de Auvergne, onde poucas pessoas falavam inglês. Deste modo, foi desafiada a aprender a falar francês, uma língua que lhe era desconhecida. Durante os primeiros 6 meses trabalhou num café cultural, “onde servia refeições e participava nas atividades do estabelecimento quando havia concertos”. Mais tarde, passou a conciliar a sua atividade no café com um trabalho num espaço educativo com crianças dos 3 aos 11 anos. Descreve esta aventura como algo “marcante”, uma experiência que lhe conferiu “bagagem e confiança” para os desafios posteriores. Um ano depois, Marta estava pronta para entrar na faculdade. Um outro desafio, mas desta vez mais perto de casa. Foi um bom ponto de partida para a viagem da vida.

O Gap Year – conceito formulado pelos ingleses na década de 1960 – é muito comum na América do Norte e em alguns países europeus. Em Portugal, começou a ganhar adeptos nos últimos anos. Geralmente, os gappers, nome atribuído a quem faz um Gap Year, procuram um ano de reflexão e ampliação da visão do mundo e dos seus conhecimentos.

Nuno Afonso, 24 anos, é aluno do 3º ano de Ciência Política e Relações Internacionais na FCSH/NOVA. Fez Serviço Voluntário Europeu não uma, mas duas vezes. À semelhança de Marta, optou por fazer uma pausa nos estudos no final do ensino secundário, antes de entrar na faculdade. “Estava farto de monotonia e queria fazer alguma coisa por pessoas com menos oportunidades”, explica. Foi para a Macedónia, onde ensinava inglês numa associação de crianças com problemas de saúde. O jovem confessa que esta primeira experiência, de apenas 2 meses, ficou aquém das suas expectativas. “Senti que não foi feito o suficiente por aquelas crianças.” Influenciado pela mãe, que há muito tempo faz voluntariado em vários países, desde sempre ambicionou trabalhar numa organização não governamental. Depois do seu primeiro Gap Year, estava certo de que CPRI era o curso ideal.

No final do primeiro ano do curso, Nuno atravessou uma fase problemática da sua vida e decidiu voltar a “pegar na mochila”. Desta vez, com um propósito diferente. “Tentei descobrir-me a mim mesmo.” Foi para um campo de refugiados, na Turquia, onde esteve durante cerca de 4 meses. A nova oportunidade que deu ao voluntariado internacional ajudou-o a “crescer como pessoa e a perceber que tinha de acabar o curso”. Há muitas lições que se retiram de um ano sabático. Para Nuno, o mais importante foi aprender a refletir sobre si mesmo e sobre aqueles que o rodeiam.

Um novo ponto de partida

Heloísa Dias no final da licenciatura em Economia na School of Business and Economics da Universidade Nova de Lisboa ansiava por uma experiência noutro país “diferente das habituais aulas e dos trabalhos rotineiros”. Desta forma, decidiu participar na primeira edição do concurso Gap Year Scholarship, fruto de uma parceria entre a Gap Year Portugal e a NOVA SBE. Depois de apresentar o seu “projeto de impacto social”, acabou por vencer a competição e teve direito a uma bolsa de 5000€ para fazer um Gap Year e implementar esse mesmo projeto.

 Nos últimos seis meses a jovem percorreu seis países da América do Sul – Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile – onde fez voluntariado social em associações de mulheres indígenas, ensinou literacia financeira a jovens e foi voluntária num hostel. E como quem corre por gosto não cansa, decidiu prolongar o seu Gap Year e está neste momento no Brasil a trabalhar numa empresa de meios de pagamento.

Qual o resultado final dos últimos 6 meses? “Uma pessoa mais paciente e empática. Considero que estou mais tolerante às diferenças e sinto que fiquei com uma mente mais aberta.” A sensação é de “missão cumprida” por ter atingido algo que no início achou “não ser capaz” e por “servir de exemplo” para todos aqueles que ponderam fazer um Gap Year. Se tudo correr bem, ainda este ano pretende iniciar o mestrado em Gestão na NOVA.

Fazer um Gap Year compensa?

A Gap Year Portugal (AGYP) é uma associação sem fins lucrativos que tem como principal objetivo promover o conceito de Gap Year em Portugal e apoiar os jovens interessados em fazer um ano sabático. Foi fundada por dois amigos, Gonçalo Azevedo Silva e Tiago Marques, depois de terem feito uma pausa de seis meses, para viajar por 25 países entre a Europa, Ásia, Austrália e Nova Zelândia.

Marta de Sá já foi gapper. Hoje, é Relações Públicas e blogger da AGYP. Considera que o nascimento desta associação contribuiu para o aumento do número de gappers em Portugal. Anteriormente “a maior parte das pessoas não conhecia este conceito, ao contrário de países como Inglaterra, Austrália e Estados Unidos”. Na opinião de Marta, uma vez que o número de jovens portugueses que decidem fazer um ano sabático tem crescido anualmente, futuramente este será visto “como algo normal, tal como fazer Erasmus”.

A Relações Públicas da associação descreve o Gap Year como uma experiência que permite aos jovens quebrar a rotina, sair da zona de conforto e abrir os seus horizontes, já que convivem com mundos opostos. Afirma, aliás, que a realização de um Gap Year “será um grande acréscimo no currículo, visto que hoje em dia nenhum profissional procura alguém que tenha apenas uma licenciatura”.

Com um mercado de trabalho onde a procura excede largamente a oferta, as empresas procuram currículos que se destaquem pela diferença. O Presidente da Associação AGYP, Gonçalo Azevedo Silva, em entrevista ao Observador, explica que o problema da maioria dos jovens prende-se com o facto de “estarem anos na escola e não conhecerem mais nada além daquilo. Nunca saíram daquele ambiente controlado de educação formal”. Há muito para conhecer e aprender além dos livros e das salas de aula.

E para quem pensa que o Gap Year é só para os jovens, está enganado. Este ano de intervalo pode ser realizado desde a juventude até à terceira idade. “O mais normal é ser feito depois do secundário ou da licenciatura, mas cada vez mais há pessoas que a meio da sua vida profissional ou durante a reforma fazem um ano sabático”, acentua Marta de Sá.

Nem todas as estórias estão nos livros. Marta, Nuno e Heloísa construíram capítulos que certamente levam para a vida. Na bagagem trouxeram competências pessoais e profissionais e certezas sobre o futuro.

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Sobre o/a autor/a

Alexandra Mendes

Mudou-se para Lisboa para estudar Ciências da Comunicação na FCSH/NOVA. Desde cedo, o gosto pela escrita afirmou-se como uma certeza. Neste momento, acredita que o futuro passa algures entre jornalismo e comunicação estratégica. Mas enquanto este não chega, aproveita para alimentar vícios como fotografia, moda e viagens.

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