NOVAFRICA: estudar economia para mudar vidas

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Enquanto lê este texto, é provável que um membro do NOVAFRICA esteja a conversar com um habitante de uma aldeia rural em Moçambique. Perceber como vivem e se comportam as populações dos países africanos é o objetivo deste centro de investigação, cujo trabalho pode impactar a vida de milhões de pessoas.

Nasceu em 2011, no seguimento da abertura de uma escola de negócios que a NOVA SBE tem em Luanda, mas desde então o NOVAFRICA já se estendeu a mais cinco países africanos, entre eles Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Melhorar as condições dos habitantes destes países é o objetivo do NOVAFRICA, que pretende, a partir de estudos em aldeias locais, mudar a vida de milhões de africanos.

Cátia Batista, diretora científica do NOVAFRICA e Professora Associada na SBE, explica que a função deste centro de investigação é “produzir conhecimento local sobre economias africanas que falam português e, dessa forma, contribuir para o seu desenvolvimento económico e empresarial.” A forma como este conhecimento sobre economia é utilizado é a chave para a mudança.

Para entender mais concretamente o que faz este centro da Universidade Nova de Lisboa, é preciso saber primeiro o que é a economia do desenvolvimento. São “intervenções que podem ser feitas para melhorar a vida das pessoas”, sublinha Rute Caeiro, bem como “formas de medir indicadores” nesses países. A aluna de doutoramento em Economia do Desenvolvimento na NOVA SBE e membro do NOVAFRICA Student Group (NSG, grupo de estudantes que se interessa pelas áreas de estudo deste centro) explica que se trata de uma área que utiliza os conceitos da economia, a nível macro e microeconómico, e os aplica a economias em desenvolvimento.

Estudar pessoas para perceber economias

Estudar estas economias não implica apenas ler investigações e escrever relatórios, mas envolve um trabalho de campo diário de dezenas de pessoas. É a este trabalho que se dedicam os membros dos projetos NOVAFRICA, que estão neste momento em países como Moçambique ou Guiné Bissau.

Os mais de 20 projetos já desenvolvidos baseiam-se em métodos científicos, que envolvem a aplicação de um projeto-piloto numa aldeia rural, a sua expansão para algumas dezenas de aldeias e, por fim, a publicação dos resultados obtidos.

O mobile money é um serviço financeiro de dinheiro eletrónico, que pode ser acedido a partir de um telemóvel. O serviço permite que qualquer pessoa tenha uma conta bancária com o seu número de telemóvel, podendo guardar e movimentar dinheiro. Dois anos antes do início do estudo, este serviço havia sido aplicado no Quénia. Durante este período, atingiu metade da população e 10% do PIB já circulava neste sistema. Foi um avanço tão rápido e em tão grande escala que ninguém o conseguiu estudar. “Em Moçambique tivemos uma oportunidade excecional. Sabíamos que o serviço ia ser introduzido no país antes de isso acontecer”, refere Cátia Batista, justificando que esta foi uma boa oportunidade para o centro de investigação fazer uma parceria com o operador de mobile money. A escolha dos projetos tem por base oportunidades como estas.

Depois de definidas as linhas gerais de trabalho, as equipas do NOVAFRICA escolhem aldeias onde implementam o estudo. Durante alguns anos, membros destas equipas visitam as aldeias onde o serviço está instalado, bem como outras onde não se fez qualquer intervenção, para inquirir os seus habitantes.

Matilde Grácio, aluna de doutoramento da NOVA SBE e membro do NSG, fez parte destas equipas, embora noutro projeto semelhante. Matilde destaca todo o trabalho que é necessário para colocar em prática os estudos. Implica definir as linhas principais, “pedir autorizações para começar a trabalhar com as pessoas, fazer o questionário, conhecer as zonas”, esclarece. “Deu imenso trabalho, mas é uma coisa que adoro fazer por isso não me importava de lá estar.”

Contudo, estes projetos nem sempre envolvem alunos portugueses de forma permanente. Na verdade, a grande maioria dos colaboradores são africanos, sobretudo estudantes universitários. “Os projetos são feitos em estreita colaboração com os professores e alunos da NOVA em Lisboa e com uma série de pessoas, organizações e alunos destes países”, esclarece a professora da SBE.

 Dos milhares para os milhões

Depois de visitar frequentemente as aldeias e obter os resultados das entrevistas, o NOVAFRICA pode tirar algumas conclusões sobre o impacto das suas intervenções nessas zonas.

No caso do projeto de mobile money, “o que verificamos” – conta Cátia Batista – “foi que com a introdução deste serviço houve menos pessoas a passar fome, porque estas pessoas que passaram a ter o serviço financeiro telefónico começaram a poder pedir dinheiro à família que está em Maputo quando acontece alguma «desgraça».” Uma “desgraça” é a expressão que os moçambicanos usam quando, por exemplo, morre um familiar ou alguém fica desempregado. “Fazendo os mesmos inquéritos, nas zonas que foram tratadas e nas zonas que não foram, verificámos objetivamente que o impacto mais forte foi esse. Apesar de as pessoas não estarem mais ricas, não estarem a consumir mais em média, quando lhes falávamos de situações mais graves, elas tinham sofrido menos”, explica a diretora científica.

O passo seguinte é a divulgação de resultados como estes. A produção de conhecimento não é, porém, o fim último. É a partir dos estudos publicados pelo NOVAFRICA que grandes doadores internacionais investem na aplicação a grande escala destas intervenções. O objetivo é sempre melhorar a vida das pessoas, porque são elas, de acordo com Cátia Batista, a “riqueza principal”.

“Em vez de os doadores internacionais simplesmente entregarem a ajuda nas mãos dos governantes africanos, hoje a abordagem passa por testar as ideias. E nós fazemos exatamente isso”, esclarece a professora da SBE.

“Trabalhamos com milhares de pessoas, para verificar o que funciona e não funciona em determinada iniciativa de desenvolvimento, e assim os doadores têm outra segurança para investir milhões.” Entre os maiores doadores encontram-se o IGC (International Growth Center), o USAID (United States Agency for International Development), o Banco Mundial e a União Europeia. São grandes instituições como estas que financiam os estudos do NOVAFRICA para saber quais as intervenções onde devem fazer investimentos, de modo a melhorar a condição económica e social dos africanos.

Atualmente, o NOVAFRICA está a terminar as formalidades para um projeto de autoexperimentação no norte de Moçambique, sobre a adoção de novas tecnologias por parte dos agricultores locais. Em outubro, os projetos-piloto vão começar.

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