Projeto de Joaquim Gaspar pretende mapear a história da cartografia náutica

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Foi há aproximadamente seis séculos que partiram os primeiros navios para atravessar “mares nunca de antes navegados” (em Os Lusíadas). Mas como eram produzidas as cartas náuticas que permitiram aos portugueses chegar aos quatro cantos do mundo? É a esta e outras questões que Joaquim Alves Gaspar pretende responder com o seu mais recente projeto.

Não conformado com a ideia de, depois de passar à reserva, “ir jogar sueca para o jardim”, o antigo capitão da Marinha Portuguesa Joaquim Alves Gaspar, de 67 anos, decidiu dedicar-se ao estudo exaustivo da cartografia náutica. O seu novo projeto, “The Medieval and Early Modern Nautical Chart: Birth, Evolution and Use”, arranca este ano com o apoio de uma bolsa europeia de 1,2 milhões de euros, atribuída pelo Conselho Europeu de Investigação – European Research Council (ERC). É o primeiro projeto ERC especificamente dedicado à história da cartografia.

Em 2010, ano em que entrou para a reforma, terminou o mestrado em Gestão da Informação – Sistemas de Informação Geográfica, tendo já publicado dois livros sobre cartografia, em 2000 e em 2004. “Uma amostra”, conforme refere o investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologias (CIUHCT) da Universidade de Lisboa e da Universidade Nova de Lisboa, quando comparado com a dimensão do projeto de investigação que agora lidera.

Nos próximos cinco anos, Joaquim e uma equipa de cinco elementos, entre eles o professor do CIUHCT Henrique Leitão, estudarão as cartas náuticas antigas utilizando métodos inovadores desenvolvidos por si, nomeadamente processos matemáticos e métodos de análise da geometria das cartas. Com o uso destas ferramentas, os investigadores pretendem, através de modelos e modelações numéricas, simular como é que as cartas náuticas da Idade Média e do período Pré-Moderno eram construídas.

Atualmente, apesar de toda a matemática e termos teóricos subjacentes à cartografia já terem sido desenvolvidos, esta disciplina adquire elevada importância já que tudo é georreferenciável e os fenómenos estão associados a posições geográficas. Pelo seu caráter mais rigoroso e especializado, os investigadores, servindo-se de métodos digitais e matemáticos, conseguem agora comparar as cartas náuticas entre si e descobrir como é que estas eram construídas tendo por base o conhecimento e a deformação magnética da época (a deformação magnética varia consoante o tempo e o espaço e, como não era calculada na Idade Média, deformava as cartas náuticas).

Joaquim Gaspar propõe assim revelar a génese da cartografia náutica, dando resposta às questões: “Porquê? Onde? Quando? E como nasceu a cartografia náutica?”.

Hoje em dia pensa-se que as primeiras cartas portulanas (antiga carta náutica europeia, do século XIII ou posterior, que tinha a função de fornecer direções e distâncias entre os principais portos) nasceram por volta de 1200. Porém, eram objetos muito diferentes do que era a cartografia da época, podendo dizer-se, conforme assegura Joaquim Gaspar, “que quase não existia cartografia na época”.

A cartografia náutica existente na Idade Média distinguia-se da cartografia simbólica ou terrestre, uma vez que a cartografia náutica tinha em vista fins práticos e a cartografia simbólica servia um fim meramente representativo. Como tal, a cartografia náutica e a cartografia terrestre têm géneses diferentes e foram afetadas de diferentes formas pelos meios e técnicas que surgiram na época.

Com a fusão dos elementos náuticos já existentes, como o astrolábio e o quadrante, com os novos meios de transporte, como a caravela, deu-se a possibilidade de determinar, de forma astronómica, a latitude a bordo dos navios, o que tornou a navegação oceânica mais segura. O projeto do CIUHCT abordará também os métodos de navegação introduzidos pelos portugueses, que alteraram significativamente a geometria das cartas náuticas e deram origem às cartas de latitude. Cartas essas que viriam a viabilizar a política expansionista levada a cabo pelo Infante D. Henrique no século XV.

De acordo com o professor catedrático João Paulo Oliveira e Costa, historiador da FCSH/NOVA, “houve uma escola, não no sentido literal mas no sentido de um ‘movimento’, de fazer coisas novas, decorrente do cruzamento de saberes e que são capazes de responder aos desafios colocados pelos navegadores.” Foi em Lagos, e não em Sagres, que o Infante D. Henrique agregou um conjunto de especialistas e estabeleceu a sua base de operações. “Quem marca o ritmo dos Descobrimentos são os navios do Infante” que, segundo o historiador, provavelmente começaram a sair de Lagos em 1422 para dobrar o Cabo Bojador.

Com o intuito de procurar no exterior aquilo que não tem dentro das suas fronteiras, Portugal vai alargando a sua área de influência no Atlântico e, em 1488, Bartolomeu Dias ultrapassa o Cabo da Boa Esperança e abre o Índico à exploração portuguesa. Apesar dos ventos de monção contrários, característicos do Índico, dez anos depois, a 20 de Maio de 1498, Vasco da Gama alcança a Índia e conquista o seu lugar na História.

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